por
Raimundo de Moraes
Gente, estão dando golpe
nas igrejas da cidade. Na hora das caridosas doações,
pessoas sem piedade e amor no coração passam notas de
50 reais falsas e ainda pedem troco. Bem, se isto aconteceu na igreja
daquele tal pastor que triplicou seus bens depois que virou deputado,
devemos esquecer. Perdoar é um dom divino. E ladrão que
rouba ladrão tem 100 anos de perdão, não é
mesmo?
E pegaram o rabino. Ficharam o
rabino. Henry Sobel tentou afanar lindas gravatas em Palm Beach, um
balneário chique lá na Flórida. De volta ao Brasil
Henry disse que estava tomando remédios “muito fortes”,
e que ele não estava em si, etc etc. Outro que tomou remédios
“muito fortes” foi aquele tal estilista em São Paulo,
vocês lembram? O que fazem esses remédios com as pessoas!
É mesmo espantoso. A criatura terminou indo roubar vasos de defuntos
no Cemitério do Araçá.
Eu também às vezes
tomo remédios “muito fortes” para dormir, para acordar.
Pois é, cada um com suas mazelas. E minha biografia não
é escrita com sangue de barata. Mas se eu roubasse alguma coisa
e depois dissesse que “não estava em mim”, iriam
me perdoar? Acho que não. Minha conta bancária é
tão chocha que definitivamente seria impossível dourar
a pílula.
E prosseguindo no assunto “pílula”,
o ex-integrante da Juventude Nazista e atual papa Joseph Ratzinger está
chegando ao Brasil para abençoar in loco as pílulas milagrosas
do Frei Galvão. Eu pessoalmente acho a idéia fantástica.
A pessoa engole aquele pedaço de papel que contém uma
oração, e depois é só esperar o milagre
acontecer. Não é prático e moderno? E não
há perigo de overdose, milagres são sempre bem-vindos.
Só por isso o Frei realmente merece ir pro altar, com essa idéia
tão iluminada. Ele será canonizado agora dia 11 de maio,
durante a passagem de Ratzinger por São Paulo.
Mas enquanto abençoa as
pílulas do futuro santo, o atual papa dá uma marcha à
ré nos rituais da igreja. Imaginem que o alemão quer que
as missas voltem a ser ministradas em latim. Meus caros, num país
como o nosso, por exemplo, que o povo mal fala e escreve o próprio
idioma, será que os católicos – mesmos os mais fervorosos
– terão paciência de cantar e rezar em latim? A missa
ganhou um ar mais modernoso no Concílio Vaticano II (década
1960) quando João XXIII autorizou a nacionalização
da liturgia – que cada padre rezasse em seu idioma nativo, ora.
Se Deus é onipresente, é também poliglota –
pode entender pedidos e agradecimentos em qualquer idioma.
Well, nada mais me espanta. Ratzinger,
quando ainda era cardeal, condenou o ex-frei Leonardo Boff a um silêncio
por tempo indeterminado por causa da Teologia da Libertação.
Nada tão medieval como censura. Nada tão medieval como
cantos gregorianos em latim. Isso combina bem com o passado da Igreja
e por que não dizer com o seu presente. A proibição
do uso de preservativos e contraceptivos é algo tão arcaico
como um penico de louça.
Porém esta visita papal
promete fortes emoções. Do beija-mão à musiquinha
composta especialmente para saudá-lo, dos espetáculos-
solo como os do padre-estrela Marcelo Rossi aos espetáculos coletivos
de fé e delírio.
...
(Quero uma pílula de bom-senso
agora. De repente me deu uma enorme saudade de dom Hélder Câmara).

Versão
do cartunista suíço Patrick Chappatte sobre as idéias
de Joseph Ratzinger.
Tradução:
as pessoas que falam latim dizem que ele é um cara
de mente aberta.
(abril
de 2007)
raimundodemoraes@interpoetica.com