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Marilda Vasconcelos

 

 


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DÉCIMA LUA

Se uvas,
teus olhos não seriam
azuis de brilho intenso.

Tua pele
ultrapassa pétalas
e essa boca de goiaba em calda
fala linguagem única,
própria, universal.

Pés de ingá maduro
rendem-se, em maciez,
a minúscula mão
que os envolve.

A penugem dourada
brinca de capacete
cresce até a nuca
e as orelhas, mais minhas
que as minhas,
tocam anéis
flexíveis sob o vento.

Rosa-gato,
anjo rasteiro,
passa explodindo impulsos,
arrancando afetos.

Curvo-me, sacio
a fome dos meus braços,
do meu colo.

Se há em mim
brilho de silêncio,
que seja em ti depositado.

 

FILHOS DO HOMEM

Em compasso de esperança
somos tragédia
cercados de Infinito.

Partículas de vida somos
em definidos projetos
vazados por incerteza.
Em planos arquitetados
entregues ao dia e à noite,
à sucessão dos espaços
em frágeis ritos solenes.

Com ares de permanência,
dirigem-se nossos planos
a futuros milenares.

Pretensão de eternidade
embasa nossas ações
e nossa fragilidade.
Rebelam-se nossos egos,
desconhecem a finitude,
criando vigas de aço
que enfrentam fogo e mar.

Mas afogados morremos
e as chamas nos apavoram.

Daí construirmos balsas
e extintores de incêndio
que nada nos asseguram,
tragados por ondas frias,
desfeitos por chama e brasa.

Sim,
somos filhos da esperança,
cercados de transcendência.

 

 

Fonte:
Retratos - A Poesia Feminina Contemporânea em Pernambuco
Organizadora: Elizabeth Siqueira
Recife 2005

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos