por
Raimundo de Moraes
Recentemente reencontrei Cida
Pedrosa depois de mais de dez anos sem nos vermos. Foi no lançamento
do novo livro de Francisco Espinhara, na Nossa Livraria. Coincidentemente
nos reencontramos num espaço que chamava-se Livro Sete. Quando
éramos adolescentes, íamos lá para conversar, comentar
poesia e nos endividarmos em livros.
Na noite de autógrafos
de Espinhara, Cida me sugeriu que eu desse também a minha versão
sobre o Movimento dos Escritores Independentes de Pernambuco. Bem, aproveitando
o aniversário de um ano do Interpoética, resolvi soprar
um pouco o pó e as teias de aranha daquela década de 1980.
Na verdade, o Movimento tem raízes
anteriores ao encontro que realizamos na Casa das Crianças em
Olinda, em 1982 se não me engano. Ele começou num grupo
literário dos alunos do Colégio 2001 – entre eles
Eduardo Martins, Cida, eu, Gigi Pedrosa, entre outros. Criamos o panfleto
Momento Poético, coordenado pelos então professores de
Literatura Flor e Pedro Américo. Pedro já era um aglutinador
de talentos, pois sempre reunia em seu sebo-livraria Reler, no bairro
da Boa Vista, estudantes, artistas, intelectuais. Mensalmente abria
espaço para que poetas iniciantes expusessem seus trabalhos na
livraria (eu fui um deles).
O Momento Poético sobreviveu
enquanto éramos aspirantes à universidade. Eu, Eduardo
e Cida, por afinidade, continuamos a manter contato depois que saímos
do 2001. Até inventamos uma “rifa-literária”
no intuito de manter um grupo. Muitas e muitas vezes transitávamos
pelos bares de Olinda e Recife divulgando os nossos trabalhos (e vendendo
a tal rifa, que caras de pau). A idéia de um livro a seis mãos
foi uma conseqüência natural. Seria o primeiro livro de poesia
tripartido em estilos e unido no idealismo juvenil de três jovens
guerreiros. Mas no final, tive um acesso de baixa auto-estima e saí
do projeto. Porém Restos do Fim – Poeira dos Gozos (em
dueto Eduardo Martins e Cida Pedrosa) tem muito da minha colaboração:
o título foi de minha autoria, bem como a revisão e toda
a estética dos textos escolhidos pelos autores.
Já como estudantes do curso
de Letras da Fafire (eu e Cida no de Direito da Unicap) e com know-how
de “panfletários da literatura”, Eduardo e Chico
Espinhara retornam de um congresso universitário no Espírito
Santo com umas idéias na cabeça: criar em Pernambuco uma
proposta alternativa de publicação e divulgação
de novos autores, uma tentativa de escapar do monopólio das grandes
editoras. Naquela época, Recife fervia de criatividade. As Edições
Pirata estavam de vento em popa, a revista Nordestal de Juareiz Correya
também era um dos pontos altos deste cenário. E o melhor:
havia espaço nos jornais locais para divulgação
dos autores da terra.
Neste clima alternativo, inflados
pelas idéias de Eduardo e Chico, nossos recitais aumentaram em
freqüência e número de participantes. Éramos
já notícia na imprensa, e o Movimento de Escritores Independentes
de Pernambuco “oficializou-se” através do encontro
já citado (em Olinda), e com o apoio e simpatia de outros escritores
não tão “marginais” nem tão “revolucionários”.
Sempre digo que o Movimento criou
novos rumos a partir dali. Como estávamos na mídia, muita
gente o usou como vitrine e autopromoção, aproveitando-se
do mote de popularizar a arte, torná-la mais acessível
ao público em geral. Aí somaram-se ao grupo que crescia
atores, músicos, artistas plásticos.
Nesse frenesi de muitos caciques
e poucos cachimbos – caciques que futuramente iriam disputar o
título de “criadores do MEI-PE” – optei por
afastar-me e seguir outros caminhos. Tentei manter a corrente poético-sensual
com recitais performáticos no finado bar Abraxas (onde um então
anônimo Alexandre Figueirôa recitou o meu poema “Inclusive
Cenouras”) e lançar também um jornal chamado “O
Lúbrico”, destinado à poesia erótica (claro,
não houve patrocinadores com coragem para tanto) e que recebeu
o entusiasmado apoio do saudoso Manuzé. Mais adiante Paulo Azevedo
Chaves começa a divulgar meus poemas em sua coluna no Diario
de Pernambuco, mesmo enfrentando a censura do jornal.
A gota d’água que
causou meu afastamento dos Independentes foi que organizei um seminário
em comemoração à Semana de Arte Moderna de 22,
e alguém do Movimento escreveu uma carta à coluna de Marcus
Prado, no DP, reclamando que o pessoal do MEI-PE não tinha sido
convocado para o evento, uma coisa mais ou menos assim, não lembro
mais. Eu respondi à altura dos irritados: no mesmo espaço
ratifiquei que o Seminário estava aberto a todos os movimentos:
independentes, hiper-independentes ou dependentes de uma maneira geral.
E depois disso, o próprio
Movimento foi se fragmentando e seus participantes foram procurar outras
searas ou foram absorvidos por aquilo que antes criticavam. Muitos que
eram verborrágicos, hoje estão aboletados em empregos
públicos, comportados e insossos. Será o peso da idade?
Ou a mudança dos ideais artísticos pelos ideais da sobrevivência
financeira?
Mas afinal cá estamos na
era do www.com e o Interpoética comemora um ano com aquela proposta
do meteórico MEI-PE: a democratização da literatura,
um espaço de divulgação para todos os talentos,
sem discriminação. Não é à toa que
na sua Academia dos Mortais não existem poltronas de veludo,
e sim tamboretes. Os tamboretes que subíamos nos bares do Recife
para recitar poesia.
Well, foi bom rever Cida e registrar
alguma coisinha sobre aqueles tempos juvenis.
Chico Espinhara, camarada fiel
às idéias, batalhador das palavras e da vida, estas curtas
memórias de hoje são dedicadas a você, ao seu Lítero
Pessimista e ao João dançando com a Morte uma valsa vienense.

Coisas
de antanho: Momento Poético, Lítero Pessimista
e uma nota de “vá se f...”
(outubro
de 2006)
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