por
Raimundo de Moraes
Encontrei um conhecido na porta
do cinema e ele encheu-me de perguntas: se eu conhecia a oficina literária
de um tal fulano, se valia à pena fazer e se no fundo aquilo
não era autopromoção etc. Ora, quem sou eu para
saber se uma criatura vai aprender ou não aprender a escrever
fazendo algum curso específico? Nem me interessa saber se é
autopromoção – porque, ao que parece, consta na
didática da mesma um debate dos alunos sobre a obra do autor
da oficina. Eu pessoalmente não acho errado um escritor ganhar
dinheiro escrevendo, não é a profissão dele? Dando
cursos ou dando autógrafos, cada um se vira como pode, principalmente
aqui no Nordeste, onde os autores são solenemente ignorados pelas
grandes editoras do Sul e Sudeste.
Numa cultura capitalista e extremamente
competitiva às vezes o marketing pessoal é uma questão
de sobrevivência e em muitos casos aproxima-se da bizarrice. Mês
passado em Londres, uma ONG promoveu uma maratona de masturbação
pública, segundo ela para conscientizar as pessoas sobre o trabalho
de prevenção às DSTs – doenças sexualmente
transmissíveis. Foi permitido aos participantes usarem acessórios
e os parâmetros eram o número de orgasmos obtidos e o tempo
que cada um passava se masturbando.
Lembro que há muito, muito
tempo atrás, um hoje famoso escritor desfilava gritando pelos
corredores da Universidade Católica de Pernambuco: na bunda não
fecunda!!! Na bunda não fecunda!!! (atenção, leitor:
isto foi na era pré-aids, as pessoas podiam dar e comer sem o
pânico da falta de um preservativo). Quando eu morava na Itália,
o transexual Maurizia Paradiso ficou muito tempo na mídia fazendo
mistério no seu programa de TV. Todos queriam saber: um dia Maurizia
já foi Maurizio? Finalmente a própria revelou que sim.
O marketing pessoal atualmente
pode ser aprendido através de livros e cursos. É de fundamental
interesse para quem quer aparecer, subir na vida ou simplesmente ganhar
dinheiro.
Mas tem gente que já nasce
com este talento nato para fazer e acontecer, aproveitar os 15 minutos
de fama, preconizados por Andy Wahrol. Monica Lewinsky aproveitou seus
dotes orais exercitados em Bill Clinton e depois lançou um livro
sobre o assunto (não sobre técnicas de felação,
mas sobre seu affair presidencial). Quem também virou escritor
foi Hosmany Ramos, ex-cirurgião e ex-discípulo de Ivo
Pitanguy, preso por roubo, seqüestro e assassinato. Agora, seus
livros estão sendo editados até em Paris. Na década
de 1980, a Globo mostrou a bunda de Enoli Lara num dos seus programas
e ela então processou a emissora por “uso indevido”
da sua imagem. Com o traseiro visto por todos e um processo na justiça,
Enoli ficou famosa, saiu em escola de samba, estrelou uma peça
(pornochanchada), fez fotos para revistas (pelada). Mas nem todo mundo
consegue se agarrar com sucesso no rabo cometa. Alegando “muita
exposição” o ex-artilheiro Fio Maravilha (hoje entregador
de pizza nos Estados Unidos) chegou a processar Jorge Ben Jor pela música
que ele fez em sua homenagem. Que mico. O processo não deu em
nada e Fio depois pediu desculpas ao cantor.
Existem também as famas
efêmeras. Num mundo globalizado ficar famoso tornou-se mais fácil
e rápido. E a gente esquece com igual rapidez. Nossos tempos
não são os mesmos de trinta, cinqüenta, cem anos
atrás. Muita informação, muita coisa para assimilar,
deletar, arrotar, adaptar e recriar. Os tempos tangíveis e intangíveis
sofreram mutações na arte, no nosso dia-a-dia, na nossa
perspectiva de futuro. Fico imaginando que se Honoré de Balzac
fosse um cidadão do século XXI, de que maneira ele escreveria
a sua Comédia Humana. Aliás, que autor hoje publicaria
cerca de 90 romances e contos, com milhares de personagens a gravitar
pelos mais variados ângulos de uma cidade cosmopolita? Seria preciso
muito talento e talvez muitas oficinas literárias, além
das 15 horas diárias que Balzac dedicava aos seus escritos.
Os tempos são outros e
as caras se sucedem num incessante frenesi de anonimato e celebridade.
Enquanto arrumo os meus papéis para ir trabalhar, uma mulher
na televisão surge toda alegre dizendo que transou com três
mancebos e que não sabe quem é o pai do seu filho. O apresentador
grita que vai revelar! vai revelar! quem é o pai - exame de DNA
sempre dá ibope.
Bem, outras mães confusas
terão seus cinco minutos de fama. Assim como as misses, os marcadores
de gols, os assassinos.

Andy
Wahrol e 15 minutos de fama para todos nós.
Foto: Francesco Scavullo (1921-2004)
(novembro
de 2006)
raimundodemoraes@interpoetica.com