| TERCEIRA BEIRA
Isso que te fere
Isso que te vara
É a verdade na vera
É a garra da tua própria fera
Escondida debaixo do sofá da sala
Isso que te varre
Isso que te vira
É a vontade da fúria
É o ouriço guardado na caixa
De vidro que esqueceste na maré baixa
Isso que te persegue pela madrugada
Essas sombras que ziguezagueiam na vista
Essa pista de fuga e partida, esse estrondo
É o som que escutas batendo em tua porta fechada
Isso que revolve a tua pasmaceira
Isso que te pesa na parte esquerda da face
Isso que se entranha em teu gesto e maneira
É a terceira beira do rio que não atravessaste
FONTE
A Arnaldo Tobias
Mesmo contra todos os
prognósticos
(palavra horrível)
ainda acredito no riso
embutido na boca
destroçada pelo soco.
E mesmo contra todos os
indícios
(palavra dúbia)
ainda creio no azul
do sim feito encarnado
na garganta navalhada.
E apesar de tanta pedra
voando
(palavra incrível)
sinto e penso ser possível
no pássaro soterrado
ainda um rumor de asa.
NATAL 2001
Então, como não encontramos em Belém,
aliás, não encontramos nem Belém,
e não vimos nenhum sinal no céu,
vamos procurar
nos casebres das favelas,
nos mocambos sobre o mangue,
nas casinhas de taipa do sertão,
debaixo das pontes,
nas mais ricas maternidades,
vamos procurar;
porque em algum lugar do mundo
deve estar nascendo um novo mundo;
até mesmo de nossa procura
deve estar nascendo um novo mundo
e é por isso que somos reis
e é por isso que somos magos.
O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS
que é quando
as panelas penduradas nas barracas da feira
tornam-se uma bateria
de holofotes cegantes
que é quando
o pássaro pintado a carvão
no muro amarelo
pega fogo e se mistura ao amarelo
que é quando
o céu fica tão raso
que nenhum deus pode habitá-lo
e a gente segue com passos mais nítidos |