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Micheliny Verunschk
(1972 Recife/Pernambuco)

 

 


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A BICICLETA

A bicicleta brilhava no deserto.
Dourada, era um bicho.
Magra, buscava as tetas da mãe
quando se perdeu.
A bicicleta e sua solidez de areia,
sua solidão de ferrugem
e seu olho manso e manso.
Tivera umas asas,
esfinge.
Tivera uma voz,
sereia.
Animal mítico,
pedais, semente, umbigo:
pedaço de sol,
um deus enterrado no deserto.

 

DOR

Subindo pelas narinas
a dor, este verme de arame,
rasteja e pinga ovos
foscos
latejantes.

Seqüestra-me, a dor.
Sabe-me, a vadia.

 

FLOR

Inaugura outro mar
este pesadelo iniciático
de pintor ensadecido.

Saco de trevas
envolvendo trevas
lousa semovente,
mesa.

As frutas bóiam entre caixotes
e vão arremeter contra os arrecifes
o doce pus.

O vaso
o vitral
ondabalapétala arrebentada,
heráldica irregular,
de feras diversas,
de faca cega pelo sol,
esta jaula.

 

NOITE

O mar
fareja e fareja
restos de sol sobre a areia.
O mar,
sextina negra,
sextina eterna e negra:
Galatéia.

 

UM QUADRO

Na cavidade
onde habitaria o olho
o vôo da noite
espreita o sono.
É um labirinto
feito de vazios,
uma galeria de imagens cegas
pelo tempo.
Cuidado,
há anzóis por toda a pálpebra.

 

O ANJO

O galo aceso
entre as pernas do dia,
cumpre a Anunciação.
Alarde de setas,
escolhe um milagre.

 

 

Fonte:
Invenção Recife: Coletânea Poética I
2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura/ Fundação de Cultura Cidade do Recife
Organizadores:Delmo Montenegro e Pietro Wagner

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos