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PAIXÕES

por Raimundo de Moraes

 

Eu sou do meu amado, e para mim se voltam os seus atrativos. Vem, meu amado, saiamos para o campo, pernoitemos nas aldeias. Madruguemos para ir aos vinhedos; veremos se a vinha já lança rebentos, se se entreabrem as flores, se florescem as romãzeiras. Ali te darei os meus amores.

Cântico dos Cânticos

Minha irmã e poeta Andréa Porto sempre me proporciona bons momentos e boas surpresas. Num desses seus arroubos inspirados, emprestou-me um livro que me instigou a escrever este artigo.

Paixões, da jornalista espanhola Rosa Montero, é uma coletânea de textos originariamente feita para o semanário El País, publicada por lá em 1999 e aqui no Brasil ano passado.

O livro é correto no que se propõe: mostrar novas facetas de alguns relacionamentos célebres, e que a mídia já xeretou, explorou e opinou. Mas não se trata de um livro de fofocas, nem mais um daqueles descartáveis estrangeiros que as editoras brasileiras adoram publicar.

Rosa Montero no seu estilo elegante e irônico, evidencia que nem tudo é corderosamente lindo no mundo dos apaixonados. Há muita frustração, dor, raiva, desespero. Não dizem que na paixão os instintos falam mais alto? Pois nas histórias de Rosa, ou melhor, nas histórias que ela escolheu pesquisar e comentar, a gente se surpreende com amores neuróticos como o de Yoko Ono e John Lennon, Elizabeth Taylor e Richard Burton, Rimbaud e Paul Verlaine, entre outros.

A escolha desses apaixonados célebres seguiu uma visão muito pessoal da autora. Claro, a lista de casais famosos e trágicos é longa e variada, poderia render outras histórias (ou quem sabe outro livro?). Isso me faz lembrar Frida Kahlo e Diego Rivera, Nijinski e Diaghilev, Zelda e Scott Fitzgerald, Ava Gardner e Frank Sinatra, os italianos Francesca e Paolo (imortalizados na ópera de Tchaikovsky, Francesca da Rimini), etc etc.

Nas páginas dedicadas a Cleópatra, Rosa ressalta o que todos nós já sabemos: Marco Antonio era um panaca e a rainha do Egito era uma danada. O tema, aliás, já tinha sido explorado com muito bom humor no livro de Françoise Xenakis, Assoa o nariz, Cleópatra. (Vocês sabiam que Cléo era ruiva, baixinha e tinha olhos verdes? Aquele cabelão preto era peruca, meus caros. Última moda nos salões de Luxor e Karnac).

Paixões mostra o avesso do ideal romantizado dos pares que se acasalam, se amam e são felizes para sempre. Uma idéia que nasceu pelos idos da Idade Média e que o Romantismo e seus tuberculosos arraigou ainda mais na cultura ocidental. E é muito difícil para todos nós conviver com a sombra desses "amores perfeitos" quando principalmente o que se vê é a confusão que se faz entre paixão e amor. O desvario de um é o oposto do outro: a serenidade, a cumplicidade, a mágica integração corpo e alma entre os amantes. As paixões, já estudadas pela ciência, têm um quê de patologia que alteram hormônios, metabolismo e raciocínio. Mas o que importa? Quem não gosta de beijar na boca e sentir-se loucamente bêbado de desejo, mesmo correndo todos os perigos das grandes paixões?

Nessa coletânea de histórias sofridas feita por Rosa Montero, talvez a mais impressionante seja a de Oscar Wilde e o lord Alfred Douglas. Usado e explorado pelo amante, o final de Oscar todos já sabem: acabou sendo julgado e encarcerado na prisão de Reading, numa época em que a homossexualidade ainda era considerada crime na Inglaterra. Depois que cumpriu seus dois anos de pena, abandonado por todos, doente e pobre, o autor de O Retrato de Dorian Gray ainda voltou para os braços de Alfred. (As paixões, como os cientistas já descobriram, nos fazem patéticos). E quando finalmente chegou a completa penúria, o lord foi embora. Para um lord pobre, deserdado pelo pai, o que adiantava viver com um escritor doente e socialmente excluído?

Porém a obra de Oscar sobreviveu a tudo isso, e Alfred Douglas, com pretensões a poeta, passou à história como um medíocre coadjuvante dessa paixão destruidora.

Eros e Psyché
Escultura de Antonio Canova (1757-1822)

(setembro de 2006)

raimundodemoraes@interpoetica.com

 

 

 

 

 

 

 


Os olhos da gazela

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista e jornalista

outros textos:

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SE EU FOSSE COMO TU...

ABANE O RABINHO

QUAL É O SEU PRECONCEITO?

DA “BIOGRAFIA” DE UM ARQUIPÉLAGO

DUAS SENHORAS INSUPORTÁVEIS

ELE FEZ UMA REVOLUÇÃO

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APOCALIPSE SEGUNDO NÓS MESMOS

MAMÃEZINHA QUERIDA

EM NOME DO PAI, DO FILHO
E DOS 50 REAIS

AQUELES OLHOS

BELEZA

PARAÍSOS.
AQUI E EM TODA PARTE.

ELES DIZEM “NÃO”

EU FUI QUASE INDEPENDENTE
(MAS QUEM NÃO FOI?)

MARKETING & CIA.

CADEIRINHAS DE ARRUAR

AQUI, ALI, ACOLÁ

O ORIGINAL E A CÓPIA

   
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