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Maria da Paz Ribeiro Dantas
(1940 Esperança/Paraíba)

 

 


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Natividade

Liberta o grito
sepultado sob escombros
de papel laminado
                             fitas
                             flores

Liberta o corpo
da alegria desnuda
Sob luzes e sons
descobre o olhar
                             age
                             hoje
         
Liberta a mão
misto de garra e pétala
a mão sem luva
transitando entre
                             o tijolo e
                             a canção.
         
Liberta o diAmante
ele se chama
recém nascido
         
da palha.
       

O CANTO DO GALO

Lança o galo
rompantes sonoros
intermitentes jatos
da garganta de bronze
agressivos
coágulos
de um metal sonoro
fundido
em canto trabalhado.

 

INCONSCIENTE CÓSMICO

Muito depois
da Terra
na idade dos tempos
findos
resistindo ainda
a mancha
da lua.

 

MARINHA

Para uma aquarela de Nazareno Petrúcio

Do mar em lâmina
ferina e astral
sangra a dimensão
horizontal.

Meu olhar lavado
em assombro e luz
percorre esta ausência
de tempestade.

Não há norte ou sul
por onde escapar
ao chamado azul
deste navegar.

Marco meu começo
nesta direção
fundo um endereço
na solidão.

 

O MAR ÀS PORTAS

Estar aqui é como entrar no Tempo,
regressar ao seu ventre.

O mar é som
me devolve ao espaço em que me sonho
dançarina em seus prados de azulejo.

Em mim o vejo
no átimo em que ao abrir a porta
em meu olhar ancorou, relâmpago
inesperado espanto.

 

O POETA E A LINGUAGEM

Por te querer, tropeço e me desvio
das rotas consentidas,
afundo em tuas águas de amavios,
caprichosa armadilha.

Urdindo a sedução de estranhas pistas,
além dessas areias,
perversamente, assim, sem que eu resista,
me atrais para as sereias.

Quem escapa às insídias desse jogo
de entrega e de esquivança
que lega a quem te quer prazer e logro?

Sinuosa, que foges dos amplexos,
tu vives da vingança
de rebentar os laços e outros nexos.

 

SONETO ZEN

Entre o alimento e a fome
invento-me os talheres.
À mesa me encontro
sentada em face de mim.

A fome se agasalha
nos pratos, forra o chão.
Aos convivas eu dou-me
as cores das frutas.

(Comer, dormir, amar
são relatos de vozes:
recolhe-te aos ouvidos)

O vinho que bebo
somado à minha sede
transborda da garrafa.

 

BOI

Na noite noite
a solidão
avança
atravessa
pastos e sombras
funda
uma clareira no tempo
com seu olhar de mansa rês
a sede extraviada
só mugido.

 

 

Fonte:
Estação Recife
Coletânea Poética III
Recife - 2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura - Fundação de Cultura da Cidade do Recife
Organizadores: Everardo Norões, José Carlos Targino e Pedro Américo de Farias

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos