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Paulo Gustavo
(1957 Recife/Pernambuco)

 

 


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O POETA

Deus me deu as palavras. Com elas faço um reino.
Com elas domino os abismos e cuido das estrelas.
Com elas ressuscito os mortos
E penso as chagas dos desesperados.

Deus me deu as palavras para me crucificar na
                                          sua própria sabedoria.
Nada tenho a não ser palavras e palavras
Neste círculo com que me afronta o Ilimitado.
E assim minha vida obscura estremece de mistério:
Sou o que, à noite, salva as fontes e os jardins;
Sou o que bebe do relâmpago a invisível luz da Eternidade...
Sem mim, os anjos mutilam suas asas
E os amantes se ferem
                  com o próprio espanto de um mortal destino.

 

CADA ROSTO
(Para Didier Lamaison)

Cada rosto é o selo de um estranho mundo.
Um mapa insolúvel
onde a Terra nos pertence.
Cada riso, cada prazer
deixaram bandeiras que ainda tremulam.
Cada lágrima
Gastou o pergaminho original, bordando luas aflitas e pálidos horizontes.

Cada rosto é um relógio com números mágicos,
com flores que esperam o seu perfume ou o seu nada!

Cada rosto é nosso possível rosto
E o que se esconde é um chamado
- Como uma onda chama outra onda
No mar que escuta atento os seus próprios passos.

 

 

Fonte:
46 Poetas, Sempre
Organização: Almir Castro Barros
Edições Bagaço - Recife 2002

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos