VOLTAR À PÁGINA INICIAL

 

Marcus Accioly
(1943 Aliança/Pernambuco)

 

 


A
B C D E F G H I J K L M

N O P Q R S T U V W X Y Z

 

 

A irrealidade mitológica

Da nossa vida em meio da jornada 
entre armas e barões assinalados 
tendo perdido a verdadeira estrada          abertura
vi-me por mares nunca navegados 
selva selvagem Tróia incendiada 
muitos heróis nas guerras esforçados: 
Aquiles Odisseus Vascos Enéias 
ó comédias tragédias epopéias 

como um Atlas girando o globo inteiro
levanto do instrumento o solo rude
não de tuba canora o som guerreiro
nem músicas e danças do alaúde
mas da terra o som alto e verdadeiro
que embora acenda o peito e o gesto mude
dos mares sem Cabrais e sem Colombos
suspende um novo canto sobre os ombros

cessem do grego do troiano e luso 
o profundo pensar e o sonho extenso 
cale-se a voz de sal do mar confuso        proposição
e o céu escute o trom do meu silêncio 
desça a corda dos ventos feito o fuso 
da tempestade e cesse o canto imenso 
de Homero de Virgílio e de Camões 
que eu vou cantar as épicas canções 

piso da terra para o espaço pleno
meus pés vacilam entre os dois abismos
porém firmando as mãos no céu ordeno:
é preciso subir quando é preciso
sei que a montanha é alta e eu sou pequeno
ó descida ó estágio ó alpinismo
rolarei para sempre (novo Sísifo)
a pedra do poema até os píncaros

ó Calíope Érato Melpômene 
daí-me Musas a força e a coragem 
para levar (eu pecador eu homem)          inovação
a minha pedra áspera e selvagem                pagã
dai-me um rio nas mãos - na voz um nome 
luz nos olhos - nos pés uma viagem 
quero a fúria de um canto tão sem par 
que remova a montanha para o mar
e Tu ó Deus Triângulo Trindade 
3 Palavras 3 Símbolos 3 Números 
3 Pessoas 3 Coisas 3 Verdades                inocação
3 em 3 3 em 2 3 em 1 Único                        cristã
dá-me na terra ó Tríplice Unidade 
Deus Antes e Depois 1º e Último 
a fé para cantar e o dom também 
ó Pai e Filho e Espírito amém 

3 vezes digo: Santo Santo Santo
ouço 3 vezes 3 vezes me calo
se te chamei 3 vezes no meu pranto
3 vezes Te neguei antes do galo
ó Todo-Poderoso dá-me o canto
não da flauta de ApoIo Pã ou Fauno
mas da Bíblia das águas onde eu li
salmos cantados pelo rei Davi

inspira ó meu Senhor com esse Teu sopro
o barro deste canto em minhas mãos
dá-me o pulmão do mar que é sempre fôlego
uivando sobre as praias com seus cães
ó dá-me de Netuno o vento rouco
com que ele caçando os Leviatãs
tange o sino do mar (búzio de areia)
que afoga a voz das líricas sereias

 

o amor-real

o amor foi rude (ou não foi mesmo o amor?)
curvou minha cabeça (ou minha espinha?)
deixou-me branco e preto (sem a cor
dos olhos) ah o amor fez-me farinha

e pó e só (o amor quebrou-me o braço)
e dó de mim e dó do amor e re-
paro no coração (o amor é pássaro
ou é serpente?) o amor deixou-me a pé

e doente de mim (o amor matou-me
com sua mão de anjo ou de demônio)
sem leito de hospital (o amor curou-me

de outros males) o amor fez-me tão louco
como um louco (o amor fez-me tão cômico)
por que o amor foi muito e eu fui tão pouco?

por que o amor não foi como a razão?
por que não foi qual deveria ser:
com mais cabeça e menos coração?

por que me amoleceu na sua rede
e para me matar do seu morrer
dentro da água me afogou de sede?

por que foi como foi e nunca foi
e nem deixou de ser e não mudou
depois que me mudou? (o amor é um boi
ou o Minotauro que Teseu matou?)

por que não foi a paz que a gente espera
dentro da guerra? (nunca ninguém vê
o amor pelos meus olhos?) ele é fera?
(por que o amor ficou sendo um porquê?)

foi cantiga de roda o amor? (foi música?)
foi ciranda do mar? (foi barco ébrio?)
foi uma flor de sangue em minha túnica?
(que foi o amor?) foi a canção do tédio

sem remédio? (foi tempo sem relógio?)
ou foi um bicho que roeu meu sonho?
(foi álcool que bebi?) o amor foi ópio?
(foi meu amigo o amor?) foi um estranho?

(foi ou não foi?) o amor foi um punhal
nas minhas costas? (foi um bisturi?)
ou o amor foi o bem que traz o mal?

(aonde foi o amor?) eu fui aonde?
(sou eu quem chora ou é o amor que ri?)
por que eu fui tão pequeno e o amor tão grande?

o amor foi sempre um bonde? (foi um trem?)
foi um navio ou um avião? (foi má-
quina?) o amor foi um? (foi dois?) foi cem?

(foi mil?) ou não foi nada? (foi ninguém?)
foi gargalhada o amor? (o amor foi lá-
grima?) foi paraíso ou foi também

inferno? (o amor foi ferro em brasa viva
sobre a carne?) foi pulsos entre algemas?
(foi mão que espanca e unha que se criva
na pele?) foi cadeia? (o amor foi penas

de morte?) foi tortura sobre o sexo?
(ou foi amor o que não é o amor:
côncavo abismo sob o céu convexo
e águas subindo até a minha dor?)

 

De quando um grilo é o mar e vice-versa

um grilo imita o mar com sua voz
(ou o mar é um grilo-verde que só canta
e rói o tempo com seu canto?) dói
o som da água dentro da garganta

do inseto com seu pote de canção
(ou do mar com seu búzio de silêncio?)
vaza uma lua em sol (ou a solidão
do mar de estrela e vaga-lume dentro?)

desce o sereno e sobe a maresia
(que importa a maresia ou o sereno?)
tão grande é o mar e o grilo é tão pequeno

(mas dos dois é tão gêmea a cantoria
que se a onda recua e a asa se expande
o mar fica pequeno e o grilo grande)

 

 

Fonte:
Estação Recife
Coletânea Poética III
Recife - 2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura - Fundação de Cultura da Cidade do Recife
Organizadores: Everardo Norões, José Carlos Targino e Pedro Américo de Farias

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos