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Mário Hélio
(1965 Sapé/Paraíba)

 

 


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CABEÇALHO

ergo este tributo às nossas almas
por tudo o que nós fomos no que somos,
na simples humildade do que expomos
- a débil e frágil luz, a lira calma -
à larga vastidão do que é finito,
num grito maior do que a própria voz,
o grifo triunfal, o grito:
nós!

 

MARTE E VÊNUS

doce amiga, apenas sou o aedo
que ignorando que as coisas eram incertas
e que a própria incerteza é mãe da vida,
te procurou como procura um asceta
sua verdade boiando além das mãos pendidas.
te possuí como se tem a um segredo
e depois de o sabermos sabemos não sabê-lo.

 

MENTES DOENTES

essas inquietudes que escapam do meu ser
por tudo o que eu sou sem perceber.
o que eu fui foi alguma vez o hipotétrico,
o que senti sente o que me transformou.
tinhas razão, poeta,
sempre tristíssimas essas cantigas
sempre
gritando coisas que bem
não compreendemos.
tanta coisa!
e o que é real-
mente esse poema? uma parcela... um canto in-
completo...
verdadeiros lampejos... só lampejos...
sempre tristíssimos...
breve ilusão semiacon-
tecida que encanta e arrefece.
um som um sopro e tudo se transporta
pelo trauma que há por trás da porta;
depois a inquietação novamente
o cálice da indecisão...
como uma árvore no regato
esperando que chegue o outono
que as estações se transformem
levando os sonhos dispersos
e no silêncio ensinem
que é necessário matar as lembranças.

 

SOL INCOMPLETO

a manhã
lilases lilases
perdizes e avestruzes
aprisionadas em minha mente
e as marcas dorvalho descoram descrentes
na minha casa o sol é incompleto
o dia cresce na face e a noite nasce
para-
lela-
mente
porque não há escolha
no templo há somente hastes e naves inconseqüentes
as flores não nascem
existem pura e simplesmente
porque não há escolha

a manhã recebeu a angústia
dos primeiros raios que ressecam as folhas

 

AS FEZES DA FESTA

hoje derramamos
o líquido e a lágrima,
amanhã beberemos
o sangue e o suor de sempre.

 

 

Fonte:
Jornal de Poesia

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