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Marilena de Castro
(1952 Rio de Janeiro)

 

 


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QUEM CHAMA ATRAVÉS DO CORAÇÃO?

 

O que está embaixo é como o que está em cima,
e o que está em cima é como o que  está embaixo.
                                       Hermes Trimesgistro

 

Fez-se luz
e a luz fez a estrela
a estrela o fogo
o fogo transformou  o mar em terra
e da união da terra com o mar surgiram os animais
os  homens
as serpentes.

A espada de fogo
acende o Pentáculo serpentes acasalam
o crescente lunar ilumina
a taça cheia e a preenhe flor amarela.

E na taça coube o triângulo
no triângulo a estrela e o crescente
e na taça a flor filha da flor.

Nos altares de pedra
as imagens de anjos imóveis
são dançarinos caídos
e virgens de olhar escuro
precisam de um sopro.

Rezo a presença oculta
com o poder do grande vazio
abro janelas no tempo
entro em outra dimensão
onde vivos e mortos
caminham lado a lado.

Da água que nasce dos olhos da deusa
nasce a vida de anjos e das virgens de pedra.

Preencho meu cálice
ofertando vinho e sangue

A imagem escondida da deusa
reacende em crescentes lunares
pilares de luz e sombra.

Rezo nos altares de pedra
ofertando a carne e o vinho.

Quem chama através do coração?
Fala pelo vazio
Perdoa a acidez do meu hálito
Minha alma pedra sobre pedra do corpo
Sal e enxofre

Quem chama?
Bate a porta da carne
Boca em chamas
terra de sal e enxofre

No ar
cheiro de flor
pedra sobre pedra do corpo
terra
cabelos queimados
útero em chamas

Fala do vazio
Grita no deserto
Chama pelo pulsar do coração.

Luzia olho perdido nos sonhos
nas cores
no abandono
onde está teu espelho?
Luzia no sol
escorrendo entre os dedos
os suores e o tempo

e as bandeiras flutuantes nos varais, Luzia
ou teu nome é Lucia, Luzia?
na areia medes a travessia
da lua
caminhada sem tréguas

ou do tempo da voz ou do grito
nas areias onde o vento chama a chama do silencio
roubando passos
olhos espelhos das sombras
Luzia aonde vai terminar a travessia

ou teu nome é Lucia,
Luzia?

Folhas secas derramadas no chão
registrando o passo
o tempo
no descompasso do batimento
real dimensão da dor.

Falas, pois, da eternidade do silêncio

Deixar num sono,
episódio efêmero,
a vida,
correndo célere nas planícies
em vórtices de energia.

Na caverna o anjo dorme com armas  congeladas.
Rochas desenhadas pela escrita angelical.
Sangram.

São anjos-meninos que descem do morro,
abandonados no asfalto.
Filhos de mães-meninas despidas
Violentadas.

Andam em ruas sujas
Assaltam
Dormem nas praças ou embaixo dos viadutos
Sem olhos
Assexuados
Jogados pela janela
Atropelados por carros
Arrancam corações
Desenterrando os mortos
Sugando almas.

Os anjos rezam em negro
Escondendo suas almas
Incendiando os céus com sacrifícios humanos.
São mensageiros da morte
Iluminam o mal de olhos cegos
Abandonados no asfalto
Com asas sujas de sangue

Portando espadas para o sacrifício da infância.

Escreves nos pergaminhos ou nas pedras
profecias de anjos que engravidam mulheres
nos jornais
jovens que morrem em guerra sem causas.

Fechas os olhos
para ver a macieira do Éden
perdida entre os arranha-céus.

 

 

Fonte:
Poema enviado pela autora

 

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