por
Raimundo de Moraes
Mês passado esteve aqui
em Pernambuco, quase que anônimo, um dos maiores cientistas da
atualidade: o francês Jean-Claude Chermann, co-descobridor do
vírus da aids, na década de 80. O ilustre vem pesquisando
uma nova vacina de combate ao HIV e fez uma conferência em Gravatá,
na 32ª Jornada Pernambucana de Ginecologia e Obstetrícia.
Dr. Jean-Claude me faz lembrar
o médico Luiz Cláudio Arraes - que também é
escritor -, um dos mentores de uma outra vacina de combate ao HIV. As
pesquisas aqui são desenvolvidas entre a UFPE em conjunto com
a Universidade de Paris V. Mas infelizmente a pesquisa está parada,
apesar dos grandes progressos alcançados (redução
em até 80% da carga viral no sangue). Motivos? Falta de dinheiro.
E (pasmem) um dos equipamentos necessários para a pesquisa foi
retido ano passado pela burocracia da Receita Federal.
E se tivessem sido doados à
UFPE aqueles 10 milhões de dólares gastos pelo governo
brasileiro para mandar pro espaço o tenente-coronel Marcos César
Pontes? O nosso astronauta levou feijãozinhos pra ver crescendo
na estação espacial. E nós tragicamente, aqui na
Terra, vemos a pandemia da aids continuar a crescer e a se diversificar.
Na balança do-que-mais-vale,
vale mais ter um astronauta brasileiro. Claro, isso com certeza mudará
para melhor a vida de todos nós.
* * * * * *
No meu último textinho
aqui no Interpoética eu escrevi que as palavras dos mortos ainda
não geraram jurisprudência para prova de crime ou inocência.
Perdoe-me, caro leitor. Dias após eu ter escrito isso, para meu
espanto, cartas escritas no além por um tal Ercy da Silva Cardoso,
assassinado em julho de 2003, no Rio Grande do Sul, inocentou a sua
ex-amante Iara de tê-lo enviado lá Pro Outro Lado. As cartas
foram "recebidas" durante sessões num centro espírita
em Porto Alegre e depois anexadas aos autos. E lidas em seguida durante
o julgamento de Dona Iara (Seu Ercy disse que estava orando pela pobre
coitada, inocente de tudo).
A juíza Jaqueline Hofler
afirma que as cartas mediúnicas não pesaram na sentença
final.
Felizarda Dona Iara! Já
pensou se todos os mortos resolvessem esclarecer crimes misteriosos
com seus testemunhos além-túmulo? Quantas celeumas seriam
evitadas.
Eu pelo menos tenho algumas curiosidades:
quem matou Tarsila e Eduarda, lá em Serrambi? Emile Zola morreu
sufocado por uma chaminé ou foi assassinado? Marilyn Monroe suicidou-se
ou foi um acidente?
Mistérios, mistérios.
* * * * * *
Mês de Copa do Mundo de
Futebol. Num determinado roteiro para os viajantes que irão conferir
os jogos in loco, o jornalista avisa sobre a cidade de Leipzig: "é
melhor não fazer comentários sobre Hitler, pois os neonazistas
não são muito simpáticos por lá".
Quando iremos ficar livres deste
pesadelo?
Bem, mesmo assim seguem três
sugestões para quem quer driblar um pouco a histeria verde-e-amarela
ou alimentar os neurônios entre um gol e outro: Cabeça
de Turco, excelente livro-documentário do jornalista Gunter Wallraff.
Foi lançado na década de 1980 mas continua atual. É
sobre a vida dos imigrantes turcos na Alemanha, os preconceitos e o
choque entre as duas culturas. As outras sugestões são
Pensadores Alemães dos Séculos XIX e XX, de Inácio
Helfer, uma obra bem digestiva, apesar do nome, e Contos Fantásticos,
do maestro, compositor, caricaturista, advogado e escritor Ernst Hoffmann.
Dizem que as histórias de Hoffmann teriam influenciado até
os estudos de Sigmund Freud.
Aproveite e leia seu livrinho
ouvindo alemães talentosos: Bach, Mendelssohn, Beethoven ou o
pós-moderno e pós-tudo Karlheinz Stockhausen, autor do
Concerto Para Quatro Helicópteros.
Mas esqueça tudo isso se
você não tem forças para fugir da Copa. O jeito
é se fantasiar de periquito, soltar rojões e gritar gol.

Hoffmann
por ele mesmo
(julho
de 2006)
raimundodemoraes@interpoetica.com