página inicial | colunas | os olhos da gazela | a dor da fama
VOLTAR À PÁGINA INICIAL

 

A DOR DA FAMA

por Raimundo de Moraes

 

De tudo que eu vi falarem e revelarem sobre Michael Jackson, em matérias daqui e do exterior, nenhuma abordou uma estranha coincidência: foi também num mês de junho, há exatos 40 anos, que também uma estrela americana disse adeus repentinamente: Judy Garland. Ela foi encontrada   morta no banheiro de seu apartamento em Londres, pelo seu quarto marido, Mickey Deans. A causa mortis? Dependência química. Remédios para emagrecer, acordar, dormir, antidepressivos, analgésicos e uma contribuição inglória do excesso de álcool. A mãe de Liza Minnelli foi uma das vítimas do star sistem – no seu primeiro contrato milionário com a Metro-Goldwyn-Mayer os chefões hollywoodianos foram categóricos: se ela perdesse aquela silhueta-sílfide de O Mágico de Oz, estava no olho da rua. Então haja moderadores de apetite – que desde aquela época, além de emagrecer, já produziam mulheres histéricas e/ou deprimidas.

O advogado de Michael Jackson, Brian Oxman, em entrevista à TV revelou que já tinha avisado à família dele da enorme quantidade de medicamentos que o cantor ingeria, e aqui no Brasil, um farmacologista – esqueci o nome agora – disse no programa Sem Censura que se fosse comparar com Anne Nicole Smith (aquela ex-coelhinha da Playboy morta por overdose em 2007 e que casou com um milionário gagá) o coquetel de Nicole “era fichinha” com aquele que Michael ingeria diariamente. Um detalhe triste: um ano antes, 2006, o filho de Anne também tinha morrido por overdose de medicamentos.

À medida que vou escrevendo, lembro de outros nomes com histórias parecidas: Marilyn Monroe, Elvis Presley, Heath Ledger. Ser célebre pode ser maravilhoso para o ego, mas existe um estresse enorme para se manter a imagem e nunca perder aquele ar  “eu sou o melhor”, “eu sou um vencedor”. O dramaturgo Arthur Miller, que foi casado com Marilyn, disse que uma vez que a língua da loira era uma ferida só, tal o estado de intoxicação causada por barbitúricos. Elvis vivia em pânico com seus quilos a mais, e além de anfetaminas passava o rodo em tudo que lhe deixasse “ligadão”.

O que antes a gente já sabia – uma criança prodígio que nunca teve infância, um negro que queria ser branco e ter cabelo liso – ficou evidenciado pela morte repentina (repentina até certo ponto) de Michael. A TV nos bombardeou com todos os seus clipes desde a época dos Jackson’s Five e se vocês puderem notar, vejam o gradativo entristecimento do cantor-dançarino. Até Bad (1987) temos um Michael já mulato mas com o olhar ainda vibrante, depois disso... Ah, meus caros, depois disso surgiu um ser insólito, esquisitíssimo, que nunca mais iria bater os recordes de vendagem (e quem irá repetir esta façanha?) alcançados com Thriller (1982), o mais revolucionário “pacote” midiático de todos os tempos, consolidando de vez a Era da Globalização: o clipe foi lançado simultaneamente em vários países exatamente no mesmo horário – inclusive no Brasil, no horário do Fantástico, eu lembro.

Junto com Madonna, Michael Jackson mudou radicalmente a música pop. Com estilos e propósitos distintos – ele sempre procurando manter uma linha mais “familiar”, e ela sempre querendo ousar e escandalizar – a arte deve muito a essas duas estrelas. Não importa o gosto musical do cidadão, se prefere xote, new age ou música erudita: de alguma maneira Madonna e Michael Jackson estão na memória emotiva de todos, mesmo que seja para cuspir de lado e dizer que eles não prestam.

Com tanto esforço para mudar de aspecto físico, eu creio que a eterna criança que Michael parece ter sido buscava ser amada incondicionalmente. Esta compulsão em ficar belo, mesmo que no final se vire num monstro, denota uma ânsia patológica em querer agradar e atingir um estado impossível de perfeição, estar acima daquilo que se estabeleceu como feiúra ou como normalidade.

Num dos seus grandes sucessos, Don’t stop till you get enough – Não pare até você conseguir o bastante -1979, ele nos deu um recado sobre isso. Perseguiu seu sonho, tornou-se o maior astro do planeta, mas parece que não foi o bastante. Numa outra música, Leave me alone – Deixe-me sozinho -1987,  ele teve sua crise Greta Garbo. Ironizou a invasão à sua privacidade, as manchetes sensacionalistas. E completando esta trágica trilha sonora, é de 1997 a música Morphine, cujo refrão é: oh Deus, ele está usando Demerol/ ele está usando Demerol.

Quem sabe o analgésico Demerol tenha embalado os últimos sonhos de Michael Jackson, um menininho que quando a gente via dançar junto com os irmãos fazia a gente querer dançar também.

Numa ácida comparação ao capitalismo e ao show business, Ed Mota disse que Michael foi uma mistura de Marilyn Monroe, Mickey Mouse e Coca-cola. Eu gostaria de adicionar a esta mistura um pouco de suavidade: ele tinha também um pouco de Peter Pan e Fred Astaire (artista que ele muito admirava). Pena que nunca aproveitou como deveria o seu zoológico e os seus brinquedos no seu fabuloso rancho chamado Neverland – a Terra do Nunca.


Judy Garland, Elvis, Marilyn, Heath Ledger e Michael:
unidos no vício e nos comprimidos.

(julho de 2009)

raimundodemoraes@interpoetica.com

 

 

 

 

 

 


Os olhos da gazela

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista e jornalista

outros textos:

NASCENDO E MORRENDO
COM BENJAMIN BUTTON

COELHINHO DA PÁSCOA,
SE EU FOSSE COMO TU...

ABANE O RABINHO

QUAL É O SEU PRECONCEITO?

DA “BIOGRAFIA” DE UM ARQUIPÉLAGO

DUAS SENHORAS INSUPORTÁVEIS

ELE FEZ UMA REVOLUÇÃO

AS RECLUSAS DE CHAWTON E AMHERST

ROUBAR E (TENTAR) SER FELIZ

CRIATURAS RASTEJANTES

APOCALIPSE SEGUNDO NÓS MESMOS

MAMÃEZINHA QUERIDA

EM NOME DO PAI, DO FILHO
E DOS 50 REAIS

AQUELES OLHOS

BELEZA

PARAÍSOS.
AQUI E EM TODA PARTE.

ELES DIZEM “NÃO”

EU FUI QUASE INDEPENDENTE
(MAS QUEM NÃO FOI?)

MARKETING & CIA.

PAIXÕES

CADEIRINHAS DE ARRUAR

AQUI, ALI, ACOLÁ

O ORIGINAL E A CÓPIA

   
INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos