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No Tempo Frágil das Horas

por Lourival Holanda

 

                                      Quantas coisas fraternas poderíamos dizer um ao outro e em seguida já não tanto fraternas, nossos corpos libertos do tempo frágil das horas, vivendo talvez numa dimensão em que só o amor marcasse o fluir da vida e nos inserisse na eternidade, num puro não-tempo. (Luzilá Gonçalves Ferreira).

O romance em mão magistral

Luzilá Gonçalves Ferreira, já  consagrada, seja pelo reconhecimento nacional que lhe deu a 4a Bienal, seja pelo Prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 1992, é uma das autoras mais originais da literatura contemporânea. Agora vem com um novo romance  -- No Tempo Frágil das Horas (Ed.Rocco.SP/2003) -- responder a uma expectativa: seu público leitor a aguarda; ela se vê instada a corresponder, num jogo amoroso, ao prazer do leitor atento. Desde Muito além do Corpo (Ed Scipione SP/ 1988), esse leitor, então surpreso pela densidade do texto intimista de um tecido escritural mais espesso que longo, passou a esperar sempre, essa escritura elegante, cuidadosa. E Luzilá, nos romances posteriores, com marcado empenho em recompor vidas e valores sociais, ombreava com os melhores momentos de uma Raquel de Queiroz – sendo, no entanto, outro o tempo, é outra a proposta de escritura aqui.

Depois, vieram romances de recuperação das vozes femininas silenciadas pela história oficial. Em A Garça Mal Ferida (Ed Nova Presença, Recife/2002), Luzilá recompõe os suspiros e sussurros de entre dentes de Anna Paes D´Altro, a valente senhora do Engenho de Casa Forte, na época da presença holandesa em Pernambuco. A freqüentação dos Arquivos Públicos deu ensejo a romancear as modulações virtuais de Filipa Raposa, casada com Bento Teixeira, no século XVI, esse dilacerado primeiro intelectual brasileiro.  No entanto, dando provas de sua versatilidade e presença no nosso mundo imediato, esse que traz tatuado em si os traumas de recente má memória, Luzilá compõe um romance como uma sinfonia patética sobre os escombros das ditaduras militares, entre Brasil e Argentina (a estupidez mudando só de sotaque) : o escândalo do amor num mundo feroz, em Voltar a Palermo (Rocco, SP/2002).
 

1. O tema do tempo

Agora, No Tempo Frágil das Horas, Luzilá prossegue, com honestidade de pesquisa e generosidade de visão, no cuidado em reconstituir a história de Antonia Carneiro da Cunha.

Os sentimentos contraditórios da menina instada a estar madura num leito nupcial insólito: prometida ao tio Manoel Joaquim, a mãe traz o cuidado em não dispersar, unindo-a a nome alheio, os bens de família. Maria Archangela é dessas matronas fortes, não raras entre os Carneiro da Cunha e os Lins de Albuquerque – que souberam guardar por muito tempo o nome como um patrimônio, entre parentes próximos e prósperos cúmplices, com o sacrifício embora da vida de  desejos e anseios silenciados.

Mais velho, e irmão predileto da mãe, esse tio-marido lhe será duplamente familiar, pela convivência que mais amiúde consolida laços de sangue e sentimentos, sufocando o erotismo em conformação – coisa comum, na deformação que constituiu as famílias patriarcais, no mais das vezes.

Todo projeto de vida traduz o modo como concebemos o tempo. A estrutura social estreitava essas mulheres – isso tornava algumas tão intensas. Naquele momento um nome é um corpo: Antonia diz trazer o Engenho Monjope em seu sangue. O leitor deve lembrar a queixa de Julieta: O que existe num nome? Mas aquele é ainda um tempo rude que crê que o sobrenome de alguém, aquele pelo qual seus descendentes o prendem, faz partedo seu corpo. E isso lhes envenena o curso da vida. Hoje, pensamos no nome como um elo de ligação, não um laço. O espaço que marca a passagem, a transmissão dos ancestrais. Uma passagem: mas o que é uma origem se formos obrigados a ficar presos nela?

