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Raimundo de Moraes
(Recife/Pernambuco)

 

 


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ELEGÍACA *

        A palavra é a minha quarta dimensão.
                     Clarice Lispector         

 

Segui os passos
da menina de Tchetchelnik.
Dez luas passaram flechadas por Sagitário
Maçãs no claro ofertam-se de tanta maturação:
ensangüentadas, reluzem. Balançam lustres
em din-dlens de poeira suja.
Aqui
a Praça Maciel Pinheiro
circunda o Tempo.
O casarão 387
é agora insípido e laranja
(mas vi entre uma e outra janela
a menina sorrir para mundos distantes).
Longe
as esquinas de Nápoles Berna Torquay Washington.
(As esquinas do mundo são iguais
quando punge à solidão
a lembrança de tudo que fomos).
Corro pelos caminhos de mais um solstício
a cidade ergue-se em dóricas faiscantes
escaravelhos brotam da terra
e no rosto eslavo
pupilas pulsam quasars.
É por ti:
elevo-me à tua memória.
Candelabros iluminando a noite
o Kaddish arrebanhando os perdidos como nós
- percorro os caminhos da mulher de Tchetchelnik.
O olhar oblíquo.
A boca rubra.
A safira no dedo.
A Estrela de Mil Pontas
rompendo gargantas. É Palavra.
Aponta Sagitário mais uma seta em riste.
Agora, sabeis: no coração selvagemente livre.

Salve 9 de dezembro.


* Prêmio 2006 “Mostre seu Talento”, promovido pela Chesf e Sindicato dos Bancários de Pernambuco.

 

 

luz

você não sabe
que a dor de viver
também se mede em quillowatts
eu sozinho
poderia iluminar
uma cidade inteira

 

 

o outro testamento

magnólias gigantes
         rompem o gelo
         de um Alaska imaginário
         (então de tão brancas
           quem há de imaginar
           este sangue transformado em pétalas?)
         ele está cercado de icebergs e
pelo céu chumbo sustentado em esperanças.
         mas seu desejo caminha
         nas praias ensolaradas
         em coqueiros que se movem dolentes
         na brisa dos trópicos.
         e então
         de tão rubra cor
         guarda em segredo
         os passos
         da própria morte anunciada.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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