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Maria Amélia
(1957 São Paulo)

 

 


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Música de jazz

Onde se possa saber o ponto certo,
lá estará minha dúvida.
Que te encontre à espera,
porque será certeira,
seta de quatro pontas,
uma em cada direção.
Todos os nortes, pontes cardeais sobre rios reais,
correrá livre, leve, solta, curta,
não perderá tempo.

Eu te direi, assim, todos os verbos,
em conjugação de tempos que não se conhece,
existentes na dimensão do caminho somente,
declinados em doçuras, acúcares, candies.

Virão, após, emoções adjetivas, que de suaves só flutuam,
penas, plumas de enfeite, sombras da forma precisa,
necessárias, acessórias, preciosas,
mínimas, máximas, médias, mediáticas.

Por fim e início, desejos substantivos,
conteúdos das substâncias que dão forma e matéria
e constroem nossas frases noturnas e
os sonhos que nos amanhecem.

É porque o tempo da realidade que nos define
e decide os sujeitos, prediz cada parte da frase,
interpreta por si sentidos suspeitos,
acerta, erra, faz e refaz, mas não perdoa nosso estilo.

Tornamo-nos, então, por força de autoria,
poetas malditos da arte de amar,
pagus, fridas, mallarmés, baudelaires.
somos, sozinhos, capa e contracapa, interior, índice e o final.

Sobra soberana, porém, a dúvida,
nossa vingança e subversão,
questão do ser,
objeto de análise impossível.
Benditos deuses, que nos seduzem!
E preservam, refém,
intacto,
o segredo do querer.

 

as palavras

quero palavras que se escolham,
em meio às todas possíveis.

um tipo de loteria
incomum,
exótica
e precisa.

porque não quero pensares,
imaginares,
sentires.

quero os dizeres profundos,
pendulares,
perigosos,
angulares,
aqueles das paixões.

as palavras que começam os dias
e encerram as noites,
estas que te descrevem em minúcias,
absolutas,
cirúrgicas,
cinzéis.

fazendo-me alma escultora do inexistente,
no ar, a imagem,
no vazio, a matéria,
no éter, a voz.

 

Todos os caminhos

Pelas ruas,
todas as luas
traçam caminhos
em pedras duras.

Mesmo assim,
caminhos de pisar
são chãos de estrelas,
por onde se perde o olhar.

Lagos de azuis,
folhas de verdes,
brilhos de prata,
auroras de lilás.

(perduras em mim,
feito sonho que não se vai
no amanhecer de acordar,
de levar longe qualquer pensar.

continuas em mim,
no dentro de todas as partes,
como quimera escondida
de lendas que não se contam mais.

pertences a mim,
tesouro de não se guardar,
mas, que em teimosia sem fim,
insisto em não enterrar.

sim, permaneces em mim,
tuas linhas e passos,
teus traços e toques,
teus sons e perfumes.

em minh'alma escrita,
tua poesia contagia os dias
em atmosferas de marte,
vermelhas, cardíacas.

são as trilhas que em mim abriste,
sem que me desse conta do risco e desatinos,
e nem me apercebesse que, nas manhãs quando partiste,
levaste a mais de mim todos os caminhos.)

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

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