ILUMINURAS
QUADRO 1
Os mitos são jovens
E estão nas ruas…
Têm
alma de homem
Seguem coloridos
Formando um rio de almas
Pela selva de concreto…
Mas
nem todos estão juntos…
Sempre há um, solitário,
Que segue cabisbaixo,
De camisa listrada,
Com testa listrada
E olhar perdido
À margem
–
e dentro –
Do mar de pedra
E do rio de espectros…
Segue, humano,
Com mãos sobrepostas em oração,
Pelo caminho de pedras e perdas
Na companhia do olhar triste
De
um cão.
Mas sobre o tudo
E sobre seu olhar perdido
E sobre as almas perdidas
E sobre sua testa listrada
Repousa
um quê de claridade…
Ele – tão homem e tão margem e tão concha –
Tem algo de santo:
Uma
auréola-nuvem!
QUADRO 2
O céu chumbo da tarde
É só tristeza
A sombra no chão castanho
É só pedra…
No
encontro dos homens
Há
uma névoa de mesmice.
Sempre
há um de costas
E,
na face de areia do outro,
Não
se vê olhar…
Nas mãos dos outros homens
– nos calos-mãos dos homens –
Existe uma ameaça oculta:
Sempre
há pedra
Na
mão que afaga…
Porém,
A ameaça verdadeira
Se oculta de tão explícita
(as antenas e os telhados observam-na calados):
Há um homem
De olhar desesperadamente verde
Com as mãos no coração
Segurando por um fio
Um vôo verde-esperança,
Mas amarelo-pavor…
QUADRO 3
No Éden.
Eles
são só expressão…
Os
pés, cinzas…
Não há jardim
Nem fruto,
pois
o proibido
é
tudo
e
o ar é serpente…
No corpo dela, a dor
No olhar dele, nada…
E,
em suas mãos,
O
mundo!
Tudo é sombra escarlate
no chão de pedra e lama…
De que serve olhar o céu?
Não há olhar,
Olhos não há mais
E a telha de zinco
Esconde o céu
e
Deus…
QUADRO 4
Cores primárias
Almas
primárias
E a clausura…
Aberta.
Aberta?
Alinham-se os homens,
As
mulheres…
Três a três
No
ménage a trois
Dos
corpos
Sem
rostos…
Três Josés (e agora?)
Três Marias (Amém!)
Para
onde irão?
Tudo são homens, mulheres e grades!
QUADRO 5
No quarto vazio
Tudo é janela
E
só a janela
Ilumina
o quarto
Vazio
de luz…
Mas não está tudo vazio…
Há uma forma de mulher
Que espanca os ouvidos
E se esconde da luz
Por trás dos cabelos azuis…
Esconde-se
da turba
Iluminada
do lado de fora
Que
a aponta pela janela.
Acusam-na pela janela…
Mas a mulher-vermelho-sangue chora
E, descaradamente,
Acusa
o mundo!
QUADRO 6
No dia da primeira fuga
Um olhar triste de mulher
Viu meus pés longos
Se chagarem pela via
Cravejada
de pedras…
E eu era quase cem por cento
De pedra na alma…
Um
rochedo avolumou-se
Com
ar de cidade
E
eu parti
Marrom
e triste
Como
um cachorro marrom
E
triste…
O céu era nuvem e
O olhar triste de mulher esperou,
Elevando ao infinito uma nuvem de fumaça,
O dia em que eu voltaria para
– talvez menos marrom e menos triste –
fugir
de novo…
QUADRO 7
Todo homem olha…
Mas poucos observam
E mais solitários são os que pintam,
Com o próprio sangue,
Os
homens
Que seguem, em fila indiana,
Do nada ao não…
Mas, na solidão
Do xadrez de minha camisa,
Paro e contemplo…
Tudo
é observ-ação!
QUADRO 8
Para além das pedras cegas
Está a cidade toda rio…
A
utopia nossa…
Para cá das pedras cegas
Está o muro de pedras cegadas,
Atônitas, pasmadas e estarrecidas!
Uma
pedra serenamente
Se
faz homem
De
camisa aberta
E
peito nu…
Eis que, docemente, se esforça
E arqueja para tocar a vida verde
Enraizada no tijolo ocre
do
acre mundo!
QUADRO 9
As cores do céu
Ressaltavam os gestos do chão…
Livremente
um pássaro
Ganhava
o imenso,
Rasgando
as amarras
do
ar…
uma flor brotava na pedra
enquanto a mãe,
infinitamente, olha
seu menino-rei do nada
invejar
o pássaro
e
abrir, num salto, os braços
para
ganhar o imenso
numa
tentativa de Liberdade…
QUADRO 10
Eu contemplava o mar
E amanhecia com o mundo…
Naquele
momento
A
vida era as luzes
Ainda
acesas
Que não mais iluminavam
A cidade
Nem
os homens-outros
Que, como postes,
Não contemplavam o mar…
Estavam na rua
Humildemente esperando
As
lojas abrirem. |