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Orismar Rodrigues

 

 


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LÁGRIMA-SANGUE
Cegar  os olhos
como fez Édipo com os seus
não me impediria deixar de ver-te
Amar-te
          disseram-me os ventos-oráculos
será a maldição de Cupido a carregar eternamente
És hóspede da minha lágrima-sangue
conduzido como facho e sombra errantes de jardins 
solitários
As flores-de-sol murcharam. Os beija-flores de ouro
agonizam
    num chão de folhas secas
teus pés abriram caminhos
Entrego
    a alma vestida de luas e de estrelas
aos pássaros de fogo que vão buscar o azul-profundo 
do mar
No leito
    Meu deus dorme coberto com branca seda
Bebo o vinho,
                   como o pão
                         envenenados de paixão

 

ESPELHO

Revela-me o espelho o tempo.
O olhar e o meu sorriso dos 20 anos
estão nessa fotografia.

Tempo não mais tenho.
Fecho o álbum.
Desfalece-me a alma.
Do que tenho medo ainda solitária lembrança?

Não mais consultarei o espelho.
Bastam-me essas margaridas selvagens
e esses miguês bordando o gradil de ferro.
E lá, agora, onde vou refletir minha face.

 

 

Fonte:
46 Poetas, Sempre
Organização: Almir Castro Barros
Edições Bagaço
Recife - 2002

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos