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Paulo de Britto
(1920 Petrolina/Pernambuco)

 

 


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PSICOSE

Lá fora, a noite calou-se
mas, aqui, ela cochicha no meu juízo
segredos já suspeitados,
enredos já presumidos.

Cata no lixo do tempo,
outra forma de sofrer,
sopra as cinzas da ilusão
e reativa o inferno em minha cabeça.

A noite é má companheira.

Ela, ou minha natureza inferior?

 

CAMINHOS DE TERRA
(de O BAIRRO ENCANTADO)

O bairro ainda era um ponto indefinido entre a idéia de urbe, com casinhas e casebres, e o mato baixo que o envolvia.

Parte daquele conjunto, trilhas e veredas falavam dos impulsos que faziam seus habitantes transitar e, nelas, também rastos e rumos identificados com a perspectiva dos meninos.

Sinuoso, uma cobra de barro, aquele caminho ia à baixada e ao divertimento de entrar pelo pontilhão, atravessar por baixo da terra e emergir do outro lado do bueiro, a cem metros de distância.

Sendas, trilhas, iam ao caminho da oficina da estrada de ferro onde alguns pais, felizardos, ganhavam a tranqüilidade da panela no fogo.

Aquela, ia dar na escola de Caboclinha e ao be-a-bá cantado. A palmatória e a cara medrosa dos alunos faziam muitos de nós dar graças ao fato do pai não poder pagar os três mil réis da mensalidade.

Vias diversas rumavam ao mato onde garotos cresciam caçando de baladeira, assaltando roças, comendo favela, pescando, banhando no rio, fumando bagas de cigarros. Fugiam à miséria de casa para a rudeza e o ônus duma auto-suficiência duvidosa. Eram pequenos cães, bravos, altivos, errantes pelo campo, pelo rio, vivendo fora das normas, endurecendo muito cedo para a falta de futuro.

Essa vereda chegava ao botequim de Torquato onde a essência de canaviais ao sol, vendida nos copos sujos do balcão, se convertia em verão na língua dos bebedores; lá, a ária do vento nas canas, transmudada em acordes bastardos, findava na sordidez, ao ruído das cusparadas.

Pela estrada larga, pessoas graves, silenciosas, levavam seus mortos em caixões enfeitados, resignadas a largá-los, enterrados longe de casa.

Os meninos, como os ventos da rosa, cruzavam o bairro, imprimindo no coração rastos de pés descalços e, na cabeça, as coordenadas da própria visão daquele mundo. Ficaram velhos.

Nas trilhas do tempo, meu bairro perdeu a identidade. A pureza original foi trocada pela monotonia e neutralidade da matéria inerte. Viaduto, pistas, estruturas, tudo um formigueiro de cimento e, nele, formigas humanas indo e vindo, olhando pros pés.

Anacronismo ambulante, eu tou prosseguindo, mas é aperreado porque meu passo continua ao ritmo dos caminhos de terra do velho bairro.

 

 

Fonte:
Poética Ribeirinha – Antologia Literária de Petrolina
Elisabet Gonçalves Moreira
UPE - 1998

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