por Almir Castro
Barros*

Severino Filgueira e Almir Castro Barros
Um poeta difícil. Ou, noutras
palavras, destinado a romper com o convencional. Capaz de dissonâncias
como as inventadas por Rimbaud.
Neste início do século
XXI, onde praticamente tudo se tornou possível, e até
o medíocre assumiu tronos de perpetuidade, Severino Filgueira
parece estar dando continuidade a uma poesia de encanto assustador.
Ele é capaz de imagens comparáveis a “coches cruzam
o céu; há um salão na profundeza de um lago.”
Transponho-me para o seu tear
poético, ao reler de Hugo Friedrich, sobre o que chama fantasia
ditatorial, referindo-se à poética do autor de Illuminations:
A fantasia ditatorial não procede observando e descrevendo, mas
sim com uma liberdade ilimitadamente criativa. O mundo real se rompe
sob a imposição de um sujeito que não quer receber
seus conteúdos mas, sim, quer impor sua criação.”
Na medida alta de seu poder inventivo,
talvez se encontre a explicação para o silêncio
e a solidão a que se entregou o poeta Severino Filgueira, pela
provável convicção de pouco ou nada ter a falar
aos que lá fora se elogiam, se bastam e glorificam.
Dizer mais da poesia de Filgueira
é ofício da crítica de carreira, dos teóricos
e detentores de estrovengal ontológico, a capacitá-los
na difícil tarefa. Como se verá, minha finalidade aqui
é outra.
Excepcionais da legítima
beleza, como Filgueira, necessitam de ser lembrados ou descobertos por
seus contemporâneos, sob pena de gerações epígonas
os encontrarem por acaso, passando a acusar seus vizinhos de tempo de
insensíveis, cegos ou incompetentes.
Amigo e admirador do poeta, há
mais de 30 anos, sei de sua despreocupação e alheamento
quanto às glórias da terra. Severino é daqueles
que escrevem com muito rigor – só isso. Com esse comportamento,
pode se incluir na observação de Pound, contida em seu
ABC da Literatura: “Há uma qualidade que une todos os grandes
escritores: escolas e colégios são dispensáveis
para que eles permaneçam vivos para sempre. Tirem-nos do currículo,
lancem-nos à poeira das bibliotecas, não importa. Chegará
um dia em que um leitor casual, não subvencionado nem corrompido,
os desenterrará e os trará de novo à tona, sem
pedir favores a ninguém.”
Conquanto tenha o peso da verdade
a lição do criador de Os Cantos, e similitude com a trajetória
silenciosa de Filgueira, Ezra Pound se refere a autores já publicados
em livro. Severino, atualmente com mais de 60 anos, embora tenha dedicado
a vida ao exercício da poesia, poucas vezes desfrutou da alegria
de vê-la mover-se fora do limbo.
Através da Editora Pirata,
e por ação dos escritores Jaci Bezerra e Alberto Cunha
Melo, publicou em 1979 um livro fininho a que chamou Iniciação
à Fábula. Antes, e não mais que isso, teve seu
nome incluído numa antologia – Quíntuplo –
com uma série de 20 poemas, batizados pelo título Aposentos
do Sonho.
Por isso é preciso, já,
retirar-se da indigência a grande quantidade de originais da estranha
e fecunda poesia produzida por este poeta, que optou por consumir discretamente
sua atribulada existência, sem nada pedir. Repito: é preciso
publicá-lo em livro, antes de arrebatá-lo a evanescência.
Não é justo que
o deixemos, todos, continuar confessando à própria sombra:
Não sei onde vá
encontrar a fé
e a idéia da beleza.
Aí está toda minha vida,
povo do povo, ao acaso do dia.
Nada sei do ofício das palavras
nem tampouco do povo
e o povo de mim.
Todos os poetas dormem
mas ainda estou falando e ouvindo
meu próprio coração
no universo. Custa a vir
a aurora. Penso
em andar ao sol ainda
hoje.
Misto de vagabundo e maldito,
de quem conheço histórias cômicas e melancólicas,
o caminho do seu endereço tem início nos bairros do Recife,
por onde caminha a esmo, todos os dias.
Os mais próximos de sua
amizade, sabem aonde encontrá-lo e a poesia por ele acumulada.
Poesia de profundidades, a beirar o enigmático, só comparável
à realizada pelos fincadores do divisor de águas, entre
a moderna lírica e a tradição. O que escreveram
estes feiticeiros da palavra corresponde ao inventário revisitado
por Severino Filgueira, poeta (quase) sem seguidores. Analisar sua poesia
impõe a responsáveis pela missão, instrumental
ousado e domínio do tema “desumanização da
arte”, fonte e equilíbrio de toda a arte moderna.
Enquanto nada se diz ou faz pela
instigante e esquecida obra deste artista, ele consegue – sonhador
e indiferente – “Andar no domingo à noite sem saber,
/ erguendo os sentidos ardentes dos vazios / em edições,
de degraus sujos de virtude, / às vezes causa de amontoado de
palavras / que, repetidas, arrastariam as patas sem atingir / o mínimo
de areia inconstante do mar.”
*Almir Castro
Barros é poeta e advogado.
almircastrobarros@hotmail.com
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