por
Ivan Marinho
Ouve-se, muitas vezes, as pessoas tratarem a cultura popular ou regional como manifestação tradicional do passado e, portanto, deslocada, no espaço e no tempo, do fazer lúdico contemporâneo, marcado pelas aculturações permanentes, no tempo que se chama de real. Na maioria das vezes, os que concebem estas manifestações como “coisas da cultura”, não enxergam a multiplicidade de expressões, carregadas de motivos, todos decorrentes das relações humanas, que se agrupam atendendo às necessidades afetivas dos grupos sociais. E ainda, mais grave do que não perceber a diversidade estética e suas motivações particulares, é não tomarem conta do seu grande sentido: o da gratuidade.
Alguns elementos comportamentais dotam o povo brasileiro de um caráter único, dando-o um perfil de nação, como a alegria, a espontaneidade, a malandragem (esperteza, que Ariano Suassuna classifica de “sabedoria do povo”)... no entanto, nada é mais característico do que sua inclinação à gratuidade. Diz-se que o povo brasileiro é, talvez, o único que se encontra pelo simples prazer de se encontrar, ou seja, sem planejamento e sem planos.
Mas é justamente sobre esta virtude que sentimos o arrocho de um nó cego dado em corda molhada e sem piedade. É que o acesso aos bens de consumo, ou pelo menos a tomada de conhecimento deles, somada a consciência de que a apropriação rende “benefícios” distintivos, como a impunidade por exemplo, tem desorientado o norte ético e estético de nossa bússola cultural.
Se por um lado a intelectualidade mundial começa a postular o respeito e o fortalecimento das diversidades bio-culturais, por outro o poder econômico restringe a oferta aos produtos que lhe concedam mais confortavelmente o lucro, passando por cima de qualquer lógica sustentável de desenvolvimento, não importando a degradação ecológica ou simbólica que promovem.
Tratei sobre o tema no artigo Festejando a Vida, nesta mesma coluna e, agora, procuro reforçá-lo, estimulado pelo destrato com que o vejo na relação com o poder público. Muito provavelmente os brincantes são vistos como pessoas tolas, que brincam porque não superaram o estágio mental da infância, quando não são tratados por vadios, tanto que as brincadeiras de origem africana foram alcunhadas pela Casa Grande de vadiagem: “Hoje é dia dos negros vadiarem...”, ou seja, brincarem, dançarem... Porém, do outro lado podemos vislumbrar a satisfação do encontro humano, motivado apenas pela alegria de conviver. E quem não encontra razão nisto é porque já está contaminado pelo vírus despótico do poder e já não sabe se desfazer anonimamente num grupo social, sem ser mais nem menos que ninguém, comungando de uma linguagem comum, tornando-se um com todos.
Mas nem tudo está perdido. Tenho observado o crescimento quantitativo dos grupos de manifestações populares, nem sempre apoiados pelas políticas de governo, bem como ações similares fora das comunidades “pobres” e, até mesmo, nos centros acadêmicos, como as experiências do professor Fernando Cunha, da Universidade Federal da Paraíba, quando prova o prazer de jogos de basquete entre as comunidades, sem a utilização de placar, fazendo com que, nos jogos, todos sejam vencedores.
Não lembro do nome do atleta, infelizmente, mas lembro da declaração daquele campeão de surf australiano, que abandonara as competições para não perder o prazer gratuito na relação com o mar. Dizia que, na relação com os jurados, perdia a sensação gratuita de se relacionar com a velocidade, com os ventos, com as ondas e, principalmente, com ele mesmo. Pois, para o caboclo de lança que conduz sua guiada, o bacamarteiro que detona sua pesada riúna, o caboclinho com sua preaca, o careta com sua chibata... tudo se dá exatamente desta forma, e as manifestações se tornam um religari com o espírito de comunidade, perfumado pela ausência de poder, onde todos são uma só pessoa e cada pessoa representa a força do todo. Prova um pouco do que digo quem freqüenta os estádios de futebol e se vê íntimo de uma multidão na hora de comemorar um gol.
“Em tempos de apologia ao consumo”, como bem disse Erickson Luna no pósfácio do meu livro Anti-horário, é salutar conhecer a declaração de Rui Lopes Viana Filho, um rapaz de 16 anos, medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática: “Tem gente que só quer ter um carro importado. Eu só preciso de um Fusquinha, porque os carros são máquinas usadas para que as pessoas possam se locomover. Por isso, quero ter o poder de comprar um carro importado para ter o prazer de não comprá-lo”. Num sentido inverso, muitas vezes nos deparamos com crianças que querem comprar qualquer coisa e, na inocência condicionada, depois de arriscarem várias sugestões aos pais, dizem: compra qualquer coisa. Por outro lado, há os que deliciam o prazer de comer, mais do que a comprada, a fruta que se dá de graça no quintal: principalmente aquela que foi plantada, cultivada e colhida.
Muita gente compra produtos comparando preços ou influenciados por propagandas. É preciso conhecer mais que preços, bem como se desacorrentar da mídia. É indiscutível a importância simbólica da pintura de Van Gogh, apesar de ter vendido apenas um quadro em sua vida. Ele mesmo, quando marchand de uma filial da maior galeria francesa, perdeu o emprego porque sugeria a compra de obras mais baratas e com maior valor artístico.
Com relação à cultura popular tudo se torna mais delicado. Primeiro por se tratar de um coletivo majoritário, segundo porque existe uma fratura na unidade psíquica provocada pela propaganda individualista (de que os vencedores, econômicos, têm mérito próprios) e, terceiro, pela espetacularização das manifestações populares. Muitas vezes, movidos pela boa razão da geração de renda onde se localiza uma massa desqualificada para a assunção de funções que exigem conhecimentos específicos, gestores públicos tentam transformar os brinquedos em espetáculos remuneráveis. Transformado em mercadoria, o brinquedo perde seu significado dionisíaco de prazer para assumir o do sacrifício apolíneo do trabalho.
Só quem vive a gratuidade das manifestações populares poderá entender plenamente o que estou dizendo, então, é preciso desenvolver políticas de geração de renda que não toquem estes aspectos da cultura popular, bem como expandir para todas as classes este sentimento, este valor, esta dádiva que é fazer com que a mão esquerda ignore o que é dado pela direita, como sabiamente nos ensinou Jesus Cristo.
(janeiro
de 2009)
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