JANICE
JAPIASSU
DIÁLOGOS COM A POESIA
por Felipe Casado*
Janice Japiassu nasceu em
Monteiro, no estado da Paraíba. Residiu em várias cidades
do sertão paraibano e pernambucano, até vir para o Recife
em 1960. É formada em Filosofia pela UFPE. Tem curso de especialização
em Filosofia e mestrado em Educação. Trabalhou na área
de educação na Sudene, entre 1966/91. Escreveu seu primeiro
livro de poesias – O Canto Amargo – em 1964.

“Por que as pessoas querem
encaixotar a gente?”, indaga-se a escritora durante a entrevista
realizada em seu apartamento no Paissandu. Em seu poema “A Fraternidade
das Artes”, ela complementa esse pensamento:
“Quando Deus me fez, fez
junto
Alma, corpo, mente e graça
Não deixo que me repartam
Cada pedaço em uma caixa”
Mais tarde, Janice Japiassu me
apresenta mais uma poesia com algo em comum. Chama-se “Amor e
Arte -2”:
“Me disseram que se amava
assim:
Cada anseio numa caixa
Cada sombra numa regra
E cada luz numa pasta”
A poesia de Janice é libertação.
Não se prende a regras nem se deixa encaixotar. Seu sentimento
flui como uma dançarina que se desprende da materialidade e desenha
passos sobre o solo, como uma borboleta que flutua sobre o ar num delicado
plano de vôo, sem amarras. Unida a isso está a música,
que compõe o cenário perfeito para se entrar em “Sintonia”,
tema de outro de seus poemas:
“A dança chega
depressa
Quebrando todos os muros
A música abraça o tempo
E o tempo abraça o mundo”
A dança e a música
são peças fundamentais da vida de Janice Japiassu. O piano
em sua sala estimula a nossa imaginação: Janice pianista,
como é bom de se imaginar! Depois vem a revelação:
trocou o carro pelo instrumento musical e aprendeu a tocar verdadeiramente
aos 50 anos de idade.
Janice sem carro, Janice com asas.
“Amor e Arte – 7”:
“Entrei leve em seu desenho
Como uma andorinha no vôo
E forte no seu destino
Como uma loba no cio”
A música também
é libertação. E assim como na poesia, a escritora
não poderia deixar de trabalhar o seu lado musical. Escreveu
o livro Contracantos, com cifras de composições famosas
e letras escritas por ela. Junto com o livro um CD, no qual ela canta
as músicas que estão no livro. Em “Tempo... tempo...
tempo...”, ela diz:
“A música é
o sentimento do tempo
A dança são seus vestidos
O corpo, seu movimento
E a alma, seu sentido”
A natureza também está
presente em sua temática. Sua ligação com a terra,
o ar, o fogo e a água são evidentes em vários aspectos
da sua vida, principalmente no seu lado mais místico. Os sentimentos
são comparados às plantas, que necessitam de cuidados
especiais diários para que cresçam e floresçam.
Como diz em “Amor e Arte -2”:
“Estou construindo o amor.
Todo dia ponho água em suas folhas
Acaricio suas flores
E colho seus frutos maduros”
Para cada uma dessas poesias Janice
fez um desenho. Seus traços e formas circulares refletem a forma
da escritora enxergar o mundo: “O jeito feminino de ver o mundo
é circular e não retilíneo”, confirma. Na
sua poesia também é fácil identificar isso. Assim
diz um trecho do poema “Conjunção-2”
“Na hora da beleza a dor
se esconde
O sol abraça Vênus docemente
A noite ressuscita, a luz acende
E o mundo é feminino novamente”
Difícil é despedir-se
de Janice Japiassu. O consolo é saber que cada uma de suas poesias
traz muito de sua essência. Eu me despeço da escritora
e saio com alguns de seus versos na cabeça:
“Ao sinal da Mulher o
amor se espalha
Por todas as clareiras do universo
As artes confabulam um canto novo
E os cantores cantam para a terra”
Até a próxima, Janice!
*Felipe Casado,
jornalista, estudante de Letras e bolsista do Programa Institucional
de Bolsa de Iniciação Científica (Pibic) da Universidade
Católica de Pernambuco.
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