| NÃO QUERO
MAIS SER DEUS
Bem sabeis vós, ó, Deus,
Que não mais desejo ocupar o vosso posto:
Tomei desgosto pelo poder
Bem sabeis vós, ó, Deus,
Que não mais espero possuir o vosso rosto:
Passei a ter medo de não envelhecer
Aos vossos olhos não dança apenas
A nudez das moças:
Dança o sangue espúrio dos corpos mutilados
Vossa boca não beija somente
As faces dos vossos filhos:
Beija as feridas dos vossos algozes
E essas vozes, que nunca dizem adeus,
Jamais vos permitem dormir:
Na necessidade sabem vos suplicar
Não quero mais ser vós:
Mesmo não sendo atroz
Ao vosso poder prefiro poder pecar.
SONETO
Fabricar um soneto não é de mim
Nem de ninguém que não compreenda
Como se pode voar assim:
As asas tolhidas, os olhos com venda.
Jamais comporei forma tão rigorosa
Não por crendice, mas pelo medo:
Sentir-me-ia encerrado, numa cova.
Parece um monstro um simples soneto.
Afinal, não me consegue agradar
A idéia de renunciar ao sabor da liberdade.
Mas, por ser inexato, quem sabe, um dia,
Apesar do golpe contra a poesia,
Traindo-a, eu possa compor com eqüidade
Versos tão rijos como trechos de alvará.
ÚLTIMO RETRATO
Quão profundos olhares me fitam
Neste apoucado lugar mazelento.
Quantas papoulas e ornamentos
Para um sujeito a quem, em vida,
Não amimavam as cerimônias.
Dói-me também nesta partida
Ter de atender, sem acrimônia,
Estes fulanos que ora vibram
Com a fria carne do meu defunto
E a sombra escrita no meu rosto
Que bem se atina com o desgosto
De despedir-me deste mundo
Num cemitério, não num porto.
Nada é funesto como estar morto.
PROVA DE AMOR
Prometo não te despir
Nem te tocar.
Para não te coagir
Nem te sujar.
DIANTE DO ESPELHO
Nessa figura de dentro do espelho
Não existe qualquer coisa de mim.
As histórias narradas
Pelos olhos desencorajados
A indigência impressa
Na boca mal tocada
O vestígio projetado
Do caráter imperfeito
Nada disso reconheço.
Não aceito ser o que revela a vidraça:
Esse espírito, a aparência tão sem graça.
A figura me rechaça com igual desprezo.
HERÓIS NOTURNOS
Não fossem os lobisomens,
Os vagabundos e os vira-latas,
A cidade estaria agora
Sorvida numa solidão terrível.
Afinal, à hora noturna,
Fecham-se em seus burgos as famílias
Para jantar e comentar novelas. |