por
Raimundo de Moraes
O Interpoética este mês
homenageia as mulheres, aproveitando o mote internacional do dia 8 de
março, dedicado a elas. Eu na verdade não gosto de datas
comemorativas inventadas, se bem que este dia 8 é mais que merecido.
A trajetória das mulheres em busca de igualdade de direitos é
tão trágica quanto a perseguição de negros,
homossexuais, judeus etc.
Não vou lhes contar como
começou todo esse ti-ti-ti do dia 8 e nem citar nomes das primeiras
mártires feministas porque o meu abuso se estende também
para essa coisa dos ismos: machismo, feminismo, nacionalismo, sensacionalismo.
Acho melhor contar a história
de uma mulher que há exatos 30 anos nos deixou e que por seu
exemplo de vida foi também um exemplo de liberdade, aquela liberdade
que pagamos preço alto para vivê-la.
Nasceu rica e de família
tradicional. Mas quando criança gostava de brincar na rua com
os moleques da rua Marquês de Abrantes, no Botafogo, Rio. Aos
12 anos compôs sua primeira música. Depois praticamente
saiu do internato para casar aos 18 anos com um milionário quase
20 anos mais velho que ela. Virou madame da sociedade paulista. E continuou
a cantar, mostrando seu talento para amigos e em festinhas de família
até que um tal produtor chamado Roberto Corte-Real ficou encantado
com sua voz, convenceu a madame a gravar um disco (aí o marido
disse: epa! Na capa não pode sair nem foto e nem o nosso famoso
sobrenome). Assim foi feito. E para mostrar que eles eram ricos mas
não miseráveis (no sentido moral do termo) a renda daquele
primeiro LP foi doada ao Hospital do Câncer.
Este é o início
da carreira de cantora de Maysa Matarazzo. A família do marido
ficava cada vez mais escandalizada, enquanto ela seguia cantando com
aquele vozeirão. Mas na década de 1950 era impossível
pertencer a high society e fazer shows. O casamento acabou.
Maysa é um dos personagens
mais contundentes da MPB. Alma de poeta, escreveu muitas músicas,
namorou muito, bebeu muito, vivia entre altos e baixos e no dia 22 de
janeiro de 1977, aos 40 anos de idade, morreu a 100km por hora na ponte
Rio-Niterói.
Ficou aquele rótulo de
“cantora de fossa” porque tristeza naqueles idos assim era
chamada. No entanto Maysa foi uma das grandes incentivadoras/divulgadoras
da Bossa Nova e o seu disco O Barquinho (1960) é um dos marcos
do movimento. Residiu e cantou nos Estados Unidos, Itália, Portugal,
Espanha. Era eclética e antenadíssima. Num show realizado
no Canecão (já transposto para CD) ela interpreta desde
Se Você Pensa (Roberto e Erasmo) até Light My Fire. Foi
ela que fez os brasileiros conhecerem Ne Me Quitte Pas, a maravilhosa
canção de Jacques Brel. Foi ela que também interpretou
A Mesma Rosa Amarela, composta por Capiba e Carlos Pena Filho.
Os rótulos são terríveis.
Para a História Maysa será sempre aquela mulher linda
cantando com a voz rouca Meu Mundo Caiu, símbolo máximo
de tragédia e da dor-de-cotovelo. Uff! Para aliviar essa imagem
de mulher desesperada aí vai um poeminha de Manuel Bandeira:
Os olhos de Maysa
são dois não sei o quê
dois não como digo
dois oceanos
não pacíficos.
Maysa são dois
olhos e uma boca.
Estes seus 30 anos de ausência
foram lembrados pela Globonews num curto e interessante documentário,
que pode ser acessado via internet. O Youtube exibe uma raridade: ela
cantando Tema de Simone, seu personagem na novela O Cafona (1975). (Ah
sim, esqueci de dizer que Maysa participou como atriz em filmes e novelas).
E por esses dias deve sair a primeira
biografia da cantora. Quem assina é o jornalista Lira Neto, que
já biografou José de Alencar e o general-presidente Castello
Branco. O livro foi escrito baseado principalmente em entrevistas e
nos diários de Maysa. Desabafar suas angústias no papel
era um ritual para a diva: “há gritos incríveis
dentro de mim, que me povoam da mais imensa solidão”.
Nos palcos e fora dele, Maysa
foi uma mulher que quebrou regras e não merece ser esquecida.
No 8 de março lembremos também do seu nome.

Maysa
(1936 – 1977)
Carreira meteórica e brilho de estrela.
(março
de 2007)
raimundodemoraes@interpoetica.com