página inicial | colunas | os olhos da gazela | criaturas rastejantes
VOLTAR À PÁGINA INICIAL

 

CRIATURAS RASTEJANTES

por Raimundo de Moraes

 

Eu sei que não era para rir, mas existe uma linha muito tênue entre a mediocridade e o non-sense. Vi a notícia sobre dois grupos evangélicos que espalharam dez outdoors em Campina Grande, condenando a homossexualidade. Usaram um trecho do Gênese com tradução (ou adaptação?) tacanha e eu sinceramente preferi rir do que chorar. O bispo da cidade, um tal Aldo Pagotto, ainda fez uma cartinha de solidariedade aos evangélicos por este ato de “moralização da sociedade”.

A Bíblia é a coleção de livros mais polêmica do mundo. Existem trechos anacrônicos e outros de pura poesia. O problema é a falta de uma leitura crítica sobre os mesmos. Mas como esperar isso dos fanáticos, se geralmente o fanatismo, quando não é decorrente de um desequilíbrio mental, está associado a um baixo nível de cultura e escolaridade? Por outro lado, incentivar e administrar hordas de maníacos pode ser uma excelente fonte de renda. Cobrando dízimos, por exemplo.

Os outdoors foram retirados das ruas de Campina Grande por ordem judicial, com o apoio de muitos grupos e do Programa Brasil sem Homofobia.

Pena que os gays da Paraíba só contra-atacaram na questão jurídica da coisa. Poderiam também utilizar outdoors com uma citação bíblica: Davi lamentando a morte de Jônatas, seu amigo íntimo e filho de Saul, primeiro rei de Israel:

(...) sua morte rasgou-me o coração! Como sofro por você, Jônatas meu irmão. Como eu lhe queria bem. Para mim, o seu amor era mais caro que o amor das mulheres.

Samuel II, 1:26

* * *

Pesquisadores japoneses estão interessados nos seres que herdarão o nosso planeta: as baratas. Caríssimos, descobriram, através do Método Pavlov – aquele cientista russo que fundamentou a técnica do condicionamento – que expondo baratas a alimentos açucarados, umas salivavam, outras não. O que significa que elas têm cérebro, têm memória e portanto podem “aprender”. Aprender o quê? Não sei. Talvez os japas ensinem às suas cobaias música e dança e teremos estrelas-insetos, como no filme Joe e as Baratas. Os pesquisadores acham que estudando as baratas irão entender melhor o cérebro dos humanos. Eu particularmente achei a comparação muito interessante.

Las cucarachas parecem ser fonte inesgotável de inspiração para muita gente, não só de Kafka. Quem quiser, leia Problemas no Torre de Jade, de Patrícia Highsmith, conto incluso no seu excelente livro Catástrofes (nem tanto) naturais. E os místicos encontrarão “uma iluminação escatológica” comendo a barata de Clarice (Lispector) em A Paixão Segundo G.H.

* * *

Dercy Gonçalves fez 100 anos. Ou melhor, 102, pois segundo a própria o seu pai a registrou com dois anos de atraso.

Não importa, já que Dercy avisou que só vai morrer quando ela quiser. Há anos seu túmulo já está pronto em sua cidade natal, no interior do Rio de Janeiro. Enquanto sua decisão de dizer adeus não chega, ela continua a ser exemplo de uma coisa que todos nós deveríamos seguir: não levar a vida a sério.

É uma pena que com o passar dos anos Dercy transformou-se numa espécie de “atração geriátrica”; ninguém mais fala na sua importância para o cinema nacional, das suas atuações na época das chanchadas. Foram 36 filmes, e que quando lançados lotavam as salas de cinema. Ela também fez carreira na televisão. Na década de 1960 era a artista mais bem paga da extinta TV Excelsior. Em 1980 dividiu o Troféu Imprensa de Melhor Atriz com nada mais nada menos do que Dina Sfat.

O mundo mudou, Dercy Gonçalves envelheceu e o público acha uma gracinha uma anciã falar palavrões.

Vi uma entrevista em comemoração aos seus 100 (102) anos e novamente ela explicou por que adora viver: Eu adoro a sacanagem. Tudo é mentira, nada é verdade. E nós somos feitos de uma matéria ordinária. Tudo é feito de porra. E Deus utilizou essa matéria nojenta para criar a humanidade.

Lúcida. Completamente lúcida.


O russo e Prêmio Nobel de Medicina
Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936).
Inspirando a compreender melhor
humanos e baratas.

(julho de 2007)

raimundodemoraes@interpoetica.com

 

 

 

 

 

 


Os olhos da gazela

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista e jornalista

outros textos:

COELHINHO DA PÁSCOA,
SE EU FOSSE COMO TU...

ABANE O RABINHO

QUAL É O SEU PRECONCEITO?

DA “BIOGRAFIA” DE UM ARQUIPÉLAGO

DUAS SENHORAS INSUPORTÁVEIS

ELE FEZ UMA REVOLUÇÃO

AS RECLUSAS DE CHAWTON E AMHERST

ROUBAR E (TENTAR) SER FELIZ

APOCALIPSE SEGUNDO NÓS MESMOS

MAMÃEZINHA QUERIDA

EM NOME DO PAI, DO FILHO
E DOS 50 REAIS

AQUELES OLHOS

BELEZA

PARAÍSOS.
AQUI E EM TODA PARTE.

ELES DIZEM “NÃO”

EU FUI QUASE INDEPENDENTE
(MAS QUEM NÃO FOI?)

MARKETING & CIA.

PAIXÕES

CADEIRINHAS DE ARRUAR

AQUI, ALI, ACOLÁ

O ORIGINAL E A CÓPIA

   
INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos