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Paulo Cardoso
(1939 São José do Egito/Pernambuco - 2002 em Recife/Pernambuco)

 

 


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SONETO

Parei de ouvir e ouvi passos de outrora
no silêncio do som negro e tristonho
que dá começo à mágica do sonho,
e neste sonho sou infância agora.

Estou aqui. Minhalma está lá fora.
Não solidão da noite recomponho
versos perdidos pela vida e os ponho
no livro oculto onde a saudade mora.

O sono me divide: ora sou eu,
ora não sou.O cântico de Orfeu
refaz dias felizes na lembrança.

É tempo de colheita. Na memória
esplandecem as dádivas da glória
de ser adulto e ser também criança.

 

SIGNO DAS MÃOS

Essa mata cantada pelos ventos
chuvas,pássaros, rios e cascatas
é a mesma que sensivelmente chora
as carcaças cremadas pelo sol.
A navalha do tempo faz a poda
dos velhos arvoredos carcomidos;
arde o peito do chão sujo de cinzas
e o resto do sertão é só fumaça.
Minhas mãos têm as palmas ressequidas
e ao solo das caatingas se assemelham
cruzadas de veredas e de traços
por onde minha sombra se perdeu
na busca interminável do destino
dado às águas do Rio Pajeú.

 

 

Fonte:
46 Poetas, Sempre
Organização: Almir Castro Barros
Edições Bagaço - Recife 2002

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos