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BELEZA

por Raimundo de Moraes

 

Morrer numa passarela, desfilando e vestindo uma grife famosa para alguns pode ser o auge do glamour. Para outros pode ser o auge da tragédia decorrente da ditadura da beleza.

Foi assim que morreu ano passado a modelo uruguaia Luisel Ramos, 22 anos. Parada cardiorrespiratória decorrente de “uma dieta”. Anoréxica, vários dias sem comer etc, etc. Depois em seguida (novembro) morre a brasileira (também anoréxica) Ana Carolina Reston.

A morte é um dos fatores que fazem a sociedade repensar seus conceitos e de vez em quando adotar novas regras e padrões. Assim, nesta piccola ponta do iceberg, muitas mãezinhas e muitos empresários ficaram assustados: mais Olívias Palito poderão morrer. Hummm... Nada bom para o mundo da moda, que sobrevive principalmente das aparências. Bastidores expostos, anoréxicas neuróticas devassadas pela mídia, começam a surgir então os primeiros paliativos de “prevenção e conscientização”. A Semana de Moda de Madri decidiu barrar todas as modelos que não apresentassem uma massa corporal “saudável”, de acordo com a tabela da Organização Mundial de Saúde. Empresários e o governo italiano assinaram um manifesto anti-anorexia, e a Federação Francesa da Alta-Costura conclamou a todos para “uma reflexão” sobre o assunto.

O esforço para ser belo é o esforço para ser aceito. As adolescentes anoréxicas querem ser a boneca de mola Gisele Bündchen, querem a fama, querem o mundo. Lembro uma frase de Carl Jung: nascemos originais e morremos cópias. As meninas mortas, a multidão que lota as academias todos os dias, os pacientes que se esticam nas mesas de cirurgias. Cópias do maior conto de fadas de todos os tempos: ser feliz é ser belo e ser eternamente jovem.

Não sejamos hipócritas: estamos todos aprisionados em mitos e ideais de beleza que mudam através dos séculos, através das décadas. Parar de comer para ficar esbelto hoje é tão normal como malhar para ter um corpo perfeito. E o que é a perfeição estética humana, neste século XXI? Para os homens, é algo baseado no visual apolíneo do tempo de Praxíteles e para as mulheres são curvas acentuadas por lipos, peitões que preencham grandes decotes e uma cara sedutora e ao mesmo tempo atemporal.

Numa interessante declaração sobre a beleza feminina dos dias atuais, a jornalista americana Ariel Levy afirmou que as belas estão adotando o visual de “estrela pornô”, a sexualidade exacerbada desnudando o corpo, agora transformado numa vitrine viva de todos os modismos da sociedade de consumo. (Aqui se enquadram as gostosonas de plantão, não as magrinhas que comem uma folha de alface por dia).

Recuando no tempo, temos a impressão que não existe beleza sem sofrimento. Peles lisas, cintura de pilão, músculos de aço têm lá seu preço, emocional e financeiro.

Ao que tudo indica, as mulheres pagam um preço mais alto, desde que lhes ensinaram que era preciso arranjar um homem, casar e ter filhos. O processo de sedução aliado aos modismos de cada época causaram (e ainda irão causar) imagens grotescas, dramáticas e às vezes surrealistas.

Desde a mutilação gradativa, como os pés das antigas aristocráticas chinesas, amarrados a partir da infância para não crescerem, como os longos pescoços das mulheres-girafas da Tailândia, cheios de argolas de ferro, as mulheres mundo a fora sofrem para serem belas. Já carregaram quilos de peruca na cabeça (o cabeleireiro de Maria Antonieta subia numa escadinha para finalizar o penteado da rainha), já carregaram quilos de pano em seus vestidos, já se espremeram em seus espartilhos e cultivaram a palidez extrema como sinal de refinamento (antigamente, pele bronzeada era considerada coisa da ralé). Finalmente, com a efervescência da Belle Époque (final do séc. XIX) os padrões foram mudando, menos amarras e menos panos.

No confuso século XX tivemos dois extremos: a cultura hippie fez surgirem jovens magrelos e cabeludos, e já na década seguinte começa-se a ensaiar “o culto ao corpo”. Os templos dos novos belos são as academias de ginástica e as clínicas de cirurgia estética. Ser gordo torna-se uma aberração da natureza e impõe-se o visual caucasiano. No Oriente muita gente começa a fazer cirurgia plástica nos olhos para aparecer “menos orientais”. Quem tem pele escura pode ficar branco, usando cremes para embranquecer; o cabelo afro pode virar um chanel básico com franjinha. Desbundados e despeitados podem apelar para o silicone.

A aparente liberdade de mudar o visual esconde as gigantescas engrenagens da indústria da beleza. E quem são os operários que movem tudo isso? São os milhões e milhões de estilosos, fashions, barbies, saradões. Incansáveis na procura de uma melhor imagem de si mesmo. Novos Narcisos cheios de botox e anabolizantes.

As mulheres de Eduard Manet (1832 – 1883):
rechonchudas e felizes.

(fevereiro de 2007)

raimundodemoraes@interpoetica.com

 

 

 

 

 

 

 


Os olhos da gazela

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista e jornalista

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E DOS 50 REAIS

AQUELES OLHOS

PARAÍSOS.
AQUI E EM TODA PARTE.

ELES DIZEM “NÃO”

EU FUI QUASE INDEPENDENTE
(MAS QUEM NÃO FOI?)

MARKETING & CIA.

PAIXÕES

CADEIRINHAS DE ARRUAR

AQUI, ALI, ACOLÁ

O ORIGINAL E A CÓPIA

   
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