por
Raimundo de Moraes
Eu não sei se Nostradamus
disse que iríamos ficar fritando sob o efeito estufa. Se as nossas
cidades iriam ser arrasadas por tsunamis, terremotos e epidemias. Não
sei. Além do mais, aquelas centúrias podem ser interpretadas
de diversas maneiras: a gente encontra o que quer. Afirmam que o francês
profetizou a Revolução Comunista de 1917, Hitler e a Segunda
Guerra Mundial, o assassinato de Kennedy e até a tragédia
do World Trade Center.
Uma das profecias de Fátima
revela que ocorrerá um terremoto com duração de
oito horas. Depois, três dias de escuridão. Também
pudera, oito horas de sacolejo é muita coisa. Já os maias
– aqueles que foram destruídos pela colonização
espanhola – foram mais taxativos: este mundo que conhecemos deverá
ficar pelo avesso em 23 de dezembro de 2012, um estranho alinhamento
planetário mudará para sempre as nossas vidinhas.
Caminhando pela orla de Boa Viagem
faço minha profecia em trânsito, sem transe e sem centúrias:
depois de fritar, a raça humana irá boiar nos mares como
cardumes de peixes mortos.
Paro em frente ao finado Hotel
Boa Viagem e vejo uma muralha de pedras na areia, feias, escuras, para
conter o avanço do mar. A avenida será engolida –
como já foram engolidas ruas de Olinda, do Janga, de Candeias.
Ah! Recebi um email apocalíptico:
na sua rotação, a Terra não mais contabiliza 24
horas diárias. Há uma descoberta científica, chamada
Ressonância Schumann, e que, leigo no assunto, tentarei explicar.
Existe um campo eletromagnético que envolve o planeta e que vibra
numa sintonia de 7,83 hertz por segundo. Os nossos cérebros e
os dos demais animais vertebrados possuem a mesma vibração.
Só que desde a década de 1980 – decorrente dos desmatamentos
e poluição – as pulsações da Terra
estão aceleradas: já chegaram a 13 hertz por segundo.
Isto afeta todo o ecossistema global e sabe aquela frase: tudo agora
passa tão rápido? Pois é, parece que tem algum
fundamento. Eu digo parece, porque a pesquisa vem dividindo as opiniões
dos cientistas. Uns acham que há um certo exagero nisso tudo,
outros revelam que o nosso dia agora é feito de 16 horas. Se
for verdade, para onde foram as oito restantes? Para algum buraco negro?
Para uma eternidade que nem eu e nenhuma centúria alcançará?
O buraco na camada de ozônio
abre-se como ferida: depois da Patagônia agora avança pelo
sul da Argentina. Na Groenlândia, ursos polares estão morrendo.
De quê? Afogados. Entre uma caça e outra eles precisam
descansar em pedaços de gelo. Que estão derretendo rápidos
demais. Em algumas décadas só veremos ursos polares de
pelúcia.
Precisamos de vários band-aids
interestelares. Enquanto desabam as geleiras, enquanto amplia-se a desertificação
nos trópicos, enquanto destroem os últimos cinco por cento
de Mata Atlântica que trilha sonora ecoará nos dias finais
dos bípedes sem-juízo? Pode ser o cântico das Walquírias,
de Wagner. Ou a Dórica de Bach. Ou a sueca heavy metal Angela
Gossow gritando com sua voz de liquidificador, tão possessa que
assusta até o capeta.
Os otimistas podem escolher entre
Enya, algum CD da Xuxa ou a animação do axé music.
Os realistas: Zeca Pagodinho, remixes das décadas de 70 e 80
ou qualquer outro ritmo que faça dançar, pois já
dançamos mesmo.
Teremos cenários lisérgicos
quando vulcões explodirem em todos os continentes e a água
potável for comprada a peso de ouro. Furacões maiores
que o Katrina, que arrasou Nova Orleães em 2005, irão
fazer assanhar os cabelos de muita gente, e quando Boa Viagem for só
uma lembrança, os últimos recifenses, escalando serras
e montanhas para fugir de gigantescas ressacas do mar – irão
lembrar nostálgicos: “meu avô dizia que a cidade
chamava-se Veneza Brasileira”. “Que Veneza?, perguntará
o outro sobrevivente, aquela que existia na Europa?”.

Aqui e lá:
capa da Time sobre o avanço do mar nas praias americanas.
Edição de agosto de 1987.
(junho
de 2007)
raimundodemoraes@interpoetica.com