por
Raimundo de Moraes
Albert Camus afirmou que o suicídio
é o maior desafio da filosofia. Um desafio com ares de tragédia
grega acontece em Itacuruba, uma cidadezinha a 500 quilômetros
do Recife e que fez parte de Belém do São Francisco até
1963. Com apenas 4 mil almas, Itacuruba apresenta o maior índice
de suicídios do país. São raras as famílias
que não possuem uma história de morte voluntária
ou de tentativas de suicídio. As informações foram
repassadas pelo Cremepe – Conselho Regional de Medicina de Pernambuco.
Os números dessa cidadezinha
pernambucana são realmente intrigantes, se comparados com os
índices de Porto Alegre, a cidade brasileira que apresenta proporcionalmente
o maior número de suicídios do país – 11,4
por cada grupo de 100 mil habitantes. Na pacata Itacuruba, esse número
é onze vezes mais alto. O que já se caracteriza uma epidemia.
Algo parecido aconteceu numa aldeia de índios guaranis, no Mato
Grosso do Sul. Cinqüenta e dois jovens guaranis se mataram no período
entre 1987-1991. Várias teorias surgiram para explicar o fenômeno:
desde o choque cultural com os ícones capitalistas, até
a catequese de missionários evangélicos no local, que
com suas idéias de pecado e repressão sexual deram um
verdadeiro “nó” na cabeça dos outrora felizes
guaranis-kaiwás.
Em Itacuruba, as águas
levaram as esperanças dos seus moradores. Assim como a vizinha
Petrolândia, na década de 1980 o traçado original
da cidadezinha foi inundado por causa da construção da
Hidrelétrica de Itaparica. O passado visível e palpável
submergiu e o povo ficou sem referências históricas. Sumiu
também sob as águas praticamente a única fonte
de renda do município: a agricultura irrigada. E nenhuma alternativa
econômica foi oferecida em contrapartida ao “desenvolvimento”
implantado pela Chesf.
Matando-se, é como se os
itacurubenses dissessem “não” não apenas às
suas singelas vidas interioranas, mas “não” à
modernidade que destrói casinhas e que ergue arranha-céus
e shopping centers.
O suicídio começou
a tomar ares de crime, pecado e loucura (ou tudo isso junto) a partir
dos séculos V e VI da era cristã, quando a Igreja Católica
decidiu negar um funeral “digno” aos que ousam tirar a própria
vida. Seu patrimônio era confiscado e seus descendentes amaldiçoados
por várias gerações. E quem falhasse nas tentativas
ia para a cova do mesmo jeito: era preso e condenado à morte.
Mas é muito perturbador
o posicionamento cristão contra o suicídio, quando sabe-se
que o próprio Cristo foi um suicida (não demonstrar reações
a fim de induzir a própria morte também é uma forma
de suicídio). Quantas interpretações estão
contidas na famosa frase “Ele morreu para nos salvar”! Outros
suicidas bíblicos: o rei Abimelec, Eleazar, Judas, rei Saul e
Sansão.
Mais perturbador ainda é
o peso da culpa que o suicida carrega consigo para o Além ou
para o Não-Sei-O-Quê. Fora o próprio transtorno
psiquiátrico e emocional, a sua decisão já nasce
com o estigma do crime e da covardia, que pode apressar o aspecto final
do ato: a evasão, a fuga da situação e a negação
da sua realidade. Porém temos (sempre) que separar o joio do
trigo. Nem todo suicida está com a razão obliterada pelo
desespero e nem todo suicídio está fundamentado na teoria
de “encontrar-se” com os mortos queridos. Porque, afinal,
os ateus também se matam.
Mesmo sendo um exercício
de livre arbítrio em alguns casos (“é a positivação
máxima da vontade humana” – Shopenhauer) o suicídio
não é apenas um problema individual, mas sim coletivo,
assim já dizia Durkheim. Aquele que se vai na verdade está
mantendo um diálogo com quem fica, e não existe palavra
final entre ambos. Lembrei agora um dos suicídios mais espetaculares
que eu conheço: na década de 1930, uma escocesa chamada
Peg Entwistle, candidata à atriz em Hollywood, não conseguindo
nenhum papel que valesse a pena e cansada de ser esnobada por todos,
pulou do monte onde está o letreiro “Hollywood” –
justamente na letra H – e se esborrachou lá embaixo. Foi
uma morte emblemática, como a dizer: cansei de ser humilhada
e esperar pela fama, mas vocês vão se lembrar de mim: fodam-se,
americanos nojentos.
O fracasso na realização
dos sonhos é um grande fermento para esse prato que se come frio,
o auto-extermínio. Além da delicada Peg, milhares e milhares
todos os anos se deixam abater pelo fracasso. E não podemos criticá-los:
a sensibilidade de cada um é uma variante que abrange n fatores.
O que para mim pode ser um problema a ser enfrentado, para algum outro
desesperado pode ser um beco sem saída.
Distante de Itacuruba, do outro
lado do planeta e numa outra realidade, muita gente também está
se matando. Jovens combinam na internet suicídios coletivos.
As autoridades japonesas já criaram uma espécie de conselho
investigativo para tentar deter esse modismo. O “não”
coletivo e cibernético dos japas é um recado à
sociedade altamente competitiva do Japão, ironicamente terra
onde o harakiri (suicídio para preservar a honra) era muitíssimo
elogiado, assim como era elogiado o suicídio das viúvas
sati, na Índia, que se jogavam no fogaréu de uma pira
para acompanhar os maridos na morte. E não pensem que era demonstração
de amor: era imposição da sociedade – esposa sem
marido devia virar cinza.
A dor de viver interliga itacurubenses,
japoneses, húngaros (a Hungria tem a mais alta taxa de suicídios
do planeta). Não importa mesmo a nacionalidade, nem o sexo, nem
a situação econômica. Dizer não nesta forma
metafórica é o mesmo o que escreveu Silvia Plath: As fontes
estão secas e as rosas acabaram.
A Hidrelétrica de Itaparica
submergiu casas e plantações. Para os órfãos
da história não há rosas nem sonhos.

A poeta
Sylvia Plath (1932-1963) e os filhos:
ela também disse não.
(novembro
de 2006)
raimundodemoraes@interpoetica.com