Daí o drama de muitas mulheres. Vivendo enclausuradas pelas convenções, ensimesmadas, como em moradas muradas: carregam uma inútil esperança no coração (que um horizonte masculino mede e delimita), como carregam o desejo preso ao corpo por espartilhos apertados. Reger um nome é, ali, naquele momento cultural, não menos difícil que reger as batidas do coração. Nome é sangue, e requer siso. Sobretudo coragem: um marido é muitas vezes, um peso preso ao pescoço.

Algumas seguem o impulso de Romeu: Chama-me apenas Amor e estarei rebatizado. (Shakespeare). Maria Amália, a baronesa de Vera Cruz, o soube – ela que carregou seu nome contra as ressurgências surdas de seu corpo indômito.

Romance histórico ou, mais propriamente um real romanceado? Há, de fato, diferença de natureza e gênero – ou tão somente leve questão de gradação, no registro da memória social? Os registros se avizinham pela habilidade da narração em valorizar a variação das vozes cujos sussurros surgem dos dormidos Arquivos Públicos (Luzilá é pesquisadora e membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco). O efeito de distanciamento requerido antes, para o registro histórico, agora se vê revertido em aproximação, com relação à realidade contemporânea. Luzilá cria um jogo de projeção e identificação – que é sua marca do empenho com que traduz a responsabilidade do pesquisador com a memória de que é guardião. Literatura é uma reserva de significados sociais.

O retrato patético, tocante, de Antonia Carneiro da Cunha recolhe a retórica das relações sociais do século 19, os traços emblemáticos de um mundo social, com seu sistema simbólico, as regras que presidiam as trocas, os mecanismos de preservação dos bens, as crenças surdas em valores de sangue, tudo captado pela ousada plasticidade da narradora que vai não só transpor o material encontrado entre parentes e arquivos,  como vai magnificar os últimos sobressaltos dessas vidas que o ritmo atual correria o risco de abafar.

A narração recupera as simpatias abolicionistas de Antonia, desde o verdor de sua vitalidade, ocultando mal já, um fermento de simpatia de independência de espírito, de revolta contra as convenções (menos que convicções) políticas de sua mãe, demasiado presa às estruturas sócio-econômicas.

A acolhida já às idéias republicanas inquieta a mãe: Que pode haver de mais grave que a vergonha da escravidão no país?
-- Fala baixo, filha – fez Maria Archangela. – Que ninguém te ouça. Sabes que esses abolicionistas escondem, detrás de sua bandeira, outra maior: a da República. (p.41).  Muitos dos mecanismos políticos e econômicos preparavam o advento da modernidade política. Aquela era uma geração-dobradiça: findava um mundo e acelerava a chegada de outro, abria a porta às idéias hoje correntes. Mas Antonia Carneiro da Cunha, mais que Maria Amália, ainda se debate nas armadilhas da vida familiar e das restrições sociais.

A matrona da família, Maria Archangela, repete os chavões de então: Os negros não têm sentimento. Nas discussões políticas daquele momento, projetam sobre os negros, seus temores. Negros não têm afeição, não são gente como nós.  (p.31.).  São idéias que Varhagen, teórico da Monarquia, entre outros, fazem circulam. A nota insólita dos escravos  tocando Vivaldi, mais parecendo uma página do Concerto barroco, Alejo Carpentier, é um detalhe histórico desconcertante e significativo.

Assim Luzilá compõe a arquitetura complexa de um tempo nem tão remoto, mas já tão diverso. Ela tenta recompor, para o leitor atual, a música moral de um tempo. E aqui, as relações harmônicas contam mais que as notas, as datações. Porque no espírito da cultura as coisas duram segundo um outro ritmo.

