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Tu tás aonde?

A costumeira primeira pergunta em 90% das ligações de celular é o título deste livreto com os mais novos e inéditos poemas de Miró. Sua poesia, assim como os celulares, passeia pela cidade. É cheia dos personagens invisíveis das metrópoles brasileiras, de lugares menos convencionais e mais populares, de situações urbanas desconcertantemente líricas, bem-humoradas e cortantes.

A poesia de Miró, assim como os celulares, é viva voz. Porque sua arte é muito maior ao vivo.

                                                        capa do livro
 
 

Quando assistimos a Miró interpretando seus poemas, percebemos o quanto sua voz, seus gestos e sua presença encantam quem escuta. Ler é sem dúvida uma viagem e tanto mas assistir, sim, é o grande barato. Se você comprou esse livreto, sabe disso, porque a poesia dele, assim como os celulares, é feita para ser usada nas ruas e deve ter sido através do contato direto com Miró que este livreto veio parar em suas mãos.

Bem, mas que danem os
celulares, quem liga?
Quem sabe onde estamos?
Alguém lembra aí?
  
  
Trelles
 

 

 


Comentário acerca dos poemas do livro

Muribeca, tarde de domingo de 1994.
Foi quando vi, pela primeira vez, Miró recitando seus poemas no já extinto “reguinho filosofal”. Belas tardes de domingo aquelas. Percebi, impressão depois confirmada, que se a casca dos seus poemas era diversa, o miolo era o mesmo: a alegria e dor de se saber poeta e humano - coisas, cá entre nós, nada fáceis nos dias de hoje.

 
 


o poeta Miró durante apresen-
tação na RECITATA 2007

  Nos poemas de Miró encontramos frases e imagens que nos deixam perdidos em pensamentos: “o beija-flor invade meu apartamento e beija as flores artificiais que minha mãe comprou na feira”; outro exemplo é a linda imagem do poema Inauguração, que nos remete a uma pracinha, recém-inaugurada, que presenciará tantos beijos que dá pra eleger um vereador. Coisas de poeta, esse “bicho das nuvens”, que brincando com as palavras nos mostra o que vemos e não enxergamos. Lembro-me de Mario Quintana afirmando que  

“Deus criou este mundo. O homem, todavia, entrou a desconfiar cogitabundo... decerto não gostou lá muito do que via... e foi logo inventando outro mundo”.

Parafraseando um poema-oração de Miró, torço para que Deus continue fazendo chover no seu coração, e que ele continue nos presenteando. como agora, com o seu e outros mundos.

Alexandre Valdevino
 

 

trechos do livro

 

Dona Irineu, ficou rica
com cheiro de óleo quente
obesa
com cheiro de óleo quente e verduras
teve reumatismo crônico nos dois braços
mas ficou rica
a única coisa boa que guardou
foi o sorriso largo aos clientes
e a touca branca
pra não cair nenhum fio de cabelo
nos pastéis que vendia
perto da universidade
nunca se formou em nada
mas ficou rica
seu Isaías, não agüentou o tranco
foi trabalhar na Sonho Real
passando jogo do bicho
acertou uma milhar na cabeça
abriu uma rede de pastéis
ficou obeso
com cheiro de óleo quente e verduras
mas ficou rico

 


o livro TU TÁS AONDE? encontra-se a venda com o autor pelas ruas da cidade.

Mais sobre Miró nas seções: cardápio de poesia, galeria dos mortais, o poeta e sua voz e entrevista

  

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