por Flávio
Chaves**
A formação humanística,
que recebeu na escola e que foi enriquecida pela profissão de
jornalista, observador dos fatos e construtor da História, levou
Robson Sampaio a desenvolver outra face do seu talento. O dom para fazer
poesia comprometida com o social resultou de uma longa trajetória,
sem cuidar apenas da geografia ou da economia, mas atento à vida
que se apresenta sob várias formas, às vezes complacente
com uns e dura com outros.
Mas, ao olhar atento do poeta
jamais passaram despercebidas as luzes e as cores de sua cidade, o Recife,
o mistério do entardecer no verão, a ternura das prostitutas
e dos bêbados perambulando pelos becos. A cumplicidade dos boêmios
e dos poetas no encontro casual madrugada adentro. A conversa de botequim
depois de uma longa jornada de trabalho. Os bares projetados na direção
do porto. O entardecer do domingo para a menina-moça faceira.
Os sonhos e cheiros que perambulam em sua memória.
O horizonte para Robson Sampaio
extrapola os limites do cotidiano, nem sempre rotineiro. A perspicácia
o conduz a outros caminhos em busca da matéria-prima indispensável
à tessitura de seus versos. Chega ao Sertão, "terra
em brasa, muito tição", na descoberta de uma região
marcada pela secura da dor, do sofrimento que arrasta um cordão
de gente pela estrada e mais parece assombração.
O amor, porém, não
passa sem um registro do poeta. Afinal, é o amor que dá
graça e beleza à vida, marcando-a por instantes. E foi
o amor que fincou raízes no coração do poeta e
fugiu ao controle de sua mente. Foi o amor que o ajudou na composição
dos versos e a ritmar o canto. Foi o amor que traçou o seu destino
o amor nos remete a São Paulo na Epístola 13 aos Coríntios:
"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, senão
tiver amor, serei como bronze que soa, ou como o címbalo que
retine".
Outros dias virão, trazendo
no seu bojo novas descobertas, notícias, informações,
as quais para Robson Sampaio não servirão apenas como
conteúdo na elaboração de reportagens ou de entrevistas.
Por certo, toda essa volta que a vida dá, ou oferece, vai estimular
o poeta a outras composições, capazes de mexer com o espírito
e o coração dos leitores, daqueles que sentem os sinais
contidos em cada verso.
Estilo acadêmico, linguagem
intimista, linhagem erudita, o poeta Robson, nos demonstra está
atento e antenado com o tempo presente, doído e cinzento, na
alma dos transeuntes e das ruas de um Recife cruel em seu silêncio
dilacerante, diante do mapa magro de secos ossos dos olhares dos caídos,
sem destino.
Tudo isto percebemos na lente
observadora do edifício invisível escalado pelo poeta
Robson Sampaio, alardeando que a cidade está sem piso para os
semelhantes, sobreviventes no infortúnio, encontrarem a geografia
do caminho e do seu chão humano. Em síntese, Robson Sampaio
faz parte da significativa plêiade dos poetas pernambucanos, rica
não apenas demograficamente como também em expressão
e sensibilidade. Podemos citar, Jaci Bezerra, Lucila Nogueira, Ângelo
Monteiro, Paulo Gustavo, Luís Vidal, Lourdes Sarmento, Marco
Pólo, Orismar Rodrigues, César Leal e tantos outros que
iluminam e engrandecem as artes e as letras pernambucanas.
*Apresentação
do livro "O Recife & Outros Poemas" de Robson Sampaio
**FLÁVIO
CHAVES, Jornalista e poeta, imortal da Academia
Pernambucana de Letras (APL), ex- presidente da Associação
da Imprensa de Pernambuco (AIP) e presidente do Centro Brasileiro de
Preservação Histórica, Artística e Cultural.

