PORRE
CERTO*
(autor: Juhareiz Correya)
Lara
Os olhos do poeta...
os olhos do poeta
me investigam acima de qualquer suspeita:
são olhos fogo-aceso fogo-morto,
os seus ombros magros e firmes
suportam o meu peso
e de todos os homens do bar,
da rua, do meretrício, da família,
da igreja, da prefeitura.
Eu falo, mas eu gostaria de saber
o que ele deseja que eu lhe diga realmente.
E aí o poeta estende-se na minha frente
e canta o hino nacional
com um sorriso falso.
Tem no rosto um céu limpo e me diz:
todos estes anos não escondem
um país de merda,
os homens fedem, as ruas fedem,
as casas, os cinemas, as intenções fedem,
e eu sou um rato miserável
porque não sei gritar
até me arrancarem os pulmões.
E o poeta angustiado
derruba as paredes do bar,
agita o teto do bar para o alto.
Eu espero um dia alguém se aproximar
e dizer: você é poeta?
quem foi que te disse que você é poeta?
que autoridade te reconheceu
e te permitiu ser poeta?
a que sociedade você pertence?
E o poeta nem sabe
que é mais indesejável
que um ladrão vulgar,
nem sabe que preparam a sua derrota
em uma folha de papel ofício timbrado.
Cogumelos gigantes levantam-se
dos seus sapatos
e a multidão de medíocres não sabe
escolher uma admiração
porque está com os aplausos preparados
para um palhaço sem tomate no nariz,
de gravata e estampa brilhante
na televisão.
Nem é preciso contar a história
dos jogadores de futebol
que são heróis no meu país alegre,
por um gol, por apenas um gol,
se faz um herói
no meu país alegre.
E aqui o poeta espreme
as suas misérias
e a sua angústia enorme
entre doses de cana
e rum falso,
sem hino nacional
para alegrar as noites
da cidade cruel,
quando as casas e os cinemas fecham
e os homens fedem...
e os homens fedem...
*("versão" para recitação:
modificações autorizadas pelo autor)