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Nelson Saldanha

 

 


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SOB A FRONDE

Tarde. Lento momento sob a fronde
por onde passo olhando as sombras, e onde
se suspendem as horas. Tenso, denso,
o tempo pousa sobre as folhas. Penso
no encanto dessa paz obscura e inglória
que paira sobre os ramos sem memória,
e dura nelas como sombra ociosa,
como vaga umidade penumbrosa,
que é também a que sinto. E quase invento
um nome para o peso do momento
em que o nível da tarde desce, e passo
mais devagar, atento a este compasso:
o tempo adere aos ramos. Vejo então,
ao contemplar as réstias sobre o chão,
que a paz é um corte sobre o tempo, um corte
dado entre linhas lívidas da morte
e os fluxos do viver, que se entretecem
de folhas e refolhos. Entretanto,
digo estas coisas em razão do canto
e por saber que as coisas acontecem.

 

SONETO GRAVE COM ASA LIGEIRA

Para Dirceu Rabelo

Reconstruo o soneto grave e escuro
que em alguma outra noite escreveria.
Nele falava, com discreto apuro,
de sombras, de cristais e de alquimia.

Recordo-o aos pedaços. Nele havia
espaço para máscaras e brumas.
Havia o mar, com lívidas espumas,
surgidas do hábito e da fantasia.

Sonetos se resgatam, se refazem
Refazendo-se o frêmito que trazem:
frêmito e pulsação de asa ligeira.

Retomo as frases ogivais e esquivas.
E nelas reencontro as marcas vivas
de um certo dia, ou de uma vida inteira.

 

 

Fonte:
46 Poetas, Sempre
Organização: Almir Castro Barros
Edições Bagaço
Recife - 2002

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos