| EPARREI
A esse golpe
avança o escudo polido
da lembrança:
lembro que já me esquivei,
rápida desviei dos perigos.
Outras tantas
caí por batalha – risos
não há vida sem fracassos.
Só permaneço inteira
porque teimosa
junto, todo dia, meus pedaços.
DEZESSETE
Amanhã acordarei nua
com meus pés sob fino espelho d'água
e à lua e sol
prazenterei meus desencantos.
Nua, mergulharei meus desejos:
sobraços e enjôos de angústia,
mas reterei por um instante
a lúcida visão entre meus dedos.
Amanhã acordarei nua
e não terei fantasias sobre a pele
que fria e atenta
aguardará as penas de um vôo leve.
ÁGUA
A minha alma trabalhadeira
parece exausta
está tanto e tão cansada
que dos meus olhos brotam suor
a todo instante
fantasiado de lágrima.
SURPRESA
chuva de vento esse teu amor
carregou chapéu e lenço
deixou-me um frio tirano
bagunçou todo meu plano
e estiou
DESAFORO
Quem foi que lhe disse que a porta andava aberta
e descoberta a trilha que leva até a mim?
Quem lhe falou que era a hora certa
e que na certa eu estaria a fim?
Não, não me cutuque com sua vara curta
talvez não surta o esperado efeito
se fui fiel como calada e surda
hoje sou curda, faço o meu conceito.
Revolva a cara
desmanche a testa
tire o seu copo
da minha festa.
Desfaça a farsa
deixe o que resta
tire o seu corpo
da minha fresta.
POEMINHA LIVRE
Não é que meu peito se sinta vazio.
Talvez em cio - sim,
e, em sua fertilidade, espera.
Mas a hábil lógica, essa se refestela na acusação,
apontando pra ela e pro coração:
viu, sua louca? Não tem sentido.
E eu, simples: é... tem mesmo não!
(mas é que meu sentido,
a essa hora,
anda vadio por tua mão, João)
MATÉRIA
A Paulo Leminski.
esse suposto abandono
coração que desanima
ainda passa um dia
até lá
vai dando a matéria-prima
da poesia
O QUE SE ESCOLHE GUARDAR NA MEMÓRIA
minha lembrança não é do céu
nublado
nem do cair da tarde fumacenta
não é do tempo fechado
é do ar do dia, é
da noite fria e
desatenta |