por
Raimundo de Moraes
Segundo a Enciclopédia
Internacional de Ciências Sociais preconceito é “um
juízo ou conceito formado antes de haver reunido e examinado
a informação pertinente e, portanto, normalmente é
baseado em provas insuficientes ou inclusive imaginárias”.
Uma das definições do Aurélio também coincide
com a Enciclopédia: “conceito ou opinião formados
antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento
dos fatos; idéia preconcebida”.
Todo julgamento é passível
de erros – os jurídicos, os empíricos e até
os cartesianos. Para dizer que uma mulher é a mais bela do mundo,
um grupo – a mídia, uma comissão julgadora ou os
leitores da Caras – juntam as informações
dos padrões de beleza vigentes e elegem a mais maravilhosa de
todas. Aqui, no ocidente americanizado. Mas essa lindinha será
considerada também formosa por alguma tribo dos tugus, na Sibéria?
O exemplo que eu citei é
para que o sensível leitor possa ter a dimensão entre
os dramas provocados pelo pré-julgamento (preconceito) e o julgamento
do que é (ou do que se pensa ser) melhor e mais importante. Nesse
2 + 2 a soma geralmente resulta no mais conveniente para o grupo dominante,
e não o consenso utópico que “todos são iguais
perante a lei”.
Lola (Kinky Boots, Estados
Unidos/ Inglaterra, 2005) é um personagem que encontrei recentemente
numa prateleira de locadora. O filme é uma inteligente denúncia
contra os nossos pré-julgamentos idiotas e uma verdadeira aula
de marketing. A história verídica ocorrida na Inglaterra
na década de 1980 deveria ser adotada como case para estudos
dos alunos de publicidade – principalmente para entender o que
é marketing share e marketing-in (desculpem as palavrinhas em
inglês. No Brasil ainda acham charmoso usar esses e outros termos
no original. Mas traduzindo: marketing share = fatia do mercado, marketing-in
= orientação direcionada pelas necessidades dos clientes).
Kinky Boots retrata o
impasse de Charlie (Joel Edgerton) que herda uma centenária e
tradicional fábrica de sapatos masculinos (Price & Sons)
e quando o pai morre não sabe o que fazer com ela. Produção
tradicional (sapatos oxford, que por sinal são muito confortáveis),
funcionários tradicionais (tipo artesão-artista, ou “adoro-o-que-estou-fazendo”)
e uma gestão familiar corroída pela tradição
de “não ousar para não errar”.
Num determinado momento uma funcionária
de Charlie lhe faz ver que os oxford já existem aos montes, de
vários fabricantes. O momento é de mudar a produção
e mudar a clientela (algo parecido com o que Adrian J. Slywotzky, uma
das estrelas do marketing moderno, chamou de migração
de valor). E os novos valores surgem através de Lola. Eis o desafio:
transexuais, travestis e drags queens se apertam nos sapatos de mulheres
que normalmente não são fabricados para suportar um metro
e oitenta apoiados em “pisantes” acima do número
40.
A performática Lola foi
inspiradora da Price & Sons. E eu aqui não vou contar os
detalhes – podem me chamar de tudo, menos de estraga-prazeres.
No elenco desta história
– que o diretor Julian Jarrold transformou numa deliciosa comédia
musical – vale ressaltar a atuação de Chiwetel Ejiofor.
Jarrold afirmou que Ejiofor conseguiu dar uma delicadeza especial à
caracterização de Lola. É verdade. Talvez esse
“adicional” foi o contraponto para juntar o perfil alegórico
de uma drag com a “normalidade” de um homem comum, sem perucas
e sem salto alto. E não foi fácil para o ator compor o
personagem: sessões de depilação da cabeça
aos pés, unhas postiças, espartilhos, peitex, bundex etc
etc. Tudo é mostrado no não menos interessante making
of de Kinky Boots.
Charlie Price continua vendendo
botas e sapatos-plataforma na Inglaterra. Talvez a fábrica do
seu pai tivesse fechado se o herdeiro não fosse inteligente o
bastante para enxergar além do preconceito. Que é um “acessório”
utilizado no mundo inteiro em diversas formas: censura, exclusão,
punição. Preconceito é um sapato apertado e dói
demais. Melhor tirar e andar descalço. Ou usar uma bota purpurinada
adequada ao seu pezinho.

Chiwetel Ejiofor: “ao natural”
e interpretando Lola.
(janeiro
de 2008)
raimundodemoraes@interpoetica.com