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DUAS SENHORAS INSUPORTÁVEIS

por Raimundo de Moraes

 

- Alô, Clio?

- Sim.

- Tudo bem, querida?

- Deprimida.

- Meu Deus, o que houve?

- Uma longa história, acho que nem vale a pena contar.

- Quero saber.

- Bem, eu e a Sofia resolvemos ir ao tal encontro internacional de literatura...

- Você não gostou? Saiu até na televisão!

- E você acha que tudo que sai na televisão e no jornal presta? Ah, me poupe.

- O que houve, então?

- Muita desorganização. Ao descermos do táxi, um bafo de gordura na cara, o povo vendendo cachorro quente e batata frita. Você sabia que eles usam aquele óleo durante dias? É cancerígeno.

- Eu sei. Eu é que não como aquilo.

- Nem eu. Além das bacias de óleo fervente, as calçadas estavam imundas. Um lugar tão imponente como aquele... Bem, entramos. Sofia queria ver a palestra do dândi das trevas.

- Dando nas trevas?

- Dândi! Dândi!

- O que é isso?

- Uma espécie de... de... metrossexual.

- Ah sei. Aqueles homens que usam batom, brincos e roupas apertadinhas.

- Isso. Sofia viu uma foto do rapaz e achou o dândi parecidíssimo com a neta dela. Queria ver ao vivo.

- Ele é escritor, é? Escreve sobre moda ou sobre vampiros?

- Sei lá. Não conseguimos ver a tal palestra.

- Por quê?

- Primeiro, porque ficamos desorientadas. Não tinha sinalização nenhuma na tal feira e até nos estandes da prefeitura e do governo do estado ninguém sabia onde era o auditório Claudomira Rostoff. Então entramos por engano num anfiteatro onde uns senhores falavam nos microfones. Só que não ouvimos nada. Do lado de fora colocaram um espaço de lazer infantil. As crianças berravam e cantavam. Coitados dos palestrantes.

- Que horror. Não viram o dândi então...

- Mas não importa. Quando encontramos o tal auditório fiquei surpreendida.

- Por quê?

- Parecia uma salinha para reunião de condomínio! Deveriam ter batizado de “sala para debates” e não auditório... Bem, entramos e uma pessoa bondosa nos arranjou duas cadeiras. Aí eu disse: Sofia, querida, tenho hemorróidas... acho que não vou agüentar ficar muito tempo nesta cadeira dura... Ela disse: então vá andar um pouco que depois ligo para o seu celular. Assim fiz.

- Comprou muitos livros?

- Não consegui.

- Hã??

- Muito barulho, gente tocando bumbo e triângulo, eu me senti na feira de Mandacaru.

- E os escritores de outros países?

- Que outros países?

- Não era um encontro internacional?

- Dizem que sim. Ah lembro! Anunciaram que uma escritora da Lituânia ia lançar um livro. Se chama “O clitóris está no cérebro”.

- No cérebro? Não era na vagina?

- Deve ser uma metáfora, meu bem.

- Ah tá. Essas metáforas modernas são muito engraçadas.

- Depois lembrei que eu estava sem celular. Ia voltando pra sala de debates para encontrar Sofia quando uma turba de Hare Khrisna passava cantando e dançando, tropecei e caí. Perdi um sapato – acho que levaram por maldade – e fiquei procurando Sofia descalça e com um sapato na mão. Parecia uma doida.

- Rá rá rá rá...

- Não ria, eu estava desesperada! Ainda tive que agüentar as gracinhas dos outros. Um casal passou com um filho adolescente e ele disse: olha a Cinderela da terceira idade! Uma falta de respeito!

- Rá rá rá rá... E você encontrou a Sofia, afinal?

- Ela é que me encontrou, por acaso. Graças a Deus. Resolvemos fazer um lanche numa praça da alimentação que só tinha porcaria. Devia ser praça da desnutrição. Nenhum croissant decente, nenhum chá gelado para refrescar, nenhum...

- Desculpe, Clio, vou ter que desligar. Hora da novela.

- Você e suas novelas...

- Pelo menos não perco meu tempo com essas tais feiras internacionais... Beijinho.

 


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(novembro de 2007)

raimundodemoraes@interpoetica.com

 

 

 

 

 

 


Os olhos da gazela

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista e jornalista

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EM NOME DO PAI, DO FILHO
E DOS 50 REAIS

AQUELES OLHOS

BELEZA

PARAÍSOS.
AQUI E EM TODA PARTE.

ELES DIZEM “NÃO”

EU FUI QUASE INDEPENDENTE
(MAS QUEM NÃO FOI?)

MARKETING & CIA.

PAIXÕES

CADEIRINHAS DE ARRUAR

AQUI, ALI, ACOLÁ

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