Mulheres Cortantes
>> por Micheliny Verunschk

Gravura de Tereza Costa Rego
O mestre do teatro russo, Stanislavski, diz que existem dois tipos de peças. O primeiro tipo é aquele que nos espanta e mobiliza num primeiro momento, mas que, ao chegarmos em casa, esquecemos seu tema e até o seu nome. Por outro lado, diz ele, existem peças tão intrigantes e perturbadoras que nos acompanharão por mais tempo, uma semana, um mês, quem sabe uma vida. Alguns livros são assim, colam-se no leitor, não o largam, incomodam. E é nessa categoria que as filhas de lilith, de Cida Pedrosa, nos encontra.
Poderia falar desse livro como de um livro de poemas. Ou como de uma coletânea de contos, já que trama, enredo e personagens bem cabem nesse gênero. Poderia também falar dele como de um dicionário. Ou como de um martirológio. No entanto, já que se fez desde o início uma referência ao teatro, se o levarmos ao palco, iluminando suas cenas, pontuando com uma atuação impecável seus pequenos grandes dramas, apresentando à platéia sua trilha sonora tensa e dolorida como um moto contínuo, compreenderemos que as filhas de lilith é a soma de tudo isso e mais uma compreensão do feminino e do que é ser mulher.
É um caminho espinhoso o que a autora escolheu. De fato, no século pós-tudo em que vivemos, dar voz e poesia a mulheres à beira do abismo (como são Angélica, Elisa, Khady e Melissa, para citar algumas) parece uma temeridade pois é muito fácil cair no panfletarismo ou na pieguice. E, infelizmente, vive-se ainda tempos em que se rotula a poesia feita por mulheres como “poesia feminina”, como se todos os temas não pertencessem à Poesia, como se, realmente, isso fosse uma questão de gênero, raça, orientação sexual etc. No entanto, Cida faz seu percurso com a segurança de um observador muito bem orientado. Suas mulheres não são, de modo algum, caricaturas, decalques da realidade.
Essas mulheres transpiram. Sangram. Fazem sangrar. Nesse sentido, podemos até chamá-las de mulheres-objeto. Não no sentido usual e depreciativo do termo, mas que à maneira de facas, lâminas, cutelos, essas mulheres cortam e nos aproximam dos nervos e ossos por baixo de toda superfície. Nos aproximam de nós mesmos, homens ou mulheres. Nos aproximam da nossa alma.
MICHELINY VERUNSCHK é escritora. Autora de Geografia Íntima do Deserto e O Observador e o Nada.
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