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Maria do Carmo Pereira
(1954 Cafelândia/São Paulo)

 

 


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DESQUERER

R a r e a v a m

a doçura
a mesura
a tremura

R a r e a v a m

seus ardores
seus tremores
seus rubores

R a r e a v a m

as risadas
reloucadas
rebrotadas

R a r e a v a m

cada encontro
que reconto
neste pranto
e me amedronto

 

ESPASMOS

a porta fechara-se
meus lábios atônitos
retinham a respiração que
do peito aquele frio
fracasso
removia seus restos de amor

a porta fechara-se
meus olhos mudos
seguiam aqueles finos fiapos
de sóis
a sós
suspensos entre a poeira do reboco
e o sangue quente da memória

a porta fechara-se
meus ouvidos calados
exalavam a dor trôpega
da sua ausência
até que enrodilhei-me no tempo
à espera do meu abismo

a porta fechara-se
meu corpo sedento do seu
esvaiu-se nas mandíbulas do desejo
onde vozes distantes expiram
como um porto se afastando

 

GUERREIRA

(À Cida poeta)

Nem o delírio
de dentes rangendo na alma
Nem sua luta insana
acalma o martírio
do tempo escorrendo nas curvas
turvas de seu olhar.

O verso liberta,
espalma,
exorciza das entranhas
um mudo urro estelar.

 

METEOROS DO TEMPO

Num desassossego de cometas milenares,
o presságio.

Nos segredos de átomos divisíveis,
a aflição.

Nas bocas desdentadas da luz,
o lamento.

No urro de estrelas desintegradas,
a dor.

Nas faces desfiguradas da lua,
o pranto.

Nas pegadas da poeira cósmica,
a solidão.

Nos olhos do abismo sideral,
o desejo.

Na cópula incestuosa dos eclipses,
a culpa.

No reverso do tempo senil,
o pesar.

No cardume de estrelas cadentes,
a esperança.

Na neblina de meteoros errantes,
o encontro.

Nos estilhaços incandescentes da alma,
a paixão.

Numa partitura de sóis nascentes,
canto o amor.

 

NASCE UM POEMA

o cérebro trabalha
num frenesi borbulhante
de idéias imagens sons

a mão embaralha
num mosaico exasperante
de signos ritmos tons

o poema entalha a angústia
do incauto à procura do dom

 

PALAVRAS PODEM SER ARMAS

num escaninho
a memória obscena
feito filho abortado
sussura segredos sem medo
e ela
navalha afiada
me talha
estraçalha
me
cala

 

QUEBRANTO

  danço
           enquanto
                         canto
                                 este acalanto
                                                    canto
                                        enquanto
                             espanto
          o desencanto
espanto
         enquanto
                      santo
                              este meu pranto
 

 

SOBRAS NA ALMA

respingos de sangue
farelos
pétalas nervosas
folhas secas

farfalham

num sopro de raiva
minha carne desgarrada
se apega às bitucas do tempo

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

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