O texto
teatral de Joaquim Cardozo: chão cósmico de singulares
transfigurações
>> por João
Denys de Araújo

Escultura do poeta na ponte Maurício de Nassau em Recife
O Teatro de Cardozo situa-se singularmente
no imaginário estético brasileiro. O conjunto de seus
textos teatrais é diferente da produção dramatúrgica
do e sobre o Nordeste porque é um teatro da morte, assim como
o é toda a sua poesia. Não a morte destruidora da vida
e das idéias; não a morte apartada da vida (contra essa
ele vai lutar até a morte), mas a morte inserida na vida e propiciadora
de vida.
O Poeta-matemático nos
provoca porque não faz distinção entre ciência
exata e poesia. A paixão que ele nutre pela arte oriental será
determinante em sua produção poético-dramatúrgica.
Seu teatro de sombras e luzes é povoado de duplos, personagens-morte
que caminham em regiões não apenas determinadas pela paisagem
seca e hostil, mas pelas contingências históricas, econômicas
e sociais.
O tipo de apropriação
da matéria popular e suas manifestações; o modo
como Cardozo as transfigura não seria análogo a uma operação
geométrica? Operação esta que toma a matéria
e a retorce, coloca-a pelo avesso, demonstrando que uma forma contém
muitas formas e que muitas delas contêm apenas o vazio. É
no vazio contido nessas formas que se encontra sua utilidade. Não
é este um dos tópicos do livro da sabedoria taoista? O
Tao-Te King também povoa as peças de Cardozo: às
vezes, subterraneamente, em eternos seres caminhantes, desterrados;
outras vezes, explicitamente, em caracteres chineses projetados na cena
e em sua tradução vocal, amplificada eletronicamente.
Esses elementos, sumariamente levantados, somados às influências
que acolheu de tradições teatrais antigas ou modernas,
e aos experimentos poéticos-teatrais dos expressionistas August
Stramm, Lothar Schreyer e Rudolf Blümners, formaram um autor muito
particular entre as singularidades dos autores nordestinos.
Diante da alteridade, vamos retirar
Cardozo da Escola do Recife e colocá-lo na escola do mundo, sem
delimitações de fronteiras entre Ocidente e Oriente, mas
com um ponto referencial: o chão donde brota sua arte. Não
há como emoldurar o seu teatro numa ótica aristotélica
ocidental. Suas peças são filhas da dança, da música
e da poesia como qualquer gênese teatral sobre a face da terra.
Sua busca de um teatro absoluto aponta um caminho possível para
um teatro brasileiro em sintonia com o teatro oriental, com o teatro
de encenadores como Eugenio Barba, Jerzy Grotowski, Peter Brook e Ariane
Mnouchkine.
Um teatro que busca nas manifestações
espetaculares dos povos a matéria prima para a criação
e a expressão, mantendo uma posição extremamente
crítica para com o poder das instituições capitalistas,
desvelando com sua poesia as intrincadas, ambíguas e contraditórias
relações socioculturais.
O Bumba-Meu-Boi é uma dessas
manifestações espetaculares escolhidas pelo poeta para
alimentar três de suas obras. Essa escolha não se deve
a questões regionalistas nem tampouco a um tipo de resgate folclórico.
Até porque o Nordeste não é proprietário
desse gênero de teatro popular. O Boi se manifestou e se manifesta
em todo o Brasil, não é típico de uma região
e possui características próprias de acordo com o chão
onde germina. Suas raízes mais remotas estão fincadas
em diversas partes do Globo. Basta recordar as pesquisas de Luis da
Câmara Cascudo (1) (1984, p. 421-433) a garimpar as manifestações
do Boi em todos os pontos cardeais, muito embora conclua que Boi dançado
é, por direito, exclusivo do Brasil.
Ao adotar o Boi como ponto de
partida para revestir suas obras, Joaquim opta por uma operação
estético-ético-conceitual, uma matemática de cálculo
lento e solução sofisticada: ausência de linearidade
e verossimilhança, personagens tipificados, objetos animados,
figuras zoomórficas, seres fantásticos, sons não
verbais, amplitude e diversidade espacial, ritmos complexos, a finitude
e a transitoriedade, velamento, desvelamento, enfim, um sonho ou um
pesadelo como O Grande teatro do mundo, de Calderón, como A Tempestade,
de Shakespeare, como O Sonho, de Strindberg, ou como a magia acrobática
da Ópera de Pequim, como o teatro balinês, como o Bunraku,
o Kabuki e o Nô Japoneses. Como os Nôs modernos de Yukio
Mishima, ou, ainda, como a Alma boa de Setsuan, de Brecht.
Através dos seus Bois,
Joaquim coloca em poesia de alta qualidade teatral as questões
básicas do ser humano e da coletividade: existir, ser e estar
no mundo, relacionar-se, revoltar-se, desistir e persistir, comer e
morrer de fome, sobreviver com terra ou sem terra, com muito e pouco
amor, com tristeza e alegria, enganando e sendo enganado, com esperança
na desesperança, trabalhando, brincando, dançando, falando,
cantando e caminhando. Um teatro sem-terra, nômade, teatro dos
caminhos, dos terreiros, quintais, praças e feiras. Um teatro
que é uma grande jornada que se conclui numa nova partida. Assim
é em O Coronel de Macambira, em De uma noite de festa (2)
e em Marechal, boi de carro. Esses bois nunca terminam, pois também
nunca começam. É um círculo em constante movimento,
num vaivém que empurra a caminhada, quadro a quadro, passo a
passo, dia e noite, numa profusão mirabolante de assuntos e formas.
A transfiguração
poética que Joaquim Cardozo realiza, ao construir o seu O coronel
de Macambira, toma como paradigma o Bumba-meu-Boi do Capitão
Antônio Pereira, coligido por Ascenso Ferreira e publicado na
revista Arquivos, da Prefeitura da Cidade do Recife, em 1944. Ele acrescenta
a essa matriz escrita suas memórias de público de Boi
e os tipos populares que foi conhecendo ao longo de sua vida. Como experimento
inicial, este boi ainda está muito contaminado pela matriz folclórica.
Estrutura-se em dois quadros, aproveita grande parte dos tipos de personagem
do Bumba popular, procedimento que irá se alterar profundamente
nos Bumbas publicados posteriormente. No entanto, Cardozo, já
na sua primeira peça, busca retomar um aspecto perdido no Bumba
folclórico: recoloca o boi como motivo principal de todo o enredo,
composto de fragmentos, e introduz várias figuras que denominamos
personagens-morte, espécies de fantasmas ou duplos, sendo que
dois deles passam a formar com o boi a tríade de personagens
centrais e portadores da esperança em dias melhores para o Brasil:
a Aeromoça e o Soldado da Coluna.
O Boi é teatro dentro do
teatro; a fábula é constituída de fábulas
que ajudam a passagem do tempo e fornecem pistas ou dificultam a busca
do Boi; os quadros se dispõem como barracas de uma feira livre.
O público é solicitado a entrar e a sair de cada nova
situação criada, conscientemente. Juntamente com as cantadeiras,
os números de dança e mímica, acentuando as situações
ou criando novas interpretações, além de confrontar
linguagens diversas, propiciam um tipo de distanciamento crítico
tanto naqueles que agem em cena, como nos que participam como testemunha
do ato teatral.
Um aviso de morte pode ser uma
forma de ler O coronel de Macambira; uma denúncia; uma resposta
à improvável pergunta a partir do título: quem
matou o boi?
No campo de forças contrárias
instaurado no Bumba, o autor escolhe justamente o opositor para nomear
a peça. A preposição de, presente em todos os títulos
dos Bois, desempenha ambíguas relações. Entre elas,
a de naturalidade, propriedade e matéria. No primeiro e segundo
casos, o coronel é natural e proprietário da Fazenda Macambira.
Na relação material o efeito é cômico, irônico,
crítico, ou seja, esse coronel é feito de macambira; possui
as características da planta macambira, quais sejam: rigidez,
espinhenta, sem valor nutritivo, embora o sertanejo, em época
de seca, faminto, recorra às suas folhas e as transforme em pão.
O povo, o boi e até a região
estão sob o comando dessa assustadora figura do poder cujas marcas
impressas na história do Brasil ainda não foram totalmente
apagadas.
Se o coronelismo, historicamente,
foi ultrapassado, ou mal-disfarçado por outras máscaras
mais “modernas”, resta o fantasma (o duplo?) e os seus desdobramentos
imaginários. É com essa figura de morte, vilão
do Bumba, que Cardozo denuncia, zomba e batiza seu primeiro Bumba-meu-Boi.
Nele, como se verá, o autor atacará, sem piedade, as elites
salvacionistas do Nordeste e seus grandiosos projetos em prol delas
mesmas, embora destilem uma retórica populista.
Enquanto caminham em busca do boi malhado, a fim de evitar sua morte,
o Capitão, Mateus, Bastião e Catirina encontram muitos
Nordestes e muitos Brasis.
Auscultando o chão, Bastião
escuta-vê a terra girando, o estalo de uma semente ao nascer,
uma roda de engenho, uma acirrada discussão de poetas, a demagogia
dos políticos, a gula de um padre, um menino que chora, um acalanto,
a oração de uma velhinha, o diálogo dos passarinhos,
um boi que vem desgarrado.
Em Cardozo, o Brasil que vem é
esse boi desgarrado; um comandado; a patente mais baixa da hierarquia
militar. Enfim, esse Brasil que vem e que chega é o fantasma
dele mesmo; duplo dos brasileiros, sobretudo daqueles marcados pela
diferença, e que a elite estigmatiza por meio de designações,
também reproduzidas pelos subalternos, tais como: ordinários,
ruins, feios, caipiras, desprezíveis, vagabundos.
É por essa estigmatização
que o Soldado da Coluna se apresenta em O coronel de Macambira. Soldado
raso, escuro, pobre, desconhecido; de memória encoberta, como
já havia entrado no poema Os anjos da paz, também configurado
como duplo, integrante do primeiro livro do autor, editado em 1947.
O Soldado da “Grande Marcha”
atua em seu monólogo como uma testemunha participante do processo
de guerra de movimento, que executa em sua luta uma panorâmica
e dinâmica percepção da situação oprimida
do povo. O Soldado ouve, vê e sente as vozes dos silêncios,
a claridade das trevas, a grande dor das alegrias dos deserdados que,
como ele, caminham na periferia da história.
Em O coronel de Macambira, o autor
constrói uma cadeia de significados na qual o Soldado está
para o boi malhado, que está para o povo, que está para
o Brasil, que é perseguido, mais visivelmente, pelo Coronel.
Porém, a dimensão cósmica do Soldado o integra
no universo dos paradoxos, das contradições, em que subir
é descer, descer é elevar: “Subindo do chão
me arranco / Descendo encontro as estrelas”.
Ler O coronel de Macambira numa
perspectiva que se afaste do pitoresco, do localismo, do exótico,
que por muitas vezes tentam rotular este ainda atual testemunho de nossa
cultura e sociedade desnudadas, é um desafio para todos nós.
Aqui, o dramaturgo-poeta encontra
a forma mais bem arquitetada, calculada e construída dos seus
Bumbas: três dimensões denominadas quadros, constituídos
de vários fragmentos independentes; aprofundamento dos assuntos,
e criação de personagens que vai se fazendo mais original,
numa comovente teatralidade, fruto de uma transfiguração
poética inédita na dramaturgia brasileira.
Em De uma noite de festa já
não existem nem animais nem fantásticos construídos
à semelhança daqueles da matriz folclórica utilizada
por Cardozo para compor seu primeiro Bumba-meu-Boi. Os animais neste
Boi têm fala, o que não ocorre no Bumba popular, e estão
todos inseridos num plano onírico, a saber, no segundo quadro,
o sonho de Bastião.
Os quadros da peça comportam
um microcosmo de ações, imagens, temas, palavras, versos,
sonoridades, danças especiais, mímicas e cantigas. São,
enfim, pequenas peças dentro do todo da obra. Como tais, comportam
ainda uma síntese em palavras, em dimensões, em perspectivas
que informam o núcleo de forças dos Bumbas.
O primeiro quadro estabelece uma
perspectiva da realidade; o segundo, uma perspectiva onírica
e o terceiro, uma síntese conflituosa entre o mágico,
que tende a povoar todos os quadros, o real e o onírico, catalisados
pelas cerimônias fúnebres.
Destaca-se das características
modernas do texto teatral cardoziano a constante utilização
das linguagens e dos experimentos cênicos: os mamulengos, a língua
das siglas; a orquestração de risos e risadas; a utilização
de recursos eletrônicos; as coreografias das danças particulares;
recursos semelhantes à montagem cinematográfica, numa
profusa cadeia intersemiótica. O minucioso cuidado em construir
a cena por meio da escrita, das poéticas coordenadas cênicas,
é um dos indicativos que coloca Cardozo no mesmo patamar dos
grandes dramaturgos contemporâneos, do quilate de um Samuel Beckett,
Eugène Ionesco, Jean Genet, Harold Pinter, David Mamet, Sam Shepard,
Edward Albee, cujas didascálias denunciam o encenador escritor
ou o escritor encenador.
Esse Boi é proveniente
de uma noite. Os assuntos brotam da noite e da festa, indicativos do
espírito criativo. No título encontramos uma circularidade
elástica: a palavra festa pode se ligar à preposição
inicial, fechando o círculo - (de uma noite de festa de uma...).
A elasticidade está ligada aos valores semânticos de noite
e de festa. Esses valores ampliam ou reduzem as dimensões do
círculo, similar à elasticidade do espaço cênico
do Boi que, determinado pelo público ao seu redor, se alarga
ou se reduz dependendo da cena. Para além da festa de Natal em
Nazaré, há a festa que é o próprio Bumba-meu-Boi
a se realizar percorrendo toda a noite. Assim como o jogo teatral, essa
festa é a oportunidade para a subversão que se desenrola
na noite, geradora do sono e da morte, dos sonhos e das angústias,
da ternura e do engano.
A grande máscara zoomórfica
do boi construído por Cardozo não é apenas a do
importante animal do universo rural, mas outra máscara, outro
símbolo de prosperidade que também precisa ser desvelado,
desnudado, para compreendermos que debaixo dessa estrutura material
(armação revestida de tecido e enfeites; simulacro de
boi) só existe o indivíduo, com sua força de trabalho
e seu poder criativo.
Este Bumba esclarece de saída
o caráter ambíguo do texto. Todo o universo de encontros,
desencontros, buscas, desmascaramentos, jogos de vida e de morte estão
antes ou depois do título. Eles se encontram na zona imaginária
da noite de festa, da noite e da festa; por extensão, do teatro.
O mais “rurbano”,
mais complexo e poético dos Bumbas cardozianos, De uma noite
de festa, é o território imaginário de fronteiras
arbitrárias onde o autor determina o solo cultural, a topografia
das possibilidades de realização da ação
dramática, em estilhaços. Um dos seus intentos é,
por meio da linguagem teatral, poetizar uma região povoada de
magia e violência, de sabedoria e desigualdade, de belas praias
e áridos sertões. E o mais importante: poetizar e questionar,
criticamente, uma região onde se perpetua uma dominação
sociocultural e política, revestida pelos velhos discursos das
elites. Esse poetizar investe em outras construções imagético-discursivas.
O poeta ainda inventa uma categoria
especial de personagens que são máscaras sobre máscaras:
umas mais próximas da realidade imediata como se pode verificar
nos outros Bumbas; algumas mais poéticas, duplos ou alegorias,
como os três Reis Magos, a Virgem Maria, o Poeta, o Brinquedo
de Esconder, Palhaço, Rei de Baralho, Cavalo de Carrossel e Judas
de Sábado de Aleluia.
Cavalo de Carrossel, Rei de Baralho,
Palhaço, Brinquedo de Esconder e Poeta assemelham-se, do ponto
de vista da forma e da função no enredo, às personagens
de Lewis Carroll, em seus livros sobre Alice. Curiosamente, Carroll,
tal qual Cardozo, era um matemático que incorporava a matemática
e alguns conceitos das lógicas simbólicas às suas
criações poéticas, inclusive alguns processos e
experimentos da topologia geométrica.
O primeiro diálogo, ou
prólogo, de De uma noite de festa, entabulado por dois homens,
o velho (Prudente) e o novo (Valente), desvenda o tema profundo desse
Boi: a morte enlaçada com a vida e a vida separada da morte;
a vida expondo-se ao risco de morte; a morte imprimindo seus sinais
de vida.
Dos muitos encontros que ocorrem
no primeiro quadro da peça, tem especial relevo o fragmento composto
pelos mamulengos SUNAB, IPASE, DASP E DENOCS que fazem uso unicamente
de uma linguagem de siglas. Esses importantes e monstruosos mamulengos
também se dirigem à Missa de Natal, mascarados por siglas
e armados com os instrumentos que representam abastecimento alimentar,
controle do serviço público, obras contra as secas, assistência
e previdência social. Irônica presença, a desses
mamulengos, no espaço humano onde pulula a ausência da
ação dessas mesmas personagens.
A monstruosidade e a deformação
dos bonecos ligam-se à deformação dos organismos,
departamentos e superintendências governamentais, privados, nacionais,
multinacionais e internacionais.
O arranjo poético-teatral,
experiência de linguagens na cena, está contaminado com
um desnudamento: a inflação de Organizações
voltadas para o bem-estar e a garantia dos direitos e deveres democráticos
de um povo, mas que, na maioria das vezes, possuem uma ação
ineficiente. O riso que pode provocar o efeito fonético, indecifrável,
produzido pela forma siglada é o mesmo do efeito social que as
siglas provocam.
Para além de todo esse
complexo que envolve as siglas, e dos valores estéticos que Cardozo
consegue extrair de sua criação, existem outras preocupações
que estão na raiz do seu teatro: o ser humano, sua cultura e
seus problemas. Em face de tantas instituições, de tanta
burocracia criada para o bem e o cultivo do progresso humano, da civilização,
como se justificam o atraso, a vida por um fio, a pobreza extremada,
a fome que tudo aniquila, a violência que tudo destrói,
o trabalho inexistente, a ausência de terra para cultivar? Na
fonte de tantas siglas, transfiguradas em língua e linguagem,
estão o esforço e o não-esforço humano para
resolver os enormes problemas do chão e do planeta, do caminho,
do caminhar e do caminhante, da vida e da morte.
A região Nordeste do Brasil
aprofunda seus males e seu subdesenvolvimento com e apesar da SUDENE.
Os problemas relativos à seca, ou à indústria da
seca, crescem a pleno vapor contra um departamento nacional que em si,
aglutinando substantivo e função, é contra as secas:
o DENOCS. A pomposa UNESCO não dá conta dos graves problemas
educacionais, científicos e culturais das nações
ditas unidas.
Numa contundente sintonia com
a história dos deserdados que resistiram à fúria
da oficialidade no conflito em terras pernambucanas, no século
XIX, que ficou conhecido como Guerra dos Cabanos, o autor ergue um fragmento
composto por personagens que são pedaços pulsantes de
terra. Neste fragmento, todas as falas dos Cabanos são respostas
poéticas às indagações do Capitão,
única personagem que com eles mantém contacto. Respostas
também para a sociedade e para a história oficial dos
vencedores. Vozes que são a ressurgência de uma história
por muito tempo amordaçada em alguns ninhos da cultura (escolas,
quartéis, igrejas) e que, quando vinha à tona, representava
a história dos bandidos, feras, membros gangrenados da sociedade,
que as elites vencedoras debelaram e extirparam. Os Cabanos são
exemplos dessas feras e dessa voz popular silenciada por tantos séculos.
Transfigurados em caminhos, em terra seca, por vezes encharcada de sangue,
eles são o caminho; “o poder, a livre ação
de andar na terra e caminhar”, permitindo-nos reiterar a opção
de Cardozo pelos deserdados, pelos insurretos de sempre, conjugando
a revolução da terra com a revolução dos
seres humanos, o universal e o atemporal com o local e o histórico.
