VOLTAR À PÁGINA INICIAL

 

Rebeca Oliveira Duarte
(1974 Recife/Pernambuco)

 

 


A
B C D E F G H I J K L M

N O P Q R S T U V W X Y Z

 

 

EPARREI

A esse golpe
avança o escudo polido
da lembrança:
lembro que já me esquivei,
rápida desviei dos perigos.
Outras tantas
caí por batalha – risos
não há vida sem fracassos.

Só permaneço inteira
porque teimosa
junto, todo dia, meus pedaços.

 

DEZESSETE

Amanhã acordarei nua
com meus pés sob fino espelho d'água
e à lua e sol
prazenterei meus desencantos.

Nua, mergulharei meus desejos:
sobraços e enjôos de angústia,
mas reterei por um instante
a lúcida visão entre meus dedos.

Amanhã acordarei nua
e não terei fantasias sobre a pele
que fria e atenta
aguardará as penas de um vôo leve.

 

ÁGUA

A minha alma trabalhadeira
parece exausta
está tanto e tão cansada
que dos meus olhos brotam suor
a todo instante
fantasiado de lágrima.

 

SURPRESA

chuva de vento esse teu amor
carregou chapéu e lenço
deixou-me um frio tirano
bagunçou todo meu plano
e estiou

 

DESAFORO

Quem foi que lhe disse que a porta andava aberta
e descoberta a trilha que leva até a mim?
Quem lhe falou que era a hora certa
e que na certa eu estaria a fim?

Não, não me cutuque com sua vara curta
talvez não surta o esperado efeito
se fui fiel como calada e surda
hoje sou curda, faço o meu conceito.

Revolva a cara
desmanche a testa
tire o seu copo
da minha festa.

Desfaça a farsa
deixe o que resta
tire o seu corpo
da minha fresta.

 

POEMINHA LIVRE

Não é que meu peito se sinta vazio.
Talvez em cio - sim,
e, em sua fertilidade, espera.
Mas a hábil lógica, essa se refestela na acusação,
apontando pra ela e pro coração:
viu, sua louca? Não tem sentido.

E eu, simples: é... tem mesmo não!

(mas é que meu sentido,
a essa hora,
anda vadio por tua mão, João)

 

MATÉRIA

A Paulo Leminski.

esse suposto abandono
coração que desanima
ainda passa um dia

até lá
vai dando a matéria-prima
da poesia

 

O QUE SE ESCOLHE GUARDAR NA MEMÓRIA

minha lembrança não é do céu nublado
nem do cair da tarde fumacenta
não é do tempo fechado

é do ar do dia, é
da noite fria e

desatenta

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos