por
Raimundo de Moraes
“Obras Políticas
e Litterarias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca – Colleccionadas
pelo Commendador Antonio Joaquim de Mello”. Primeira edição.
Data: 1875. Esta raridade chegou-me às mãos e não
sei bem definir o alumbramento literário que senti no momento.
Este livro, se não me falha a memória, só foi reeditado
quase 100 anos depois, pela Assembléia Legislativa de Pernambuco.
O Comendador Antonio reuniu praticamente
quase tudo que o frei revolucionário publicou em vida, incluindo
suas cartas. Vocês sabiam que Frei Caneca além de ensinar
retórica e geometria, também era gramático? Eu
não sabia. Pois lá estão as regras da língua
portuguesa contendo até “taboas de verbos”.
Seus discursos feitos na prisão, seus dons como poeta. Aliás,
a partir deste mês os internautas poderão ler dois textos
do frei aqui no Interpoética. São glosas (ou vilancetes)
estilo popular de poesia que surgiu no século XV, com motes e
rimas.
Joaquim da Silva Rabelo –
depois conhecido como Frei Caneca – é um personagem complexo
da história do Brasil. Uma mistura de mártir e bode expiatório
da Confederação do Equador (1824). Foi o primeiro a ser
condenado à morte (ao todo, 11 receberam a mesma sentença).
Nos autos do processo ele é descrito como “escritor de
papéis incendiários” e um dos líderes da
revolta, que teve seu início em Pernambuco obtendo depois o apoio
das províncias do Ceará, Paraíba e Rio Grande do
Norte.
Fico imaginando a infância
de Joaquim, primogênito de Dona Francisca e de Seu Domingos, conhecido
toneleiro (artesão que fabrica tonéis e barris). Mas Seu
Domingos não fazia apenas tonéis, na sua oficina eram
produzidas também muitas canecas com folhas de flandres. E com
elas o menino Joaquim saía pelas ruas do Recife, vendendo a produção
paterna e ganhando alguns trocados. Depois de se ordenar carmelita Joaquim
fez questão de adicionar o “Caneca” como sobrenome,
em homenagem à profissão do pai.
O filho do toneleiro foi um daqueles
exemplos em que “a mente faz a revolução”.
A revolução verdadeira, a das idéias, a da transformação
partindo de cada indivíduo e abrangendo todos os segmentos sociais.
Ele chegou a pegar nas armas já nas últimas semanas da
Revolução Pernambucana de 1817. Porém sua força
estava na palavra. Ficou quatro anos preso na Bahia retornando a Pernambuco
em 1821. Em 1823 lança o jornal Tiphys Pernambucano,
que incomodou as elites e o imperador-ditador Pedro I. (Aqui um parêntese.
Tífis, caro leitor, foi o piloto do barco que reuniu os Argonautas,
famosa lenda grega. Pelo título do seu jornal, nota-se no frei
a responsabilidade que tomou para si: através da imprensa, ser
o mentor intelectual da Confederação e dos seus ideais
libertários).
Quando povo e revolucionários
iam tornando-se uma coisa só, Pedro I viu que novamente Pernambuco
merecia um corretivo. Não teve dúvidas: alugou os serviços
do almirante escocês Thomas Cochrane e ele com sua frota sitiou
o porto do Recife. Foi sufocada a rebelião, instaurava-se a caçada
aos inimigos da monarquia. Palavras do frei: “S. M. está
tão persuadido que a única atribuição que
tem sobre os povos, é esta do poder da força, a que chamam
outros a última razão do Estado (...)".
Pedro I também era um imperador
rancoroso. Como punição aos rebeldes, “redesenhou”
o mapa de Pernambuco. A mutilação geográfica começou
logo após a Revolução de 1817 – “fatiando”
o sul da província e criando Alagoas. Depois da Confederação
do Equador perdemos a Comarca de São Francisco (que foi dividida
entre a Bahia e Minas Gerais).
Mas não pensem que o empenho
do imperador em sufocar as idéias libertárias pernambucanas
tem a ver em “manter a unidade da nação”.
Enquanto Carlota Joaquina raspava seus sapatos no casco do navio que
a levaria de novo a Lisboa (“para não ficar nenhum vestígio
desta terra miserável sob os meus pés”) dias antes
D. João VI raspou tudo que tinha no recém-criado Banco
do Brasil. O príncipe Pedro herdou um reino falido.
Se a Confederação
do Equador realmente tivesse se tornado uma república, Pedro
I iria perder os pesados impostos e taxas portuárias que a corte
cobrava das províncias do norte. Alguém tem que manter
o luxo dos fidalgos, não é mesmo? Nós não
mantemos o bem-bom do Palácio do Planalto?
Ah sim, antes que eu termine (não
é implicância contra o imperador, por favor): depois do
sucesso em sua campanha militar no litoral pernambucano, o almirante
Cochrane voltou para sua terra muito chateado. Pedro I lhe deu um calote,
não pagou pelos seus serviços.
Quanto ao Frei do Amor Divino
Caneca, não se sabe ao certo se os militares “se recusaram”
a enforcá-lo. Pode ser só mais uma lenda. O fato é
que depois de dispararem suas espingardas, os soldados jogaram o corpo
em frente ao convento onde o carmelita tinha se ordenado. Não
havia ninguém para abrir as portas. Os demais frades tinham se
escondido em casas de parentes e amigos.

O fuzilamento de Frei Caneca
Quadro de Murillo La Greca (1899-1985)
(outubro
de 2007)
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