Enquanto o discurso do Soldado
da Coluna, personagem de O coronel de Macambira, é expressão
de um indivíduo que relata um passado (eu era, ouvi, vi, senti),
o dos Cabanos é expressão coletiva que se afirma reiteradamente
no presente (somos, somos, somos...). É como se as partículas
das manifestações coletivas ouvidas, vistas e sentidas
pelo Soldado anunciassem os Cabanos. Diluindo as fronteiras cronológicas
e históricas, essas personagens desse teatro da morte recolocam
e confirmam os sinais de esperança e de luta desesperada dos
sem-terra por um pedaço de terra; terra que não se reduza
à cova provisória dos cemitérios, nem à
vala comum dos ossuários. Essa luta incansável e irrenunciável
de sombras prossegue, em pleno século XXI, fora do espaço
ficcional, mas por ele previsto, nos Cabanos contemporâneos, que
de terra batida transformam-se em asfalto fervente, a caminho pelas
estradas e avenidas, ruminando sonhos sob cabanas de plástico.
O grande fragmento que encerra
o primeiro quadro de De uma noite de festa é uma torrente de
acontecimentos – pequenas partículas que formam o fragmento
– , a própria festa. Em meio à multiplicidade, um
presépio vivo, palco sobre palco, domina a atenção
de personagens, leitores e públicos. Nesse Fragmento, o dramaturgo
opera um duplo e redundante desnudamento dos hábitos de uma cultura.
Hábito como vestimenta, hábito como atitude, gesto e fala.
Uma completa transfiguração: da imobilidade ao movimento,
do rígido ao flexível, do intocável ao tangível,
do passado ao presente, do sagrado ao profano, do eclesiástico
ao secular. Transfiguração de uma tradição
primordial, na qual as funções régia (ouro), sacerdotal
(incenso) e profética (mirra) se transmutam em dinheiro (ouro),
ações (mirra), e a antimatéria (incenso), todas
sintetizadas em uma áurea verdade chamada capital.
O leitor concluirá, sem
grande esforço, que todos os presentes dos Reis são oferendas
de morte, que vão da matéria à antimatéria;
do amarelo que fere a vista, amarelo de escarro vivo, como diria João
Cabral de Melo Neto, em Os reinos do amarelo, à pureza transparente
e monstruosa da eterna morte É pertinente observar também
que estes presentes são construções discursivas
que vão de encontro à vida que nasce: todas as ofertas
são discursos de morte.
O intenso monólogo da Virgem
Maria do presépio, transfigurada em mulher do povo, entre tantas
revelações, apresenta o Messias como o primeiro e o único
“que o mundo viu sem véus”, e ao dia do seu nascimento
denomina “Dia do Desvelamento”.
Esse dia do desvelamento equivale
à noite de festa de Cardozo, ao mundo embaçado e deformado
que ele apresenta e aos poucos vai desnudando: os mamulengos medonhos
que, de “brinquedos” do povo, se transfiguram em “brinquedos”
da classe dominante, representados pelas grandes companhias, institutos,
organizações, instituições criadas para
o povo e para o progresso, mas que não conseguem articular um
diálogo com a cultura subalterna. A banda de risonhos (de Joões-ninguém),
cujo sorriso revela a gargalhada congelada dos crânios dos cemitérios,
dos que morreram de fome, não resistindo à seca e à
exploração da seca. Reis que explicitamente se despojam
de suas vestes sagradas para revelarem os símbolos da ganância
e do poder: o dinheiro, com suas variadas faces; o avanço técnico-científico,
com sua ambigüidade.
Nesta noite de festa em que Cardozo
rompe a imobilidade e o imobilismo da lapinha, não apenas estática
como também revestida por uma história unilateral, relatada
pela classe dominante, a tradição toma novos impulsos
e novas faces. Maria nos informa que há outra história:
a história que é gravada por outra classe que a dos violentos,
autoritários, ricos e poderosos. Por esta outra história
ela põe em dúvida as escrituras sagradas, os evangelhos,
e a manipulação dos mesmos pela religião, pela
cultura.
As sociedades, através
dos seus bagaços de história, nunca conceberam nem aceitaram
outra verdade e sabedoria que não a do pequeno grupo que domina,
pelo ouro, as grandes massas de indivíduos despossuídos
de riqueza material. E se dizem aceitar a verdade que emana das classes
inferiores, o fazem transfigurando-a com os signos de sua ideologia.
Modificam os discursos, os movimentos do corpo, as feições,
os pontos de vista. Para os dominadores, os arcanos da fé ou
de qualquer crença devem guardar uma similitude com os arcanos
do poder, e poder, aqui, centrado na força e na tirania do dinheiro.
Cardozo reserva para De uma noite
de festa o desfecho e a cerimônia fúnebre mais intensa,
mais poética de todos os seus Bois. Ao encontrar o boi desaparecido
do presépio, entre a vida e a morte, sobre um monte de capim,
o grupo do Capitão fica estupefato. Não há a iniciativa,
como nos outros Bois, para providenciar um “salvador”. Este
surge sem chamado, mas anunciado pelas Cantadeiras como um curandeiro
que chega para salvar o boi, a vida, o povo.
O Ervanário é um
feiticeiro, um xamã, um pajé, todos reunidos em uma só
personagem, embora ele afirme não ser nem doutor, nem mágico,
nem feiticeiro; apenas um simples curandeiro. Seu longo discurso, em
face do silêncio atônito e da quase imobilidade do Capitão
e dos seus, vai desvelando, criticando radicalmente os doutores, com
um procedimento poético e teatral diametralmente oposto ao realizado
em O coronel de Macambira, pois recoberto com uma atmosfera que evoca
o ritmo oriental, mais precisamente o chinês, taoístico.
Por isto, a despeito da declaração do autor que o caracteriza
como uma figura típica do Nordeste, somos tentados a vislumbrar
o Ervanário como uma sombra de Lao-Tzu, cavalgando em seu boi
preto.
As ervas poderosas do Ervanário
são a arruda, o mastruço, o capim santo, a erva cidreira,
cascas, raízes e resinas, isto é, medicamentos periféricos
da indústria farmacêutica, hoje totalmente dominados pelo
comércio fitoterápico. São também, sobretudo,
a erva-de-santa-maria, a raiz-do-sol, um ramo de rosas murchas e a marijuana.
Diante da dormição
do boi, estado onírico entre dois mundos, o Ervanário,
mestre da vida produtiva e contra todas as vidas que destroem, aproveita
para criticar também um tipo de antropofagia científica
que, diante do vale-tudo da chamada pós-modernidade, pouco nos
surpreenderá.
Expressando a mais fundante concepção
do seu teatro da morte e do insondável silêncio que há
em cada ser, espaço equivalente a um microcosmo, Cardozo põe
na boca do Ervanário uma provocante mescla de idéias barrocas,
expressionistas e taoísticas.