Os impasses políticos aparecem – sem ser um entrave ao leitor mediano. E, enquanto expõe uma vida, impõe uma reflexão sobre os valores dessa herança social que percute ainda hoje, recolocando-a  no contexto que foi o seu. E de onde recuperam seu sentido. O romance de Luzilá tenta restituir essas vozes – condição indispensável para a compreensão e continuidade culturais. Daí a pertinência social do romance: ela mostra a condição humana, em sua banal perenidade. No entanto, através do reconhecimento dela, uma sociedade aumenta o conhecimento de si. E a exigência da promoção de um futuro mais humano. Com o acréscimo da beleza, que ficamos devendo a Luzilá, por essa relação mais erótica com a realidade, com maior liberdade de espírito, de corpo, de linguagem. 

Da forma visível ao horizonte do sentido

Luzilá consegue captar muito das vozes que já recuam, como a sombra das coisas. Existências delicadas tecidas entre a ternura do cotidiano e o trágico das ocasiões só sonhadas. ...a minha vida inteira não foi senão isso: a espera do grande amor que nunca se fez. Monjope, janeiro de 1879.

O romance é a arquitetura de reconstrução – ou de restituição – de um mundo, animando traços deixados num arquivo, num álbum onde o tempo consignou seu sentido. Conversação imaginária com uma desconhecida real, onde cada uma se dá a descobrir: um ritmo de escritura que busca a harmonia que rege a cadência de nossas vidas. São diálogos possíveis, virtuais, que nascem do poder evocatório da própria história narrada.

Esses diálogos são, simultaneamente, verdadeiros e fictícios. Luzilá levanta a voz do passado que assim se deixa entreouvir no interior de um labirinto de fantasmas, utopias, sonhos. É tal a coerência das descrições e sua adequação ao tempo que o leitor finda por pensar: é impossível que não tenham sido possível. 

Daí o uso judicioso do tempo condicional que em muitos momentos serve à narradora para dar verossimilhança ao enquadramento de época. Trabalhando dentro dessa restrição, Luzilá vai, passo a passo, conquistando sua liberdade narrativa. Liberdade aqui condicionada aos levantamentos de arquivo.

Impressionam, sobretudo, a dura renúncia às outras dimensões da vida. Certamente ignoramos o que motivava o agir daquelas mulheres. Daí certa atitude de escândalo para a sensibilidade do leitor atual. Impressiona o quanto parecem viver por procuração: Pensou em Manoel Joaquim, em tudo o que não haviam vivido, em seus amores juvenis, lembrou Maria Amália e seu Jean Edmond. Perto do final do romance, a narradora se espanta em ver Anna Alexandrina, tão moça, vivendo apartada de todos, num engenho distante da cidade, Tamataúpe, alma da mata, a escrever poemas, a inscrever assim sua vida possível numa vida sonhada. De onde lhe brotara a necessidade de se dizer?(.130).

As estruturas sociais forjam com o ferro das convenções, um palco onde elas têm, de antemão, um papel a representar. C´était un temps déraisonable, como diz o poeta. Antonia poderia prosseguir: et si je tenais mal mon role, c´était de n´y comprendre rien. Algumas já dão o sinal – que as seguintes transformam em programa. Para ganho de todos, já que a mulher está mais próximo do humano. Basta ver o modo como Luzilá  recompõe a poesia do cotidiano, que o ritmo moderno negligencia: um capinzal que ondula como cabeleira verde, ou o subir das ondas do mar, que vira em Olinda. Um jacarandá, um ipê amarelo – tantos ganhos que perdemos da humilde poesia da vida que permanece. Por mais que as pessoas dissessem lembrar como fora o ano anterior, como era dourado o ipê e roxo o jacarandá, era impossível realizar o quanto de beleza surgia em meio à mata, e como cada árvore era única, a cada primavera. (p.19).

Esse, certamente, um grande mérito do que Luzilá vem escrevendo ultimamente: a restituição das vozes dessas mulheres que, entre a violência, a ironia e a ternura a que aspiravam, dizem, em diversos tons, o desejo permanente de liberdade, de amor, de revolta.

Casa Forte, inícios de 2004

 

LOURIVAL HOLANDA é doutorado em Letras (Língua e Literatura Francesa) pela USP e professor de literatura da UFPE

   
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