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Orlando Jorge Figueiredo
(1957 Gafanha da Nazaré, Aveiro/Portugal)

 

 


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Velho

Um homem
um homem velho de velho bigode
trauteia velhos discursos
feitos para velhos
cansados de serem velhos
à espera da velha morte
à espera do velho caixão
gemendo como corujas velhas
no alto da velha palmeira
plantada no jardim da velha igreja
onde velhas mulheres desfiam rosários
com os seus dedos que são olhos
de olhar a velha cruz de madeira
velho símbolo de fé
nesta velha paisagem
de nuvens radioactivas
velhas chuvas ácidas
neste velho planeta
vergonhosamente
manchado
e
prematuramente
velho

 

Ele

Ele era baixo
tinha bigode sujo
Ela
não
era
bela
Ele disse que ela era bela
Ela riu
e casaram
e tiveram flhos
meninos pobres
mas comiam pão
todos os dias

Ele era baixo
tinha bigode sujo
e
ela
não
era
bela

 

Largo de São Braz

No largo de São Braz
A vendedora de castanhas
Mostrava os dentes podres
e patos marrecos
dançavam a dança dos mancos

No largo de São Braz
as crianças adormeciam
nos ramos das árvores
e os cães vigiavam as pombas

O largo de São Braz
era muito pequenino
e não era largo

As pessoas eram muito felizes
porque se sentavam no chão
e cruzavam os braços

Quem me dera voltar
ao largo de São Braz

 

O pão

Hoje
falta-me pão

O pão nosso de cada dia
dizem

Cada dia é um dia
que me traz
tudo menos pão
Hoje recebi mágoas
queixas e lamentos
tudo menos pão

Dizem
o pão nosso de cada dia

Cada dia é um dia
em que os dias
são árvores nuas
e ventos de desgraça

O pão nosso de cada dia
o pão ázimo da poesia

 

Mulher

A mulher estátua
não tem moedas
na sua caixinha prateada

A mulher estátua
olha de olhos abertos
quem a ignora

A mulher estátua
com seu vestidinho prateado
olha a chuva à sua volta
A mulher estátua
quer deixar de ser estátua
e não sei se é chuva
se são lágrimas
as gotas que crescem
nos seus olhos

A mulher estátua
aperta os olhos com força
como quem diz adeus
à mulher estátua
Segura no seu banquinho
debaixo do braço
e diz adeus à vida dos outros

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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