O autor continua o seu processo
de distensão, torção e ampliação
das cargas semânticas dos materiais que seqüestra para a
sua criação. Ao trabalhar com a maconha, procura retirar
dela suas propriedades positivas e ampliar o sonho que ela venha a provocar.
Sonho ilimitado de idéias e ideais que ofende os que não
conseguem sonhar. Ao mesmo tempo, faz uma operação analógica
entre povo pobre e erva proibida, povo e capacidade de sonhar.
Terminado o rito com a marijuana,
Cardozo arquiteta um efeito cênico de amplas significações:
todas as personagens ficam imóveis. “No fundo da cena surge
uma linha de horizonte entre o céu e o mar. Sobre este campo,
em tons firmes e bem delineados aparecem a garrafa de Klein e uma citação
do Tao-Tö-King”. A citação do Tao surge em
caracteres chineses e afirma a utilidade do vazio, a profundidade da
superfície, a complexidade da simplicidade. O dramaturgo chega
a utilizar uma página para escrever os caracteres e desenhar
três versões planas da garrafa de Klein (3), duas
delas sendo cortes esquemáticos que produzem duas fitas de Möbius.
Amalgamando a garrafa de Klein
com os caracteres chineses que exprimem o vazio sobre uma linha de horizonte,
um boi que morre, seres estáticos e uma voz off – dicção
poética que traduz todo esse aglomerado de signos que converge
para a morte –, o autor nos dá uma das chaves para compreender
esse seu teatro híbrido e imaginativo para além dos aspectos
que levantamos, como poderá constatar o leitor atento, inclusive
vislumbrando aquelas propostas, apresentadas por Italo Calvino, todas
reunidas em uma só obra: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade,
multiplicidade e consistência.
No mais urbano e melancólico
Bumba cardoziano, Marechal, boi de carro, a alegoria à situação
por que passa o Brasil sob o jugo dos militares subjaz a todo o relato
inicial da peça, em que três figuras, espécies de
comentaristas históricos, narram os últimos e violentos
acontecimentos passados na região.
O título de Marechal, boi
de carro é, a primeira vista, pragmático, objetivo e o
único dos Bumbas que alude à figura do boi: nome, condição,
profissão e equipamento de trabalho, todos reunidos. Há,
contudo, no apelido do boi, uma fisgada crítica e ambígua
que rompe a objetividade aludida: o nome marechal associa-se ao pequeno
e ao grande, ao fraco e ao forte. Originalmente, marechal designava
o indivíduo que cuidava dos cavalos. A palavra está intimamente
soldada à condição de servo. Modernamente, marechal
é um alto posto no exército, carregado de sentido negativo
na história do nosso país. Entre um Marechal de ferro
e os generais de linha dura, existe um velho boi marechal. Numa possível
interpretação, é como se o autor ou o povo, no
plano ficcional, que tanto respeita e admira esse boi, quisesse nos
dizer: esse é o marechal que legitimamos como servo e superior.
Com o propósito de retomar
o desvelamento sociocultural presente no conjunto de sua obra dramatúrgica,
Cardozo cria um estranhamento localizado no primeiro quadro de Marechal,
boi de Carro que difere formalmente das composições O
coronel de Macambira e De uma noite de festa. Trata-se do encontro do
Capitão e do seu grupo com um matuto que está partindo
em retirada de suas terras em busca de melhores condições
de trabalho no Recife.
O estranhamento diz respeito a
um certo deboche que o autor emprega no uso da personagem de forma estereotipada,
inclusive transcrevendo fonicamente o modo de falar do Matuto. A lamentosa
narrativa da personagem é profundamente crítica, muito
embora o Capitão o considere um cretino, e vem reforçar
mais explicitamente o que em De uma noite de festa ficava subentendido.
As Cantadeiras o anunciam como muito astuto, sem firmeza e covarde.
Ele é um exemplo caricaturado do sertanejo: “Do veio sertão
sou fio”.
O discurso do Matuto põe
a nu um dos modelos de projeto nacional geradores dos desvios de verbas
e da institucionalização da “Indústria da
Seca”. O DENOCS, sob a égide do planejamento regional,
cujo superobjetivo seria resolver o problema das secas e fixar o homem
à terra, em verdade se transforma numa máquina de desperdício
do dinheiro público, privilegiando grandes latifundiários
e enriquecendo grandes empresas financeiras, empreiteiras, mineradoras,
agropecuárias.
Outro projeto salvacionista proposto
pelo autoritarismo das elites competentes, sutilmente recoberto pelo
manto da racionalidade funcional, costurado pela burocracia, é
o Banco do Nordeste, agudamente criticado pelo Matuto.
Sem querer acreditar num “milagre
brasileiro”, nem em outra coisa que venha salvar o Nordeste, o
Matuto ataca a SUDENE, como mais um dos mistérios que ronda as
relações entre as classes subalternas e as elites especialistas
em planejar.
Cardozo utiliza em seu último
Bumba uma narrativa pretérita para instalar os leitores ou os
públicos de forma mais crítica no desenvolvimento da ação.
Constrói também um dos mais elaborados quadros da sua
dramaturgia, na perspectiva da narrativa épica brechtiana. Intercalado
por cantigas, o segundo quadro constitui-se num único e longo
fragmento, envolvido pela atmosfera noturna e onírica que caracteriza
os segundos quadros dos seus Bumbas: o Capitão, Mateus, Bastião
e Catirina estão num pequeno hotel na cidade de Jaboatão
e decidem passar a noite em claro para não perderem o início
da feira, onde será leiloado o boi Marechal que eles pretendem
arrematar, salvando-o da morte no açougue. Mateus, para entreter
o grupo, decide contar uma história. Uma história em abismo,
com comentários e interferências dos ouvintes, em que o
contador narra o seu encontro com a personagem Macunaíma, que
desceu do seu posto na Ursa Maior e veio folgar com um dos seus companheiros
de classe.
Este é o único momento
do Marechal, boi de carro em que surge, apenas por meio da narrativa,
uma personagem-morte ou personagem duplo: Macunaíma, sombra um
pouco mais escura do que o seu autor, duplo enquanto personagem que
vive na literatura de Mário de Andrade e duplo que prossegue
sua vida autônoma de personagem inscrita na constelação,
reconstruída por Cardozo. Reconstrução que investe
numa superposição e aglutinação de formas
de contar, expandindo e configurando um delicado diálogo intertextual.
Entre baforadas de seu cigarro
e um grande peido, Macunaíma aproveita a liberdade que não
desfruta entre as estrelas para contar histórias de estadistas
nordestinos empenhados em seus projetos mirabolantes que, contrariando
seus discursos, desperdiçam o dinheiro público. Uma das
revelações macunaímicas critica o interventor Agamenon
Magalhães e o seu governo estadonovista.
