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Marcos D'Morais
(1966 Recife/Pernambuco)

 

 


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Antes das Cidades existiam Poetas

Antes destes teus símbolos submersos
Dos teus palácios, pontes e aquedutos
Dos afrescos, vitrais, trilhos transversos
E da matéria cinza dos viadutos

Antes das ruínas, fortes e dos arcos
Das arenas, passeios e academias
Do sol refrigerado e dos teus marcos
Como as veias de aço destas ferrovias

Quando a taverna ardia em dor perdida
E amar a biblioteca atava a vida
Do teu porto secreto uma utopia

Fazer poesia e declamar ao nada
Sem viagens colossais, vê-la florada
Neste corpo meu, a tua geografia.

 

O Enfeite

Mantenho na alma exóticos sabores
Músicas de lugares sem medidas
Epístolas e flores repelidas
Enfim, o que despedes entre as cores

Consumo-me em calmantes, mar e rima
Na cinematográfica sessão
Receitas, mal secreto, confissão
Enfim, o que conspiras sem estima

Mas o meu amor com bálsamo e perfume
Onde emerge ciência na poesia
Vive nesta cidade solitário

Mas o meu amor com cântico e queixume
Acorda para o enfeite, a melodia
Peixe nesta cidade preso, o aquário.

 

Verso Preso

De livre não tenho nada
Nem a alma
Pregada nesta cidade azulada
Nem uma palavra

Tudo em mim é gravidade
Afunda
Poemas de pedra
Sonhos de chumbo

A liberdade é uma invenção
Para vender passagens...

Meu barco é composto
Por âncoras
Minha virtude por vícios
De livre não tenho nada
Só o sacrifício.

 

O Caos


Dias
Em
Que
A
Poesia
Não
Vem
A
Mulher
Não
Olha
E
O
Garçom
Nos
Ignora.

 

Poesia de Panorama

Gosto da Ilha do Recife
De suas trilhas sem direção
De seus prédios centrais abandonados

Gosto tanto desta ilha
Com seus romances furtivos
Em sua solução de saliva cítrica

Temos poesia de fazer inveja aos franceses...

Gosto de ver o rio passar
Com sua lama
Sem seu remorso
Uma máquina de lavar.

 

Belas Artes

Não, não estavas morta
Apenas dormias com a calma
Que se eleva depois da ventania
Da guerra ou do amor

Eu podia ver-te entre os tempos
Ou ausente deles
Quando eras menina, rapariga
Ou agora, melhor, como fruta caída

Eu podia sentir a tua pele
Quase transparente
Os teus vasos sanguíneos
Dentre as serpentes

Parecias imune
Aos venenos...

Não, não estavas morta
Apenas pousavas de Senhora
De deusa suicida
Ou rainha abandonada
Como nas belas artes.

 

Intoxicação

Andei lendo poemas fortes
Que me fizeram um mal
Incomensurável.
Já não tenho os mesmos
Bons olhos de antes. Tudo
Agora se passa por trás de
Uma vidraça embaçada.

A minha triste alma saturou-se
Da palavra
Do destino atrelado a cada
Uma. Imagina agora que é felina
Na cidade, envolta, entre grades.

Não sei como recuperar
A saúde, nem como
Evitar este vício.
Este buraco
Fundo que tudo abraça
E nada aquece.

 

Ruínas

Fora deste cinema abandonado
Onde luzia em néon o teu nome
E agora no desuso se consome
Fora deste cinema abandonado

Longe deste mosteiro dentre chamas
Onde me flagelava por teu nome
E hoje na eternidade se consome
Longe deste mosteiro dentre chamas

Lugar que não me alcance a mão humana
Que não me alcance a inútil dor humana
E Lisboa sequer em sonho exista

Lugar onde não há literatura
Nem boa, nem a melhor literatura
E Lisboa sequer em verso exista.

 

Da Teoria do Poema

Quando um poeta sofre a sua encarnação como poeta sente também necessariamente angústia em relação a qualquer perigo que possa acabar com ele como poeta.
Harold Bloom

Escrevo contra todos os poemas
De coração contra o maior do que eu
O que se eleva dentre três dilemas
E redefine cada verso meu.
Escrevo contra todos os poetas
Em particular contra este brutal
O que não mata, então desinquieta
E me desterra qual o filho mal.
Escrevo com os punhos bem cerrados
Como se versus Mohamad Ali
Na esperança de não ser derrubado.
Escrevo tudo pelo contra enfim
Certo de que no inverso, logo ali
Alguém escreverá de encontro a mim.

 

Atracar

      A César Leal

Empresta-me o teu éter
A tua bomba de elisão à dor
Empresta-me o teu sangue
Infectado de poemas bons
O teu terno sujo de luxo
Ao menos na fotografia
Empresta-me o teu sol
Para um novo rei melhor
As tuas cordas e teus metais
Empresta-me as palavras
Os ácidos e os sais
Empresta-me o teu mar
Os sonhos de corsário
Teu objecto de trabalho
Empresta-me o teu chá
E chocolate
Empresta-me o mercúrio
O chumbo e a prata
A data de aniversário
Os parabéns
Empresta-me tua agenda
O teu mapa, tua senha
E os memorandos também
Empresta-me a tua espada
O canhão, a artilharia
O vinho e as especiarias
Empresta-me tuas mãos e anéis
Tuas linhas do futuro
Tua família, teu único cão
Empresta-me a tua alma
A tua fé. Amém.

 

Fontes:
Livro Recife Porto
Editora Universitária
Recife 2004

Da Destruição do Poema
Editora Universitária
Recife 2007

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos