por
Raimundo de Moraes
Por acaso semana passada assisti
na TV Emma, filme realizado por Douglas McGrath (conhecido
também como roteirista), baseado na obra homônima de Jane
Austen. Este Emma que eu vi, estrelado por Gwyneth Paltrow,
é mais uma das dezenas de adaptações dos livros
de Miss Austen, que está no Olimpo dos grandes escritores de
língua inglesa. Orgulho e Preconceito, por exemplo,
já teve um novo remake feito em 2005; se bem que a BBC de Londres,
dez anos antes, produziu uma impecável minissérie baseada
no livro. Não vi, só li as resenhas, mas pretendo encontrá-la
em DVD.
Desde que tomei conhecimento de
Emily Dickinson nunca consegui dissociá-la da imagem de Jane
Austen. Por quê? Uma era romancista, outra poeta. Uma inglesa,
outra americana. As duas não foram contemporâneas. Quando
Emily nasceu (1817) Jane já era só ossos na catedral de
Winchester.
Li Orgulho e Preconceito e
Razão e Sensibilidade na pré-história da minha
vida. Depois, adulto, quando li os poemas de Emily, a comparação
foi inevitável: tanto a americana como a inglesa viveram reclusas
em suas casas, nunca casaram e o ponto central de suas existências
foi a Literatura.
Ambas tiveram lá suas esquisitices
e seus mistérios. Emily vestia-se sempre de branco, personagem
etérea passeando nos jardins de Amherst. Em vida, nunca publicou
um livro sequer, mas na contagem geral de sua incessante produção,
sua obra alcançou um montante de 1.800 poemas. Jane Austen teve
uma carreira diversa: seus romances fizeram muito sucesso antes de sua
morte.
Alguns historiadores dizem que
era um “comportamento normal” as mulheres antes da Revolução
Industrial viverem isoladas, apartadas da vida em sociedade. Eu digo
que é preciso acrescentar-se algumas notórias exceções
nessa questão. No século XVIII Madame de Stäel adorava
um bom sarau literário e foi um dos personagens mais interessantes
do Iluminismo francês. George Sand também era chegada a
um agito cultural e a uma vida aventuresca (dizem que Chopin não
agüentou tanta “energia”). Aqui no Brasil, bem antes
de João VI chegar com sua corte, a poeta Ângela do Amaral
Rangel já participava da Academia dos Seletos no Rio de Janeiro.
E em Lisboa, a Marquesa de Alorna promovia grandes debates literários
em sua casa – Bocage foi um dos seus freqüentadores.
Talvez se tivessem nascido em
grandes cidades, tanto Jane como Emily não houvessem optado pelo
auto-exílio em seus respectivos “santuários”.
Nas poucas vezes que Jane se ausentou de Chawton foi para cuidar da
saúde (deduz-se que ela sofria do Mal de Addison; alguns dos
sintomas são náuseas, fraqueza muscular, anorexia, diarréia
e vômito. Imaginem como a coitada entregou sua alma a Deus). Quanto
a Emily, dizem que quando chegava uma visita à casa dos seus
pais, ela se escondia. O contato com os outros seres humanos lhe parecia
ser um fardo. Daí o apelido de A Grande Reclusa.
As obras dessas duas mulheres
continuam a suscitar as mais variadas interpretações.
Mas o que importa é que o reconhecimento não veio de cima
para baixo (crítica-leitor) e sim de baixo pra cima (leitor-crítica).
Emily fazia circular seus poemas entre amigos e familiares, anexados
às vezes nas milhares de cartas que escreveu. Jane Austen, apesar
do grande sucesso de Orgulho e Preconceito (1797) não
era muito bem vista pelos editores britânicos. Porém como
os editores são movidos pelo lucro (livro é objeto de
comercialização, meus caros. Mecenato agora é um
verbete no dicionário) renderam-se à obra da reclusa de
Chawton. Hoje Jane é considerada a precursora da moderna literatura
inglesa.
Ultrapassando todos os limites
que poderiam torná-las anônimas em seus países e
no mundo – sem a “bênção” da crítica
quando ainda estavam vivas e produzindo, afastadas dos grandes círculos
culturais, morando em pequenas cidades no interior - Jane e Emily tornaram-se
referência pelo talento que extrapolou fronteiras. Elas, junto
com Virginia Woolf, estão na lista de Harold Bloom em seu Cânone
Ocidental, uma seleção muito pessoal de obras e autores
europeus e sul/norte-americanos. No seu livro, ele esmiúça
literária e historicamente o último livro de Jane (Persuasão).
Sobre a obra de Emily Dickinson ele faz a seguinte afirmação:
Tirando Shakeaspeare, é
ela que manifesta mais originalidade cognitiva do que qualquer outro
poeta ocidental depois de Dante.
Sem buscar Beatriz, os poemas
de Emily revelam seus próprios infernos, purgatórios e
céus. E um permanente deslumbramento com a natureza.

À esquerda: a
única imagem que ficou de Jane Austen,
um retrato feito por sua irmã Cassandra. À direita,
A Bela de Amherst ou A Grande Reclusa Emily Dickinson.
(setembro
de 2007)
raimundodemoraes@interpoetica.com