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O ORIGINAL E A CÓPIA

por Raimundo de Moraes

 

Estou triste. Literariamente triste. Tristeza humana acalentada nos braços da ingenuidade.

Tardiamente hoje li um artigo do jornalista Elio Gaspari denunciando um plágio de Ana Cristina César. Antes de morrer, a poeta carioca teria furtado trechos inteiros da tese de doutorado da sua amiga e professora Heloísa Buarque de Hollanda.

Nessa celeuma póstuma, temos algo a ponderar: os mortos não têm como se defender. Declarações de médiuns incorporados ainda não geraram jurisprudência a respeito de declarações post-mortem.

O que faço? Tomo um chá e vou engolindo minha decepção aos poucos? Ou perdôo tudo cegamente como venho feito há muitos anos?

Ana fisgou-me desde A Teus Pés, e depois coloquei Inéditos e Dispersos entre os meus livros preferidos.

Não sou afeito a idolatrias, apenas a empatias e admirações. Não vou chorar uma decepção poética. Somos humanos e terrivelmente traiçoeiros. Bebo um chá. Esqueci. Pronto, Ana. Você agora está no patamar normalzinho dos que roubam palavras alheias para melhor traduzir as suas próprias.

Michel Schneider, no seu livro Ladrões de Palavras, revela que dos mais de 6.000 versos de William Shakespeare, pelo menos 1.700 foram "afanados" de algum outro autor e outros 2.000 foram afanados e reescritos. Até a própria peça Hamlet teria sido toda calcada na obra de algum autor desconhecido.

Num site qualquer que não me lembro mais onde encontrei, uma inteligente leitora explica por A + B que o nosso mais famoso escritor no exterior (Paulo Coelho) na verdade não tem nada de genial. Apenas fez uma coletânea de parábolas de auto-ajuda, editadas mundo afora, e reescreveu tudo em português. Não procurei averiguar. Ser detetive de livro de auto-ajuda seria sobrecarregar demais meu estômago.

Bem, vamos esquecer, perdoar ou simplesmente ignorar. Sem rancores. Temos como alento a frase de Mark Twain: "Adão tinha muita sorte. Quando dizia alguma coisa interessante sabia que ninguém havia dito antes".

Originalidade 100 por cento creio que não existe. E agora existem álibis diplomáticos para o plágio: chama-se intertextualidade. Existem também as coincidências literárias.

Não quero deixar ninguém triste, mas em 1916, um tal Henri Régnier escreveu os seguintes versinhos:

"L'amour est éternel... oui, tant qu'il dure...".

Traduzindo: que o amor seja eterno enquanto dure. Vocês concordam com Vinicius? Ou melhor, com Henri Régnier?


Cinco ladrões no Inferno.
Ilustração medieval para de A Divina Comédia (Dante Alighieri).

(junho de 2006)

raimundodemoraes@interpoetica.com

 

 

 

 

 

 

 


Os olhos da gazela

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista e jornalista

outros textos:

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SE EU FOSSE COMO TU...

ABANE O RABINHO

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DUAS SENHORAS INSUPORTÁVEIS

ELE FEZ UMA REVOLUÇÃO

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CRIATURAS RASTEJANTES

APOCALIPSE SEGUNDO NÓS MESMOS

MAMÃEZINHA QUERIDA

EM NOME DO PAI, DO FILHO
E DOS 50 REAIS

AQUELES OLHOS

BELEZA

PARAÍSOS.
AQUI E EM TODA PARTE.

ELES DIZEM “NÃO”

EU FUI QUASE INDEPENDENTE
(MAS QUEM NÃO FOI?)

MARKETING & CIA.

PAIXÕES

CADEIRINHAS DE ARRUAR

AQUI, ALI, ACOLÁ

 

   
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