A
BICICLETA
Às vezes penso
que comumente não passo
de um jardim municipal
desses desprezados e onde
o namorado com sua bicicleta
conversa a demência
mais divina.
PEIXES
Vesgo este relógio
a cama, teu sapato de cromo
o curso lascivo do tempo
na tua desordem de sono
Ingênuo tornar-se dono
da espada fina que cega
severa e sem manchas
Tua ligação antiga
de preto tinge o medo
tal fosse tua cor
de sorte e irônico segredo.
CURRAL DAS FALAS
Vozes determinam
o riso e o medo,
enferrujam o alvo
reflexo do rosto
morto no espelho
Anúncios e visos
disfarçam na veia
deste paraíso
a fecunda identidade
o falso abrigo
Antes quite
tal um rio
que na margem
aguarda o tempo
seco e preciso
O pensamento inverte
a posição da fala
perverte e sustenta
na surda língua
os lotes da alma
A boca expurga
a submissão entala
povoa a memória
limpa a fronte
de flácidas caras.
BAR DO 28
Estou no porto
vendo o trem passar.
São cinco horas
e o sol está
querendo se pôr.
Saindo da minha
vista, o trem
e o sol cruzam
o reflexo da imagem
que fiz do porto
do Recife.
Estou só no porto
deixando o vento
correr no meu rosto
e seguir a brisa
meu desejo de
ser o trem.
DIÁRIO
O baixo é o sentido
inverso, é o reflexo
absoluto do meu
paradoxo. É minha
imagem adversa...
é a contrariedade
do que me imagino.
É meu limbo
meu estado de graça
indefeso. Baixo é
o poço, é o cume
surpreendentemente
estranho e verdadeiro
do meu ser.
O BISCATEIRO
vendo: louças d'alma
primavera e enigmas
latões de óleo de bagdá
máscaras de veneza
cheiros do capibaribe
autumn vivaldiano
energia nuclear
para coréia e afeganistão
brisas de olinda
perfumes de moças
e vendo-me
a preço módico
O SUSPENSÓRIO DO
POETA
o poeta usa suspensório
ele fica elástico
decifrando versos
o suspensório do poeta
é de multicor xadrez
tem mil olhos
no tórax e pança
ele é elegante e irônico
quando arrisca um palpite
e brinda o ocaso
da sua doce ilusão.
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