Não se trata apenas de
uma vingança de Cardozo contra aquele que o expulsou de sua terra,
mas de uma severa crítica aos governos autoritários que
desviam os objetivos e as funções dos projetos destinados
ao bem-estar social do povo para satisfazer a ganância de indivíduos
ou grupos das classes dominantes, que só atuam em seu próprio
benefício e que, mascarados com discursos ditos modernos e competentes,
expressam a estreiteza de visão e a ausência profunda de
modernidade.
Marechal, boi de carro é
o ponto máximo do processo de antropomorfização
que ocorre paulatinamente nos Bumbas criados por Cardozo: todas as personagens
são humanas, mais cruas, mais fincadas no chão, mais melancólicas,
porém sem abrir mão da ironia afiada, da crítica
radical ao autoritarismo e às contradições socioculturais
brasileiras, aliás, presentes no conjunto das personagens dos
três Bois, obedecendo às características estilísticas
de cada um deles.
Os fragmentos dos Bumbas transfigurados
pela poética cardoziana, além de testemunhos de uma sociedade,
produzem a articulação e o equilíbrio entre texto
teatral e imagem; entre linguagem visual e escrita, o que aponta para
uma busca antecipada de um teatro que será referência dos
anos 90 do século XX. Porém, esse modo singular de manipular
os materiais artísticos, essa forma e esse estilo, resultantes
dessa manipulação, é o que faz o homem Joaquim
Cardozo. É a sua propriedade e a sua espiritualidade, para usar
a justa expressão de Karl Marx. Propriedade que é seu
chão maduro, remoto, futuro, onde a tradição se
faz aberta à atualidade. Solo de onde brota seu teatro, acima
e além dos “ismos”, do pitoresco, desconstruindo
e reinventando o folclore, transfigurando-o em escrita para a cena e
retirando dessa região, que os homens construíram como
injusta e sombria, substâncias de universalidade.
Este Bumba de morte desvela muitas
outras mortes, ou deixa entre a vida e a morte, no plano ficcional,
um sistema patriarcal que começara a ruir, pelo menos nos seus
modelos mais ortodoxos, aureolado por um encanto que precede a chegada
da usina. A locomotiva não põe fim apenas ao boi, mas
desvia a onipresença e o culto antes dedicado, exclusivamente,
ao velho senhor de engenho. A modernidade veio senão retirar,
diminuir o poder do antigo senhor de grandes latifúndios, coisas,
pessoas e almas.
Em oposição aos
Bois que sempre terminam em festa e regozijo, este Bumba finda numa
dolorosa despedida. A cerimônia fúnebre que era dedicada
apenas ao boi alarga-se para o próprio Bumba-meu-Boi, no solitário
e perdido aboio de Mateus.
Transcendendo a canção
e a cerimônia do adeus, as reiterações misturadas
aos tristes versos de Mateus, expõem uma ânsia de liberdade
do território e do ser vivente: minha terra / seus cercados /
nunca mais.
Ao compor o Pastoril Os anjos
e os demônios de Deus (4), Cardozo utiliza o mesmo procedimento
usado quando da composição dos seus Bois: dilata a manifestação
folclórica e a insere na tradição do texto teatral
escrito. Em sua operação transfiguradora, o autor vai
buscar também inspiração na obra renascentista
Città di vita, de Matteo Palmieri (1406-1475), espécie
de tratado místico-utopista, que concebe uma cidade ideal e perfeita
em que os homens permanecem neutros na luta entre o Criador e Lúcifer.
Cardozo estrutura a peça
em 12 jornadas, cada uma com seu respectivo título, seguindo
a trilha antiilusionista do teatro épico, em especial o épico
moderno, orientação constante em toda a sua dramaturgia.
As pastoras louvam, por meio de suas cantigas, as maravilhas do planeta
terra, da abertura ao fechamento do Pastoril e, no desenvolvimento das
jornadas, narram desde o primeiro anúncio da vinda do Messias
até a fuga de Maria e José para o Egito, protegendo o
filho da morte. Entremeando as cantigas, os anjos e os demônios
discutem os planos de Deus para salvar a humanidade.
É curioso atentar para
alguns dos recursos épicos utilizados por Cardozo. Nesta peça
não existe luta entre anjos e demônios. Mesmo estando ambos
em cena, eles nunca se tocam, nunca se vêem, nunca dialogam concretamente.
Concebidos como luz e sombra, se fosse possível o contacto entre
eles, ambos se anulariam. Os demônios, qual superego dos anjos,
encarnam a suspeição permanente, a denúncia corrosiva
da desmedida ambição humana e dos projetos malogrados
do Criador. Em verdade, anjos e demônios dialogam conosco, leitores/espectadores,
numa batalha verbal de idéias, argumentos e contra-argumentos,
diante de nosso silêncio de escuta, de mirada, de mudez, apenas
quebrado, talvez, pelas alegres cantigas e danças de esperança
que irrompem a cada entrada colorida das pastorinhas, encantadoras feiticeiras,
vibrando seus pandeiros no espaço: campo magnético dos
seus corpos.
Na mais otimista peça teatral
cardoziana, os anjos equivalem a conceitos de luz decomposta pelo prisma:
cores que sintetizam todo o espectro das radiações visíveis.
Já os demônios são análogos ao conceito de
luz referente à escala de valor, expressa nos pigmentos, que
vai do cinza quase negro ao branco absoluto. Juntos, anjos e demônios
propiciam a revelação das formas, dos volumes, das variações
cromáticas, enfim, das conformações da face de
Deus e das massas humanas divididas em bandos, em classes, em vontades:
muitos e poucos, ricos e pobres, dominadores e dominados, fortes e fracos,
cordão azul e cordão vermelho...
Ao manipular a manifestação
terrena do Pastoril, transfigurando-a poeticamente numa esfera teológica,
não estará o autor usando um pretexto para dar prosseguimento
e desenvolver mais e mais os temas fundantes de sua dramaturgia? Prefiro
que o leitor vá construindo a resposta a cada página percorrida.
Porém, não posso deixar de reafirmar que a poética
teatral de Cardozo toma partido, abertamente, pelos pequenos, pelos
deserdados, pela “pobre gente que nunca participa dos grandes
acontecimentos nas maiores cidades”. Não posso também
deixar de anunciar que toda dramaturgia cardoziana critica a cultura
dividida entre pobres ignorantes e ricos sábios; desnuda a sociedade
desigual; zomba dos ilustres representantes do Poder e suas estreitas
visões de mundo. A dramaturgia aqui reunida é radicalmente
contra a infelicidade humana causada pela hostilidade, pelo orgulho,
pela mentira, pelos projetos salvacionistas. Menos religiosa e mais
ecológica, Os anjos e os demônios de Deus é a obra
dramática de Cardozo que trata do amor por excelência.
É, outrossim, a peça mais “Diana” –
rainha dos contrastes –, a mais angelical e diabólica,
na qual Lúcifer triunfa em toda a sua glória: Sou Lúcife,
o que conduz a luz, / não sou inimigo de Deus como inventaram
/ os que conhecem as nossas vidas, / apenas deixei de ser o anjo preferido.
Que o leitor penetre e perpasse
cada jornada deste texto, não apenas se deleitando com a beleza
dos versos e do grande poema que ele é, mas, especialmente, descobrindo
um projeto estético-ideológico singular e relevante da
moderna dramaturgia brasileira. Que o leitor possa, precipuamente, imaginar
os anjos, os demônios, as pastoras e o velho Bedegüeba como
personagens e textos em carne e osso; vivos, em movimento e ação,
sob as sombras e as luzes configuradoras de um teatro que teima em denunciar
a luta desesperada dos homens pelo Poder, a provocar o massacre de populações
inteiras. Um teatro que insiste, ao mesmo tempo, em renovar as esperanças
ou utopias numa terra mais justa, sem escamotear as contradições,
sobretudo sociais e políticas, que revelam a fealdade e a formosura
da vida.
O capataz de Salema e Antônio
Conselheiro, ambas publicadas em 1975, pela Livraria Agir Editora, embora
a primeira tenha se anunciado, em fragmentos, nos livros de poesia Signo
estrelado (1960) e Poesias completas (1971), são duas sementes,
aparentemente antagônicas, abrindo-se em estalidos, a nos dizer
em sua germinação: política e sociedade, privado
e público, mito e história, unidade e diversidade, pouco
e muito, o subalterno e o opressor, derrota e derrota. Nestes textos
uma semente nega o amor promissor; a outra brada a infelicidade promovida
pela perversa ignorância dos donos do poder e seus asseclas: Donos,
donos, donos dos sobejos da morte / donos da carne e da carniça.
Afastando-se da forma dos espetáculos
populares com a qual arquitetou seus Bumbas e seu Pastoril, Cardozo
mantém em seus textos a luta infindável dos subalternos
em busca de uma atitude na qual prevaleça um pensamento independente
e uma conquista de liberdade, ou seja, ele persiste em colocar os errantes
e desvalidos na vanguarda dos seus textos teatrais, protagonizando suas
histórias, fazendo-os emergir, ainda que mortos, dos escombros
de suas derrotas. Essa luta dos deserdados, filtrada pela voz do poeta,
não poupa nada, não poupa ninguém. Nem a vida,
nem a morte, nem as sedutoras promessas do amor.
Em O Capataz de Salema o conflito
irresolvido (a paixão de um homem que manda e vigia pescadores
por uma jovem filha de pescadores) é estabelecido por quatro
personagens antagônicas: Sinhá Ricarda, velha mãe
de pescadores, no fim dos seus dias; Luzia, jovem neta de Sinhá
Ricarda; o Capataz, apenas nomeado pela sua condição,
e o Mar, personagem sonora antiilusionista, como um concerto concretista,
um emaranhado de sons presente em todo o desenrolar da ação.
As personagens são profundamente
marcadas pelas diferenças sociais (masculino-feminino, comandante-comandado,
diferentes níveis de pobreza) que as identificam e as oprimem,
e as forças dos elementos que as dominam (a terra, a água,
o fogo, o vento). A terra (fêmea), que tudo germina, e o mar (macho),
que tudo oferece e tudo devora, entabulam uma aproximação
que possui a mesma pulsação das ondas sobre a areia da
praia. Toda a cadência do texto expressa essa imagem. Nela, a
natureza, a cultura, as oposições, a sorte ruim, se atritam
em face do mito que engendra e devora seus filhos.
Cardozo, com O Capataz de Salema,
alcança o maior grau de concisão dramatúrgica.
É a peça de menor extensão de sua obra dramática;
com menor número de personagens; em um único ato e desenrolada
num único espaço (o casebre de Sinhá Ricarda).
Para recriar a saga de Canudos,
Joaquim Cardozo escreve Antônio Conselheiro, estruturando-a em
dois atos e dez quadros. Texto de alta complexidade, tanto do ponto
de vista do tratamento dado ao assunto como da engrenagem formal que
ele elabora por meio da transfiguração poética.
A partir da matriz de Euclides
da Cunha, Cardozo amplia e aprofunda a problemática histórica,
política, social e religiosa de Canudos, criando uma territorialidade
dramática de reverberações universais poucas vezes
alcançadas no texto teatral brasileiro.
Usando todos os recursos técnicos
e artísticos do teatro contemporâneo, o dramaturgo desconstrói
a história, fazendo com que passado, presente e futuro se aglutinem
dialeticamente na cena, num desafio crítico perturbador.
Os dois textos, épicos
contemporâneos, que hoje vêm aos olhos e à imaginação
dos leitores são dois pólos formais distintos, cujo conteúdo
se expande de um mesmo vórtice de imagens e contra-imagens características
da singular obra dramática cardoziana. Nestes textos, como em
toda a sua dramaturgia, o autor não se furta em experimentar
linhas, formas, volumes, cores, sons, numa grande sinfonia tanática
de palavras para a cena nova que constrói. Neles, ainda, revela-se
mais apurada a sua visão de artífice imaginário
da cena e do teatro, mesmo sem tê-lo praticado na rua ou no tablado.
Suas proposições modernas de teatro híbrido, épico,
político, social, sem proselitismo, mas essencialmente dialético
e sobremaneira poético-teatral, nos faz perceber, por exemplo,
o sonoplasta que transcende poeticamente sua função, conferindo
uma dimensão ousada e atual as suas criações como,
por exemplo, a personagem Mar, sonora, polifônica, invisível
com sua vertiginosa presença em todo O capataz de Salema. Se
o leitor penetrar em toda a sua obra irá descobrir também
o exímio coreógrafo, o lúcido iluminador, o claro
construtor de máscaras e vestimentas, o poeta encenador contemporâneo
a ordenar os ínfimos detalhes de sua encenação.
As indicações cênicas de Antônio Conselheiro
nos fazem reconhecer um Cardozo agindo como um diretor de cinema, em
proveito do teatro, com seus cortes, suas montagens, seus fragmentos,
suas visões panorâmicas contrapondo-se a pequenos detalhes,
suas fusões, seus efeitos.
Enquanto que em O capataz de Salema
prevalecem a quase pétrea imobilidade, o âmbito restrito
e particular, a idéia de que entre os pobres existem aqueles
que dominam outros mais pobres, em Antônio Conselheiro predominam
a multiplicidade, a exuberância de quadros dispostos lado a lado,
como num vagão, como numa feira se dispõem as barracas.
Destaca-se na peça sobre o povo de Canudos a síntese da
carnificina, os desdobramentos da infâmia, as orações,
o deboche bestial das elites “competentes”: historiadores,
sociólogos, jornalistas, clérigos, entre outros, quais
santos nos altares.
O capataz – visitando Luzia
em seu casebre, nas proximidades de Olinda, para declarar sua paixão
através da noite mais escura – é detentor de uma
ampla carga semântica concentrada na palavra Salema: nome de um
belo peixe – em sua coloração esverdeada, plúmbea
e prateada, ornado com um círculo negro –, comedor de outros
peixes e que, entre outras denominações, o chamam mercador.
Seus significados ampliam-se, no contexto da peça, se jogarmos
com os deslocamentos e combinações de suas letras e sílabas:
ele ama e implora que o ame; ele é de sal e de mar; ele é
sela e cela de si mesmo; é figura do além a exsudar, por
amor, seu mel, seu mal, seu lema e sua lama.
A recusa aos grandes discursos
salvacionistas que exaram promessas e uma mal-disfarçada piedade
pelos famintos e desamparados percorre as duas peças. Porém,
o que é conjectura e impossibilidade em O capataz de Salema realiza-se
como amor pleno, num eco inverso em Antônio Conselheiro, espécie
de ultra-som que se consome no quarto quadro do segundo ato, no qual
o diálogo amoroso de João e Maria funde-se com a descrição
didática que ressoa do alto-falante de um Museu de Cabeças
da história: de São João Batista a Antônio
Conselheiro, percorrendo, aos saltos, mas num travelling em câmara
lenta, as cabeças de Cícero, André Chenier, Tiradentes,
Ribas, Lampião e Maria Bonita.
No Capataz de Salema, o Mar, para
além do mito que ele representa, é fonte de toda riqueza
e beleza daquele universo enfocado. Porém, é também
e antes de tudo, o campo de trabalho, de batalha cotidiana pela sobrevivência.
Se o mar oferece aos homens tantas dádivas, é, na opinião
da endurecida Luzia, de onde Vem a miséria, é a morte
/ A fome dos pescadores / Que capatazes não são... / Que
sofrem tempos sem conta / Sem de ninguém proteção.
Em Antônio Conselheiro,
Cardozo transfigura a matriz inicial, isto é, toma o discurso
de Euclides da Cunha e age como um matemático experimentando
com a geometria das transformações ou deformações,
denominada topologia. Assim como procede com seus Bois, realizando uma
espécie de “desfolclorização” crescente,
o mesmo ocorre com a peça sobre Canudos. O poeta desestabiliza
a história oficializada, critica a visão de Euclides da
Cunha, inclusive colocando-o, implicitamente, entre os mascarados do
segundo quadro do segundo ato – Destruição de Canudos.
Contrapõe-se também às análises estreitas
sobre aquele mundo e o que dele fizeram: ao fim e ao cabo, inundaram
as ruínas com uma obra contra as secas, que apenas cristaliza
a tentativa estúpida dos homens de salvar os outros da miséria,
explorando-os indefinidamente. Em Cardozo, Canudos não é
uma ilha, mas apenas um centro dialogando com muitos centros; o povo
em volta da fé e do ideal do Conselheiro não é
uma comunidade anormal; o Antônio não é um líder
messiânico; Canudos não é também um movimento
milenarista à semelhança do sebastianismo.
A impossibilidade da convivência
amorosa do Capataz com Luzia, a inadequação de forças
contrárias, a união do homem e da mulher produzem, igualmente,
um significado subjacente: o inconformismo de Luzia, sua não
aceitação do imobilismo, seu descrédito nas inúteis
promessas de uma vida melhor, feitas por quem explora o trabalho dos
outros, por quem manda e oprime.
O último quadro de Antônio
Conselheiro aponta para o fim a que se destinam todas as lutas, os desejos
e a ganância dos homens no âmbito das sociedades capitalistas:
a condição de mercadoria. E é nesse explícito
e consciente protesto que Cardozo enquadra e finaliza a sua versão
poética daquela resistência e daquele genocídio,
não apenas da história brasileira, mas da história
mundial. A conclusão da peça é a liquidação
do mundo. O tudo e o nada são postos à venda: vala comum,
vingança, glórias perdidas, ambições, o
conhecimento, a ilusão, os pais desempregados, os soldados, os
exércitos, teorias científicas e a água. A água
salgada e triste do mar: o açude de Canudos.
Na peça do amor impossível
entre um homem e uma mulher, tudo finda em direções opostas
e o que resta é um corpo crepitando em chamas, como num ritual
fúnebre indiano, à beira das águas, feito um farol,
um luzeiro, uma coivara para guiar os mortos de fome e de mar. Na peça
que transfigura a rebelião dos conselheiristas contra os que
abominam a organização coletiva de gente simples, construindo
seu mundo de esperanças; contra os políticos que têm
horror ao odor do comum que exale das massas, tudo finda em comércio
de escombros, em água salgada pelo sangue das mães e da
infância da pátria. Sal que, se não permanece ardendo
na consciência dos homens, corrói qual ferrugem de séculos
a História do Brasil.
Joaquim Cardozo oferece aos leitores,
atores e encenadores, únicos agentes possíveis de atualização
do texto teatral, uma obra sempre nova e provocante, porque prenhe de
modernidade não apenas na escritura do texto, mas na rica escritura
imaginária da encenação. Uma obra cuja propriedade
é seu chão maduro, remoto, futuro; em que a tradição
se faz aberta à contemporaneidade. Seu teatro brota desse solo,
acima e além do exótico, do pitoresco; desconstrói
e reinventa o folclore do Nordeste que, transfigurado por sua radicalidade
poética, destina-se primordialmente ao palco, no qual renasce
um discurso dialético de dimensões cósmicas pelos
sem-terra, pelos que caminham nos descaminhos, pelos auto-exilados e
marcados pela mancha do país natal, como ele, que, se não
são totalmente excluídos, eliminados do imaginário
estético e sociocultural, ou da vida mesma, dormem entre dois
mundos, na sombra bem escura da história.
(1) CASCUDO, Luis da
Câmara. Literatura oral no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1984, p. 421-433.
(2) CARDOZO, Joaquim.
De uma noite de festa. Rio de Janeiro: Agir, 1971.
(3) A garrafa de Klein
é uma imaginação topológica que consiste
numa garrafa sem interior, cujo gargalo dobra-se sobre si mesmo, penetrando
lateralmente no bojo, sem perda de material, projetando-se na base da
mesma. A garrafa, portanto, possui apenas uma superfície: a externa.
Foi imaginada pelo matemático alemão Felix Klein (1849-1925),
seguindo a operação topológica da fita de Möbius,
aquela que possui apenas uma face.
(4) CARDOZO, Joaquim.
Os anjos e os demônios de Deus. Rio de Janeiro: DIAGRAPHIS, 1973.
JOÃO DENYS DE ARAÚJO é design, dramaturgo, encenador,
professor, escritor, pesquisador e diretor de teatro.