A BICICLETA
A bicicleta brilhava no deserto.
Dourada, era um bicho.
Magra, buscava as tetas da mãe
quando se perdeu.
A bicicleta e sua solidez de areia,
sua solidão de ferrugem
e seu olho manso e manso.
Tivera umas asas,
esfinge.
Tivera uma voz,
sereia.
Animal mítico,
pedais, semente, umbigo:
pedaço de sol,
um deus enterrado no deserto.
DOR
Subindo pelas narinas
a dor, este verme de arame,
rasteja e pinga ovos
foscos
latejantes.
Seqüestra-me, a dor.
Sabe-me, a vadia.
FLOR
Inaugura outro mar
este pesadelo iniciático
de pintor ensadecido.
Saco de trevas
envolvendo trevas
lousa semovente,
mesa.
As frutas bóiam entre caixotes
e vão arremeter contra os arrecifes
o doce pus.
O vaso
o vitral
ondabalapétala arrebentada,
heráldica irregular,
de feras diversas,
de faca cega pelo sol,
esta jaula.
NOITE
O mar
fareja e fareja
restos de sol sobre a areia.
O mar,
sextina negra,
sextina eterna e negra:
Galatéia.
UM QUADRO
Na cavidade
onde habitaria o olho
o vôo da noite
espreita o sono.
É um labirinto
feito de vazios,
uma galeria de imagens cegas
pelo tempo.
Cuidado,
há anzóis por toda a pálpebra.
O ANJO
O galo aceso
entre as pernas do dia,
cumpre a Anunciação.
Alarde de setas,
escolhe um milagre. |