o poeta Robson Sampaio
Não
deixem o Recife morrer!*
por
Marco Albertim**
O principal traço da poesia
de Robson Sampaio é a captura do cotidiano. Traduz com justeza
cada fato ou fenômeno, por mais fortuito ou acidental que aparente
ser. Assim, o primeiro verso de "Sertanejo da Dor" - "O
sopro surdo do vento parece murmúrio de vozes em lamento pela
morte" - foi escrito sem riqueza de detalhes, mas com objetividade
robusta. O que poderia ser mero acidente climático é flagrado
em ruidosa conspiração contra a vida, ou fazendo esforço
insistente para se comunicar com o mundo dos sensitivos.
A sua preocupação
é com os retirantes. Num estilo franco, como se estivesse usando
medidas de precisão, não tem a menor dúvida ao
dizer que "O chão é um mar em brasas, com a folhagem
sem cor e a natureza perdendo a vida". É a síntese
poética. No remate há uma nota pungente, cruelmente veraz;
dir-se-ia um lamento de Euclides da Cunha a cada intervalo de suas incursões:
"E a caatinga vira léguas de/ judiação do
sertanejo da dor..." "A afirmação é terrivelmente
verdadeira, poderia findar-se por aí, até porque não
cabe ao poeta dar explicações. Mas, o autor parece desesperado,
não vê saídas e se pergunta, perplexo: "penitência?"
Em "Filhos da Caatinga",
o tema da "terra em brasas" é retomado com fúria
de sertanejo em vias de sublevação. "A terra é
seca e batida,/ igual alma sem alumiação,/ mas de gente
com fé no Santo,/ indo e vindo, solta pelo Sertão..."
O retirante erradio é como o gado, pensa o poeta, para em seguida
dar o enunciado: "Cruz-credo, Ave-Maria,/ dê-me a bênção,
padim Ciço,/ pois é só dor no meu Sertão./
Mas juro meu Santo querido,/ que de fome a gente num morre não".
A plasticidade do verso é acentuada pelos ícones dos camponeses;
há misticismo e valentia em combinação perfeita;
um ajudando o outro.
De volta à cena urbana,
o autor se mostra saudosista, tristonho, até com certa lamúria.
O ritmo, entretanto, permanece coloquial, sem cair na banalidade. Para
ele, há no Recife "Poemas em cada esquina,/ em cada bar,
em cada desilusão./ Enchem e perfumam ruas e bairros,/ da Aurora
ao Bairro do Recife". Não se contenta e se espoja em cada
nicho da Cidade, quando se refere a poetas já falecidos: "São
pedaços de cada um de nós,/ poetas, vivos ou mortos".
A imortalidade da obra de cada um é assim afirmada: "Eles,
como nós, teimam em poemar a vida no Recife e a não dormir
com a morte".
O que dizer da moça de
olhar perdido, só, na esquina deserta, mas sob a jurisdição
da mãe? O nome do poema é "Domingo Doce". "Na
esquina, parada/ lambia o pirulito/ como se o domingo/ fosse um doce
e/ nunca tivesse fim". Aqui, a inocência que os adultos já
perderam é flagrada num discurso sem penduricalhos, com a economia
necessária a não deixar escapar qualquer traço
do mesmo sentimento. Da mesma forma é apreendido o que se passa
na apreensiva mãe. "Na face da mãe,/ o grito da dor
eterna,/ embora o domingo continuasse doce,/ assim como o pirulito e/
a menina-moça..."
Vale a pena ler Robson Sampaio.
Os mais de 38 anos de Jornalismo trouxeram-no para o resgate da poesia
telúrica. De seus versos, sente-se o bafejo de dois recifes:
o Antigo, cheio de assombrações femininas e de poetas
lhes fazendo a Corte; e o Novo, morrendo e, por isso mesmo, a lembrar
o primeiro. Sente-se que o vernáculo em suas mãos não
foi ofício vão. Nele há uma sonora reivindicação:
não deixem o Recife morrer!
*Prefácio do
livro "O Recife & Outros Poemas" de Robson Sampaio
**MARCO ALBERTIM,
escritor e jornalista
foto: Cristina Dias
|
O
Recife & Outros Poemas
Robson Sampaio
Recife 2007 |
Entre em contato com o autor através
do e-mail:
rsampaio@folhape.com.br
Confira poemas de Robson
Sampaio e Flávio Chaves na seção
Cardápio de Poesia