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Mariluce Araújo
(1951 Recife/Pernambuco)

 

 


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“SE ESSA RUA FOSSE MINHA”

Se essa rua
se essa rua fosse minha...

Boca de forno!
Forno!
Tirando bolo!
Bolo!

Ah,
eu ainda posso ouvir
os gritos de meus colegas
brincando no meio da rua...

Barra bandeira,
cabra cega
bola de gude
passa o anel...
Eu, cantando, ia à Espanha
pra buscar o meu chapéu...

A gente corria de bicicleta
jogava bola
rodava pião.
A gente brincava de roda
e todo mundo dava a mão.

As ruas de minha cidade
tinham nome de poesia
Rua da Amizade, da Saudade,
da União, você sabe, os poetas
já cantaram, um dia, essa canção.

Rua era lugar pra gente passear
brincar, fazer amigos
cruzar com algum conhecido,
olhar, na vitrine, o vestido
sem ter dinheiro pra comprar
mas com direito a sonhar.

Hoje está tudo diferente
Eu saio às ruas com medo
medo de que apertem o dedo
medo de uma bala perdida
medo de perder a vida...

As crianças que brincavam
na rua jogando bola
agora só cheiram cola
não freqüentam a escola
ninguém há que as oriente
desse jeito,
não há infância que agüente
Deixa de ser a criança
do mundo a esperança
pra roubar e matar gente.

Outro dia um garotinho
abordou-me bem cedinho
com uma arma, disfarçada.
Eu não vi
mesmo assim obedeci
e fiquei muito assustada.
Mas o meu susto maior
foi ouvir a sua voz
de criança em tenra idade
me dizer com total autoridade:
“Passe todo dinheiro
e o celular, ligeiro!

Eu tremia, corpo inteiro
não por causa do dinheiro
mas por causa da inversão:
Eu com medo da criança
assustada, insegura
e ela curtindo a aventura
de se tornar um ladrão.

Por isso é que quando saio
olho desconfiada
pra quem passa na calçada.
Se julgo alguém mal vestido,
penso logo: é bandido!
Isso é muito triste.
É triste demais.
Isso rouba a minha paz.

E quando é uma criança?
Se está mal trajada
corto logo o caminho,
coitada!
Esse é o meu dilema
Esse é o meu conflito
e é por isso que hoje grito:

Se essa rua
se essa rua fosse minha
eu não a mandaria ladrilhar
Não é de ladrilhos que precisamos
nem de pedrinhas preciosas
para o meu amor passar.

Se essa rua
se essa rua fosse minha
eu faria dela inteirinha
um jardim,
um novo Éden.
pra gente recomeçar
Quem sabe vivendo entre flores
a gente aprendesse a amar!

 

 

Fonte:
Poema enviado pela autora

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos