Arvoredo
Um galo sozinho não tece uma manhã
João Cabral de Melo Neto
Uma só árvore não desenha
a primavera
e o outono veste-se com incontáveis
folhas mortas
sozinha não abre a flor sem
a luz do sol
que aquece a pedra, o solo
e a raiz
o pardal devora o grão
e o semeia
sempre em companhia
de outros pardais
cantam em coro sabiás e sanhaçus
inhambus e juritis
voam em nuvens borboletas
gafanhotos
orquestra-se dessa forma tudo
que é imóvel
e ainda o inanimado e
o semovente
é assim com a flor, a flora
na floresta
assim é com toda a fauna
a humana até
trilhões de seres a viver
e reviver
trilhões de árvores a florir
frutificar
que uma só árvore não desenha
a primavera
e o outono veste-se com incontáveis
folhas mortas
Eros deus astronauta
para Jerusa Pires Ferreira, estudiosa do tema,
e para Adiel Luna, cuja ancestral preocupação
com a memória me deu a idéia do poema
esquece a memória
explora o esquecimento
história remota poço fundo
pleno de pérolas depreciadas
à espera de que o esquecido
lembre delas com carinho
garimpa e apanha
virão em arcas de ouro da imaginação
libertas de catecismos e gramáticas
vade mecum de doutores
da medicina e do direito
dos manuais de estilística
estatística e boas maneiras
virão que eu vi em profusão de cores
na ponta da língua nas pontas dos dedos
virão combinadas palavras e idéias livres
do ar e da terra da água e do fogo
na bagagem de um deus travesso
pai da volúpia da criação
esquece a memória que te tortura
e lembra : o esquecimento guarda
e esconde mas não destrói
a arca perdida e desprezada
nela jamais podes te achar inteiro mas
em lúdico formato de um quebra-cabeças
invenção de Eros deus astronauta
PARALELEPÍPEDRO
canto pedregoso
em terça rima
Nasci pedro, assim me encaixo
pedregulho entre pedreiras
rolando penhasco abaixo
cresci pedra por ladeiras
açudes, roças e rios
fui trempe para fogueiras
sofri febres, calafrios
senti no couro chibatas
meus ais viraram assobios
sonhei sonhos em cascatas
neles cacei capivaras
vivi com nefelibatas
habitando nuvens raras
caí que nem bendengó
amassando algumas caras
mas hoje sou pedra-mó
HERANÇA
De pai para filho
desde 1877
A seca é uma
velha senhora
de pele rachada
CRIAS DE DEUS
Benditos zés manés e bastiões
zefas chicas antonias e marias
crentes todos de serem de Deus crias
famintos sertanejos sem tostões
errantes nas veredas dos sertões
de inverno a verão passando fome
quando plantam feijão o bicho come
do pobre peregrino eis a sorte
o que é ou será depois da morte
apenas um fantasma e não tem nome
ALICE NOS SERTÕES DO EX-CANGAÇO
Muitas pessoas existem
com nomes mui variados
uns são ridículos de todo
outros bem avaliados
nomes há que são de vivos
outros são de viajados
nomes valem por ser nobres
outros por pobres se gabam
nomes há que são Marias
tantas que jamais acabam
bonitos nomes no mundo
que os donos até se babam
quem sabe nome bonito
respeita o da minha amada
Maria Alice Amorim
é firma bem aclamada
um mote que Dila empresta
a deixa mais afamada
fabricante de beleza
no arvoredo serpenteia
ao sol por entre folhagens
como colibri passeia
e cheira o néctar da flor
da mata na lua cheia
Traduzir em paixão desejo ardente
de deixar em Camões queixo caído
e Bocage no estro esmaecido
nesse tom afinei o meu repente
pra cantar minha amada e confidente
desenhar-lhe a beleza e fino traço
alforria liberta o próprio laço
cavalgou quando era cavalgada
foi assim tão pintada a bem amada
Alice nos sertões do ex-cangaço
Me inspirei nos heróis da velha Lapa
No repente de Pinto dei um bote
Dila foi testemunha e deu o mote
editou o cordel e fez a capa
comecei a história pelo mapa
do Nordeste enfrentei todo o mormaço
suportei fome, sede e o cansaço
disparei pela estrada rumo ao Leste
procurei feito um louco no Agreste
Alice nos sertões do ex-cangaço
Houve um tempo era Dila cangaceiro
Virgulino reinava no Sertão
camponeses sem terra, teto e pão
aderiram ao chefe bandoleiro
no absurdo real um justiceiro
cometia o maior estardalhaço
de pensar arrepia o espinhaço
pra escapar procurava meus caminhos
vislumbrei enganchada entre os espinhos
Alice nos sertões do ex-cangaço
Noites dias gastei nessa peleja
pelas ermas veredas eu trilhei
venci feras valentes e brilhei
é milagre pensar que vivo esteja
há quem ache que o gajo aqui graceja
não conhece a potência do meu aço
o rei Ário armou-me em pleno paço
cavaleiro formado na bravura
dedicado à divina formosura
Alice nos sertões do ex-cangaço
Vou e volto por noites invernosas
espreitando na moita a fera atroz
beduíno escondendo no albornoz
mil e uma histórias assombrosas
peripécias no azar e tão ditosas
da escada da vida meço o passo
como Gil eu vos mando aquele abraço
e montado no cavalo marinho
eu salvava com todo meu carinho
Alice nos sertões do ex-cangaço
DILA É DOM QUIXOTE DO CANGAÇO
É do mito que nasce a poesia
que do mundo traduz todo o vigor
pensamento traçado com rigor
quando escrava, provoca nevralgia
e liberta, transcende em fantasia
um poeta recebe o meu abraço
de ternura foi feito e não de aço
na madeira ele mesmo se esculpiu
Deus lhe deu alma plena e o ungiu
Dila é Dom Quixote do Cangaço
Ele campeão da lealdade
quem quiser que o chame de aluado
Dila é cangaceiro afamado
descobri muito tarde essa verdade
é um homem despido de maldade
tem na perna uma marca de balaço
se não fosse um herói tava em pedaço
resistiu como um bravo a duras provas
vive hoje a cantar as suas trovas
Dila é Dom Quixote do Cangaço
Aprendeu muito cedo na madeira
a riscar, recortar e imprimir
no retrato a história resumir
não importa se pura ou verdadeira
sua prosa pungente e faladeira
e seu verso quebrado no espinhaço
seja manco, tropece e atrase o passo
da poesia a beleza está na lenda
é dos mitos que vem toda legenda
Dila é Dom Quixote do Cangaço
Na dinâmica do traço inigualável
em relatos insones de pernoites
foi autor de umas Mil e uma Noites
não há como imitar ó inimitável
Dila é guerrilheiro inalcançável
em combate feroz perdeu o baço
de emboscada jamais caiu no laço
narrador das histórias fabulosas
de façanhas lendárias e jocosas
Dila é Dom Quixote do Cangaço |