VOLTAR À PÁGINA INICIAL

 

Maria de Lourdes Hortas
(1940 São Vicente da Beira/Portugal)

 

 


A
B C D E F G H I J K L M

N O P Q R S T U V W X Y Z

 

 

CIRANDA

Em todas as casas te procuro, Casa onde habitou a infância hora luminosa e matinal em que o galo canta e o sino toca punhados de granizo tamborilando no telhado e a silente carícia da neve pousando nos peitoris.

Em todas as casas te procuro, Casa: beirais de pombas escadas de granito, vento de inverno uivando pelas frestas madrugadas de susto em que os foguetes te sacudiam, branca e recatada abadessa à esquina da rua do Convento fazendo abanar os caixilhos das vidraças das janelas onde mais tarde se desfraldavam as colchas de damasco para as procissões de ver passar os anjos, eu entre eles.

Em todas as praças te procuro, praça das cirandas
Praça do Pelourinho com a barca, o pássaro, o escudo real primeiras interrogações ao mistério do capitel.

Em todos os navios te navego, Ribeira a fluir prateada
sob o arco do tempo para esfolhar-se na roda do moinho dentro da primavera de malmequeres quando me sentava à tua beira mordendo a cor vermelha das cerejas.

Em todas as paisagens te procuro, aquarela de centeio e oliveiras, pinhais agrestes, ramos de giestas
urzes, amoras, muros velhos de musgo e heras antigas.

Em cada pôr-do-sol ardente vos espero cegonhas de vôo lento e branco hóspedes de verão na torre da igreja.

Em cada chafariz te procuro, Fonte explosão da vida líquidas estrelas de cristal recolhidas em meu cantarinho de zinco.

Longe ficou o mundo em que a única ameaça era os ciganos seu rufar de bombos acompanhando a evolução dos acrobatas no trapézio suspense anunciando os capítulos da história em que seria eu a trapezista.

São Vicente, único país riscado a sangue no mapa
das minhas lembranças tantas ruas atravessei no mundo porém as únicas que me atravessam são as tuas aldeia encravada nas serras do meu coração:
ruas de São Vicente onde minha infância passou correndo com as tranças se desmanchando ao vento
andorinhas emigrando sem retorno.

 

PEQUENOS ANÚNCIOS

1. Perdeu-se uma alegria:
impossível precisar o instante
e muito menos o ano, o mês ou dia.
gratifica-se a quem a devolver
mesmo danificada:
é bem melhor meia alegria
do que nada.

2. Foi roubada a lua
da noite da minha rua:
implora-se ao ladrão
que a devolva
em mãos.

 

PAISAGEM DILUÍDA

Foi tão comprido o túnel da noite
e o trem do dia
Entrou com atraso na estação.
Adormeci num banco ao relento
para esperar-te.
Um molho de violetas exaustas
Expirou entre os meus dedos.

 

AQUARELA

Um pássaro veio
pousou no peitoril da varanda
e depois saltou para a haste de uma avenca
onde brincou com o meu deslumbramento.
Na casa
a beleza maior é haver espaço
para a visita gratuita deste pássaro
vôo dentro do vôo da vida.

 

ALEGRIA

Outra vez amanheço.
Ao mistério que me criou
outra vez respondo: estou presente.
Por um instante
um afago de sol
atravessa a cumeeira da casa
e me abençoa.

 

FESTIM

Convidar a tristeza
esperar que se instale
permitindo que aflore
das funduras mais fundas
onde a gente se esconde.
Entornar a tristeza
sobre o linho da mesa
numa festa de versos.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos