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Maurício Mota
(1949 Recife/Pernambuco)

 

 


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A BICICLETA

Às vezes penso
que comumente não passo
de um jardim municipal
desses desprezados e onde
o namorado com sua bicicleta
conversa a demência
mais divina.

 

PEIXES

Vesgo este relógio
a cama, teu sapato de cromo
o curso lascivo do tempo
na tua desordem de sono

Ingênuo tornar-se dono
da espada fina que cega
severa e sem manchas

Tua ligação antiga
de preto tinge o medo
tal fosse tua cor
de sorte e irônico segredo.

 

CURRAL DAS FALAS

Vozes determinam
o riso e o medo,
enferrujam o alvo
reflexo do rosto
morto no espelho

Anúncios e visos
disfarçam na veia
deste paraíso
a fecunda identidade
o falso abrigo

Antes quite
tal um rio
que na margem
aguarda o tempo
seco e preciso

O pensamento inverte
a posição da fala
perverte e sustenta
na surda língua
os lotes da alma

A boca expurga
a submissão entala
povoa a memória
limpa a fronte
de flácidas caras.

 

BAR DO 28

Estou no porto
vendo o trem passar.
São cinco horas
e o sol está
querendo se pôr.
Saindo da minha
vista, o trem
e o sol cruzam
o reflexo da imagem
que fiz do porto
do Recife.
Estou só no porto
deixando o vento
correr no meu rosto
e seguir a brisa
meu desejo de
ser o trem.

 

DIÁRIO

O baixo é o sentido
inverso, é o reflexo
absoluto do meu
paradoxo. É minha
imagem adversa...
é a contrariedade
do que me imagino.
É meu limbo
meu estado de graça
indefeso. Baixo é
o poço, é o cume
surpreendentemente
estranho e verdadeiro
do meu ser.

 

O BISCATEIRO

vendo: louças d'alma
primavera e enigmas
latões de óleo de bagdá
máscaras de veneza
cheiros do capibaribe
autumn vivaldiano
energia nuclear
para coréia e afeganistão
brisas de olinda
perfumes de moças
e vendo-me
a preço módico

 

O SUSPENSÓRIO DO POETA

o poeta usa suspensório
ele fica elástico
decifrando versos
o suspensório do poeta
é de multicor xadrez
tem mil olhos
no tórax e pança
ele é elegante e irônico
quando arrisca um palpite
e brinda o ocaso
da sua doce ilusão.

 

 

Fonte:
Estação Recife
Coletânea Poética III
Recife - 2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura - Fundação de Cultura da Cidade do Recife
Organizadores: Everardo Norões, José Carlos Targino e Pedro Américo de Farias

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos