por
Raimundo de Moraes
Ramiro e Betina eram católicos
apostólicos romanos convictos e praticantes, e até se
abstinham de comer carne vermelha na Sexta-feira Santa.
- Veja, Betina, este panfleto.
Que vergonha! Oferecem ovos de Páscoa de todos os tipos e preços
e esquecem o verdadeiro sentido da data!
- É mesmo, meu amor. Antigamente
havia mais respeito com a Quaresma e com o Nosso Senhor.
Na verdade, os dois estavam apreensivos
com o filho, Ramiro Jr. O casal purgava o inferno na terra através
desta criatura sempre criada com amor e carinho. Apesar desses cuidados,
com quatro anos de idade Ramiro Jr. já tinha sido expulso de
dois colégios, e nem fora iniciado na alfabetização.
Nunca quis chupar chupeta, com
um ano deixou de molhar a cama. Aos dois já destruía todos
os brinquedos – “para ver como é que é”,
pensavam os pais, que gracinha – e uma longa sucessão de
babás abandonaram seu posto por motivos de violência: mordidas,
arranhões na cara e até um garfo enfiado numa coxa robusta.
Não adiantava castigos,
conversas, palmadas na bunda.
- Ramiro, meu bem: em que erramos?
- O que disse a última
psicóloga? Ele é hiperativo?
- Não. Ele tem tendências
homicidas.
Além disso, em época
de Páscoa, Júnior entrava numa agitação
febril: os ovos de chocolate lhe fascinavam de uma maneira a chegar
delirar diante de um anúncio ou diante de um “teto”
decorativo de uma loja pronta para vender milhões de ovos e deixar
todos felizes – cristãos ou não.
No seu primeiro surto pascoalino
Juninho abraçou um ovo gigante nas Lojas Americanas e só
saiu de lá depois que Ramiro e Betina passaram – filho
e chocolate – na máquina do caixa.
No ano seguinte – já
na escolinha – desenhava ovos e ovos e ovos, babava os papéis,
arregalava os olhos, a Tia Laura assustada: Juninho, você quer
colorir o coelhinho carregando a cestinha? Ele cuspiu na cara da professora:
eu quero um ovo! Bem grande!
E a Páscoa se aproximava.
- Ramiro, meu amor: que tal passarmos
o feriado na Semana Santa no interior e fugirmos desse consumismo alienante?
- Que boa idéia... –
abraçou-a: será que podemos fazer amor hoje? (eles eram
católicos praticantes e usavam a tabelinha. Mas Ramiro nunca
contou para a mulher que era estéril, a caxumba já tinha
detonado os seus ovos reprodutores. Quem seria o pai de Juninho? Enfim,
perdoar é algo divino. E Betina, por sua vez, nunca contou pro
marido que usava anticoncepcional desde o nascimento do herdeiro, pois
sempre achou que para o papa e para os cardeais pimenta no cu dos outros
era refresco. Se viesse outro filho endemoniado ela não agüentaria,
cruz credo. Melhor se prevenir).
- Para onde vamos?, perguntou
Ramiro Jr. dentro do carro com os pais.
- Para fazendinha no interior,
filhinho... Lá tem cavalinho de verdade pra você andar
nele, vai poder pescar com papai, tem outras crianças...
- E o meu ovo?! E o meu ovo?!
Vou ganhar ovo de Páscoa?
- Lá na fazendinha a gente
vê isso...
- Quero meu ovo AGORA!!!
Juninho teve ataque histérico
dentro do carro, gritando, pulando, batendo contra os vidros. Os pais
assustadíssimos. As pessoas olhando.
- Quero meu ovo!!!
Bem, entraram num supermercado.
- O que faremos, Betina?
- Temos que ter calma, meu amor.
Jesus disse: vinde a mim as criancinhas.
Ramiro empurrava o carrinho com
o filho dentro e rodeado de ovos de chocolate. Estava numa felicidade
delirante: pegue aquele ali amarelo, papai! Tem brinquedo dentro!
- Sim, Juninho.
Naquela Sexta-feira Santa Ramiro
Jr. não comeu o seu tradicional pacote da batata fritas (tinha
ojeriza a verduras e frutas), engoliu todo o chocolate que pôde.
No tapete da sala, embalagens coloridas estavam espalhadas como um segundo
chão. As paredes e os sofás melecados de pequenas mãozinhas
marrons. Os pais assistiam mudos à televisão.
A primeira diarréia foi
às duas da madrugada e sujou o quarto. Vieram outras, até
o alvorecer.
No café da manhã,
Betina disse: ainda tem ovinho, filho. Quer?
Juninho encheu-se de novo de ovos.
Os últimos que sobraram. Mas papai já chegava da rua com
mais ovos nos braços! Ovos beeeeem grandes! Que delícia!
Sábado de Aleluia. Nunca
se cagou tanto naquela casa – oh Senhor, tende piedade.
- Este aqui veio cheio de jujubas
dentro, filho. Coma... isso... coma tudo...
Sucessivos banquetes de chocolates
foram servidos e engolidos.
Enfim no domingo trombetas intestinais
anunciavam o fim de Ramiro Jr. Em seu desfalecimento e glória,
seu pai parecia um Chokito, sua mãe um Sonho Valsa. Já
perto da meia-noite, entraram na emergência do hospital com o
filho nos braços. Não aconteceu nenhum milagre: desidratado
e intoxicado, morreu Juninho.
Foi enterrado vestido como coelhinho
da Páscoa, uma fantasia azul e branca cedida por uma vizinha.
- Betina, que coisa horrível!
Enterrá-lo vestido assim!
- Mamãe, Juninho adorava
a Páscoa... E é uma época de renascimento para
todos os cristãos...
- Era um amor de criança!
De onde estiver deve estar orando por nós!
- Amém, amém.

Uma ilustração do famoso
caricaturista
alemão Wilhelm Busch (1832-1908)
(março
de 2008)
raimundodemoraes@interpoetica.com