VOLTAR À PÁGINA INICIAL

 

Marco Polo Guimarães
(1948 Recife/Pernambuco)

 

 


A
B C D E F G H I J K L M

N O P Q R S T U V W X Y Z

 

 

TERCEIRA BEIRA

Isso que te fere
Isso que te vara
É a verdade na vera
É a garra da tua própria fera
Escondida debaixo do sofá da sala

Isso que te varre
Isso que te vira
É a vontade da fúria
É o ouriço guardado na caixa
De vidro que esqueceste na maré baixa

Isso que te persegue pela madrugada
Essas sombras que ziguezagueiam na vista
Essa pista de fuga e partida, esse estrondo
É o som que escutas batendo em tua porta fechada

Isso que revolve a tua pasmaceira
Isso que te pesa na parte esquerda da face
Isso que se entranha em teu gesto e maneira
É a terceira beira do rio que não atravessaste

 

FONTE

A Arnaldo Tobias

Mesmo contra todos os
prognósticos
(palavra horrível)
ainda acredito no riso
embutido na boca
destroçada pelo soco.

E mesmo contra todos os
indícios
(palavra dúbia)
ainda creio no azul
do sim feito encarnado
na garganta navalhada.

E apesar de tanta pedra
voando
(palavra incrível)
sinto e penso ser possível
no pássaro soterrado
ainda um rumor de asa.

 

NATAL 2001

Então, como não encontramos em Belém,
aliás, não encontramos nem Belém,
e não vimos nenhum sinal no céu,
vamos procurar

nos casebres das favelas,
nos mocambos sobre o mangue,
nas casinhas de taipa do sertão,
debaixo das pontes,
nas mais ricas maternidades,
vamos procurar;

porque em algum lugar do mundo
deve estar nascendo um novo mundo;

até mesmo de nossa procura
deve estar nascendo um novo mundo

e é por isso que somos reis
e é por isso que somos magos.

 

O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS

que é quando
as panelas penduradas nas barracas da feira
tornam-se uma bateria
de holofotes cegantes

que é quando
o pássaro pintado a carvão
no muro amarelo
pega fogo e se mistura ao amarelo

que é quando
o céu fica tão raso
que nenhum deus pode habitá-lo
e a gente segue com passos mais nítidos

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos