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ABANE O RABINHO

por Raimundo de Moraes

 

Não vejo mais um certo programa de TV sobre sofrimento de animais, principalmente caninos. Já fiquei alguns finais de semana péssimo por ver tanta crueldade e cinismo. Uma vez a repórter mostrou duas cadelas abandonadas numa casa (igualmente abandonada) no intuito de “proteger a propriedade”.

Até que uma delas morreu de inanição e a outra comeu seu cadáver.

São coisas duras de dizer (e escrever) mas nunca é pouco para que todos se conscientizem que os animais não são “brinquedinhos” ou coisas descartáveis.

Ano passado, aqui nas ruas de Boa Viagem, me deparei com um legítimo Poodle Standard (o maior da raça) num estado que parecia filme de terror. O animal estava com a pelagem repleta de feridas e alguém, talvez querendo ajudar, melecou tudo com iodo. Era época de São João, e além do estresse do abandono e da doença, o cachorro se assustava com os fogos. Ele se aninhou embaixo de um banco, numa parada de ônibus. Eu disse: o que fizeram com você, hein? Ele me olhou como a dizer: acho que estou só no mundo. Outra bomba de São João. E o Poodle branco atravessou a avenida, assustado, em direção aos seus próximos sofrimentos: talvez uma pedra atirada por alguém, talvez a fome a debilitar-lhe a vida.

É enorme o número de bichos abandonados por seus donos. Outros, morrem à míngua porque seus proprietários “se esquecem” que seus animais de estimação precisam de comer, dormir, higiene, carinho. Como nós. Já pensou se nossos familiares de repente nos desprezassem e em qualquer emergência mandassem a gente se danar?

A humanidade tem uma dívida enorme para com os animais. Foram eles que ajudaram a construir as primeiras civilizações, que protegeram os antigos das nevascas, esquentaram seus corpos. Fonte de alimento, fonte de pesquisas, fonte de amor incondicional.

As pessoas às vezes se espantam quando lêem nos jornais que tal milionário deixou toda sua herança para o seu cachorro ou gato. Eu não. Não devemos achar isso egoísmo e vir com aquele discurso: ah, devia dar a grana para crianças pobres, blá blá blá. Os milionários que deixam suas fortunas para os animais estão fazendo um ato de devoção, um “muito obrigado” post mortem. Ora, se o fulano nunca recebeu amor desinteressado de amigos e parentes, que então deixe os seus milhões para o seu companheiro de quatro patas. Ao menos ele vai comer ração da melhor qualidade pelo resto da vida.

Lembrei agora do meu gato Rafael, um mestiço de angorá que me acordava todas as manhãs pulando em minha cama e ronronando embaixo do lençol. Ninguém conseguia afagá-lo, não ia pro colo de ninguém. Apenas para o meu. Também tive uma galinha preta, daquelas que se usa em despacho em encruzilhada. Seu nome? Carlota Joaquina.

A história de Carlota é interessante. Alguém me deu aquela coisinha desmilingüida, que foi crescendo, crescendo... Aí nossa empregada disse: é uma galinha. Então chegou a época de Carlota dar a cloaca (desculpem o trocadilho infame). A coitada, no seu cio de ave de umbanda, subia na goiabeira, pulava o muro e ia namorar os galos do vizinho (galos de raça, ele era criador). E quando ela começou a pôr os ovos? Meu Deus, em cima da mesa, com a cara mais vermelha que tomate, Carlota ofegava, arregalava os olhos e de dentro dela (para meu espanto de criança) saía um ovo branco. Na seqüência desta maternidade, foram 12 ovos. E só um vingou. Um híbrido esquisitíssimo, um minigalo branco que parecia uma cacatua, um anãozinho que nunca alcançou a mãe em tamanho.

Bem, um dia comeram Carlota. Eu triste mordi uma coxa dura, ela já era uma senhora, por mais tempero que se pusesse nada podia melhorá-la. E o Juninho virou canja. Daquele caldo eu juro que não tomei.

O tempo passou e me deram outro presente: parecia uma bola de feltro marrom. Jeremias salvou-me de um abismo com a sabedoria de todas as criaturas de Deus: me faça feliz que eu te farei feliz também.

E, como todos nós, tem os seus defeitos: terrivelmente ciumento, teimoso e levemente paranóide. Mas seu constante bom-humor e companheirismo são um grande somatório na minha vida. Para quem ama os animais, limpar o cocô e o xixi, levar para o veterinário, dar comida etc não é uma obrigação – é um exercício diário de humildade.

Jeremias abanando o rabo e correndo atrás de seus brinquedos fez de mim um animal melhor. E ele com certeza é melhor do que muitos bípedes que falam bonito, vestem Fórum e cheiram a Dolce&Gabbana.

* * *

A coluna deste mês é dedicada a Ida Peixe, que está se despedindo do seu querido Pita. E a Zilda Ruiz, que está recebendo com alegria as travessuras de Duque.


Jeremias Teckel:
ciumento, bem-humorado e caçador de lagartixas.

(fevereiro de 2008)

raimundodemoraes@interpoetica.com

 

 

 

 

 

 


Os olhos da gazela

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista e jornalista

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(MAS QUEM NÃO FOI?)

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