A irrealidade
mitológica
Da nossa vida em meio da jornada
entre armas e barões assinalados
tendo perdido a verdadeira estrada abertura
vi-me por mares nunca navegados
selva selvagem Tróia incendiada
muitos heróis nas guerras esforçados:
Aquiles Odisseus Vascos Enéias
ó comédias tragédias epopéias
como um Atlas girando o globo inteiro
levanto do instrumento o solo rude
não de tuba canora o som guerreiro
nem músicas e danças do alaúde
mas da terra o som alto e verdadeiro
que embora acenda o peito e o gesto mude
dos mares sem Cabrais e sem Colombos
suspende um novo canto sobre os ombros
cessem do grego do troiano e luso
o profundo pensar e o sonho extenso
cale-se a voz de sal do mar confuso proposição
e o céu escute o trom do meu silêncio
desça a corda dos ventos feito o fuso
da tempestade e cesse o canto imenso
de Homero de Virgílio e de Camões
que eu vou cantar as épicas canções
piso da terra para o espaço pleno
meus pés vacilam entre os dois abismos
porém firmando as mãos no céu ordeno:
é preciso subir quando é preciso
sei que a montanha é alta e eu sou pequeno
ó descida ó estágio ó alpinismo
rolarei para sempre (novo Sísifo)
a pedra do poema até os píncaros
ó Calíope Érato Melpômene
daí-me Musas a força e a coragem
para levar (eu pecador eu homem) inovação
a minha pedra áspera e selvagem pagã
dai-me um rio nas mãos - na voz um nome
luz nos olhos - nos pés uma viagem
quero a fúria de um canto tão sem par
que remova a montanha para o mar
e Tu ó Deus Triângulo Trindade
3 Palavras 3 Símbolos 3 Números
3 Pessoas 3 Coisas 3 Verdades inocação
3 em 3 3 em 2 3 em 1 Único cristã
dá-me na terra ó Tríplice Unidade
Deus Antes e Depois 1º e Último
a fé para cantar e o dom também
ó Pai e Filho e Espírito amém
3 vezes digo: Santo Santo Santo
ouço 3 vezes 3 vezes me calo
se te chamei 3 vezes no meu pranto
3 vezes Te neguei antes do galo
ó Todo-Poderoso dá-me o canto
não da flauta de ApoIo Pã ou Fauno
mas da Bíblia das águas onde eu li
salmos cantados pelo rei Davi
inspira ó meu Senhor com esse Teu sopro
o barro deste canto em minhas mãos
dá-me o pulmão do mar que é sempre fôlego
uivando sobre as praias com seus cães
ó dá-me de Netuno o vento rouco
com que ele caçando os Leviatãs
tange o sino do mar (búzio de areia)
que afoga a voz das líricas sereias
o amor-real
o amor foi rude (ou não foi mesmo o amor?)
curvou minha cabeça (ou minha espinha?)
deixou-me branco e preto (sem a cor
dos olhos) ah o amor fez-me farinha
e pó e só (o amor quebrou-me o braço)
e dó de mim e dó do amor e re-
paro no coração (o amor é pássaro
ou é serpente?) o amor deixou-me a pé
e doente de mim (o amor matou-me
com sua mão de anjo ou de demônio)
sem leito de hospital (o amor curou-me
de outros males) o amor fez-me tão louco
como um louco (o amor fez-me tão cômico)
por que o amor foi muito e eu fui tão pouco?
2º
por que o amor não foi como a razão?
por que não foi qual deveria ser:
com mais cabeça e menos coração?
por que me amoleceu na sua rede
e para me matar do seu morrer
dentro da água me afogou de sede?
por que foi como foi e nunca foi
e nem deixou de ser e não mudou
depois que me mudou? (o amor é um boi
ou o Minotauro que Teseu matou?)
por que não foi a paz que a gente espera
dentro da guerra? (nunca ninguém vê
o amor pelos meus olhos?) ele é fera?
(por que o amor ficou sendo um porquê?)
3º
foi cantiga de roda o amor? (foi música?)
foi ciranda do mar? (foi barco ébrio?)
foi uma flor de sangue em minha túnica?
(que foi o amor?) foi a canção do tédio
sem remédio? (foi tempo sem relógio?)
ou foi um bicho que roeu meu sonho?
(foi álcool que bebi?) o amor foi ópio?
(foi meu amigo o amor?) foi um estranho?
(foi ou não foi?) o amor foi um punhal
nas minhas costas? (foi um bisturi?)
ou o amor foi o bem que traz o mal?
(aonde foi o amor?) eu fui aonde?
(sou eu quem chora ou é o amor que ri?)
por que eu fui tão pequeno e o amor tão grande?
4º
o amor foi sempre um bonde? (foi um trem?)
foi um navio ou um avião? (foi má-
quina?) o amor foi um? (foi dois?) foi cem?
(foi mil?) ou não foi nada? (foi ninguém?)
foi gargalhada o amor? (o amor foi lá-
grima?) foi paraíso ou foi também
inferno? (o amor foi ferro em brasa viva
sobre a carne?) foi pulsos entre algemas?
(foi mão que espanca e unha que se criva
na pele?) foi cadeia? (o amor foi penas
de morte?) foi tortura sobre o sexo?
(ou foi amor o que não é o amor:
côncavo abismo sob o céu convexo
e águas subindo até a minha dor?)
De quando um grilo é o mar e vice-versa
um grilo imita o mar com sua voz
(ou o mar é um grilo-verde que só canta
e rói o tempo com seu canto?) dói
o som da água dentro da garganta
do inseto com seu pote de canção
(ou do mar com seu búzio de silêncio?)
vaza uma lua em sol (ou a solidão
do mar de estrela e vaga-lume dentro?)
desce o sereno e sobe a maresia
(que importa a maresia ou o sereno?)
tão grande é o mar e o grilo é tão pequeno
(mas dos dois é tão gêmea a
cantoria
que se a onda recua e a asa se expande
o mar fica pequeno e o grilo grande) |